Os EUA foram o arsenal da democracia; agora estão desarmando a imprensa

A decisão fundamental da Suprema Corte em defesa da liberdade de imprensa nos Estados Unidos é New York Times Co vs. Sullivan (1964), que estabeleceu que autoridades públicas não podem processar por difamação a menos que provem "malícia real" — isto é, que o veículo sabia que a informação era falsa ou agiu com desprezo temerário pela verdade.
Um segundo caso fundamental é New York Times Co vs United States (1971) —o chamado caso dos Documentos do Pentágono, no qual a Corte restringiu fortemente a capacidade do governo de exercer censura prévia ou impedir a publicação de informações sigilosas de defesa.
Nos dois casos, as decisões da Suprema Corte estabeleceram uma barreira elevada para que o governo pudesse silenciar a imprensa. Mas essas decisões esclarecidas são relíquias de uma era passada. As décadas de 1960 e 1970 foram marcadas por uma profunda desconfiança em relação ao governo federal, agravada pela Guerra do Vietnã. A exposição, pela imprensa, das mentiras do governo usadas para justificar a condução daquela guerra conferiu nova legitimidade aos jornais, ao rádio e à televisão.
Meio século depois, o ceticismo público se espalhou para a própria imprensa. Jornalistas aparecem abaixo de advogados e corretores de imóveis em algumas pesquisas. Parte da desconfiança pode ter sido conquistada como resultado de erros e excessos; mas esse é o preço de uma imprensa livre. Hoje, quando os algoritmos das redes sociais priorizam o engajamento, o que por sua vez recompensa o conflito e a indignação, organizações jornalísticas estabelecidas se veem rotuladas como tendenciosas e desacreditadas. O governo Trump tem sido o defensor e litigante mais agressivo nessa campanha de intimidação da imprensa.
Em 2024, a Walt Disney Co concordou em pagar US$ 15 milhões à biblioteca presidencial de Trump e US$ 1 milhão em honorários advocatícios para encerrar uma ação por difamação movida contra sua subsidiária ABC News. A Disney fez o acordo depois que seu principal apresentador —o ex-diretor de comunicações do governo Clinton, George Stephanopoulos —disse que Trump havia sido considerado "responsável por estupro". (Um juiz de Nova York havia determinado que Trump era responsável por "agressão sexual".)
Em 2025, a Paramount concordou em pagar US$ 16 milhões à biblioteca presidencial de Trump para encerrar uma disputa judicial sobre a edição de um programa jornalístico da CBS com uma entrevista da então vice-presidente Kamala Harris. Trump alegou que a edição "inclinou a balança" contra ele na campanha presidencial de 2024 —apesar do fato de que ele acabou vencendo claramente a candidata democrata Harris.
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