Conversas de jovem morta no CE citam abusos de namorado e desejo de 'sumir'


Com o impacto da queda, o aparelho da jovem ficou seriamente danificado. As equipes técnicas conseguiram recuperar apenas as mensagens enviadas e recebidas até as 2h da manhã do dia 13 por meio de um backup em nuvem. O histórico compreendido entre as 2h e as 20h40 —horário estimado do óbito— não pôde ser restaurado.
O conteúdo recuperado permite inferir, desde já, a existência de violência psicológica, ao mesmo tempo em que sustenta a continuidade da linha investigativa destinada a verificar eventual induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio, especialmente diante da proximidade temporal entre o agravamento do sofrimento emocional da vítima, a afirmação de que desejava 'sumir', a elaboração da mensagem de despedida e o resultado morte.
Trecho do pedido de prisão expedido contra o bacharel
Segundo relato da mãe da vítima, Isabelle enviou sua última mensagem na noite de domingo, instantes antes de morrer, dizendo que a amava.
Nos registros recuperados, a polícia destaca que a estudante relatou sentir-se "ameaçada, manipulada, pressionada, sobrecarregada e presa", afirmando que as atitudes de João "lhe faziam mal e a adoeciam".
A Polícia Civil aponta que João chegou a instalar uma "câmera particular na soleira da porta da frente do apartamento". Os investigadores destacam que "essa câmera foi retirada, sem informações precisas do momento em que ocorreu, o que levanta suspeitas sobre a possibilidade de remoção após os fatos".
No requerimento de prisão preventiva, os delegados ressaltam ainda que o relacionamento era "marcado por múltiplas assimetrias", observando que Isabelle tinha 22 anos e atuava como estagiária em um escritório de advocacia no qual João exercia "posição de ascendência profissional".
Depoimento traz relatos da vítima sobre o relacionamento
Em depoimento prestado à Polícia Civil, um primo de Isabelle relatou que, uma semana antes de morrer, recebeu uma ligação da universitária na qual ela afirmava "não suportar mais João" devido ao ciúme excessivo e à proibição de manter contato com familiares e colegas de trabalho.
Durante a chamada, o familiar contou ter ouvido a voz de João ao fundo ordenando: "Desliga esse telefone, estou mandando".
Na ocasião, Isabelle declarou que pretendia denunciar o namorado na Justiça do Trabalho. Diante do clima de tensão, ela alertou o parente de que "tudo o que acontecesse com ela, a partir daquele momento, deveria ser investigado" e reforçou: "Não acredite nele".
Duas horas antes de morrer, Isabelle enviou um áudio de 16 minutos ao primo detalhando uma discussão com o namorado. Na gravação, a jovem afirmou estar sendo ameaçada e declarou que, caso algo lhe acontecesse, João seria o responsável.

A prisão pedida
No pedido encaminhado ao Judiciário, os delegados citam que o relacionamento era "marcado pela possessividade dele em relação a ela", que o investigado exigia "acesso permanente à sua localização" e controlava aspectos de sua vida "familiar, financeira, sexual e profissional".
Ao decretar a prisão preventiva de João, a juíza Fabrícia Ferreira de Freitas registrou que "a vítima estava sob intensa pressão psicológica e evidente esgotamento diante das investidas controladoras do namorado".
A magistrada acrescentou que a estudante foi submetida a "práticas de vigilância, manipulação, constrangimento, pressão emocional, insistência sexual, interferência em suas decisões e controle de sua localização e de aspectos de sua vida financeira".
"Demonstrada a gravidade dos fatos, evidencia-se a necessidade da prisão preventiva para a garantia da ordem pública, por conveniência da instrução criminal e para assegurar a aplicação da lei penal", concluiu a juíza na decisão.
A coluna tentou falar sobre as alegações com a advogada de defesa de João, mas não conseguiu. O espaço segue aberto pra manifestação.
Reportagem
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