Não, o nosso dinheiro não nasce nas árvores

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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do Bom, Mau e o Vilão. Olá, Miguel, bom dia.
Bom dia, muito bom dia.
O teu bom de hoje é um regresso.
É um regresso, sim. O bom é a juíza do caso Sócrates e já tínhamos saudades. Eu tenho a certeza de que as pessoas que nos ouvem estavam cheias de saudades de ouvir falar do caso Sócrates. Ontem, o ex-primeiro-ministro arguido voltou a tribunal e fez um longuíssimo discurso a rever tudo o que já foi dito até agora no julgamento. Um dos argumentos, eu acho que o argumento mais forte, agora olhando para trás, acho que é o argumento mais sólido que ele usou para se defender, foi o de que o Ministério Público perseguiu tudo o que a direita odiava. Isto porque ele estava a falar do TGV. E, portanto, ele acha que isto é um processo político movido pela direita, que inspirou o Ministério Público. E a dada altura, a juíza avisou de que não faz sentido repisar temas sobre os quais já falou, porque isso, para usar as palavras da juíza, é uma perda de tempo. E Susana Séquia tem toda a razão, mas o ponto é mesmo esse. Aliás, o dia de ontem fez-me lembrar um mecanismo que existe na política americana chamado filibuster. É um método em que um deputado fala horas e horas sem parar para evitar que uma determinada medida seja aprovada. E o recorde do filibuster é recente, é de 2025. O senador Cory Booker falou de forma contínua durante 25 horas e cinco minutos, porque depois, passado esse tempo, já não dava para votar mais. E às vezes nesses filibusters os deputados, enfim, lá têm outro nome, leem receitas de cozinha ou leem pedaços de livros que não têm nada a ver com o tema. Enfim, o importante é estarem ali em pé a falarem sem parar para o tempo passar. E eu acho que era uma boa medida, uma aproximação dos julgamentos de José Sócrates a ler o livro de receitas de Maria de Lourdes Modesto. E pronto, ficar ali umas horinhas. Uma boa caldeirada à portuguesa, não é? Sim, eu acho que era adequado.
Quem é o teu mau, Miguel?
O mau é a FENPROF. Este sindicato de professores criticou ontem a experiência que vai ser feita de fusão do primeiro e segundo ciclo. Segundo o ministro da Educação, a ideia é deixar de haver uma mudança tão abrupta entre os dois ciclos, em que neste momento se passa de um momento para o outro, de uma fase em que há apenas um professor para todas as disciplinas, para um outro momento em que há vários professores. Enfim, nós podemos debater se isto é bom ou mau pedagogicamente, mas essa, como é óbvio, não é a preocupação do sindicato. Querem lá saber da pedagogia, isso não interessa para nada. Aquilo que realmente preocupa a FENPROF é saber se esta é uma forma de gerir recursos humanos, se isto é uma forma de resolver o problema da falta de professores. E eu ouvindo isto, pensei: e se fosse? Qual é que seria o drama se arranjasse uma forma de gerir um problema grave para os alunos? Entre haver uma fusão do primeiro e do segundo ciclo ou não haver professores, o que é melhor? Aliás, foi a própria FENPROF que em março deste ano emitiu um comunicado com o título "A falta de professores atinge níveis críticos em Portugal". Ora, como demora muito tempo a formar novos professores da forma tradicional, é preciso, presumo eu, gerir a escassez. Ou então, se calhar, a forma de arranjar mais professores preferida pela FENPROF seria pagar-lhes €10 mil por mês ou €20 mil por mês, e passávamos a ter as pessoas a deixarem as suas profissões para irem dar aulas. Agora, o problema é que eu acho que o dinheiro não nasce nas árvores. Eu tenho ideia de ter aprendido isso numa aula de Ciências da Natureza. Tenho ideia de um professor me dizer que o dinheiro não nasce nas árvores, o que nasce nas árvores são outras coisas. Mas não sei, se calhar a FENPROF tem lá uma árvore qualquer que dá notas, é possível. Ou melhor, até havia a árvore das patacas. Havia a árvore das patacas mítica. Havia uma árvore das patacas. Mas isso era em Macau noutros tempos. Pois. Essa árvore já secou. Já deu o que tinha a dar.
O vilão é o Bastonário da Ordem dos Médicos.
Olha, sim, ontem Carlos Cortes criticou aquilo que diz ser a falta de ambição do governo no reforço do SNS, o chamado Quadro Global de Referência para o SNS 2026-2028, que foi aprovado pelos ministros das Finanças e da Saúde. Prevê que para os próximos anos se mantenha o mesmo número de médicos de família e diz Carlos Cortes: "Se nós, logo à partida, dizemos que não vamos conseguir atraí-los, convenhamos que é uma mensagem negativa que se está a passar." E depois acrescenta: "Devia haver mais ambição, mais vontade." O problema é que Carlos Cortes acha que só faltam médicos no SNS. Segundo ele, o problema é só no SNS. Sendo que qualquer pessoa que tenha problemas de saúde, e eu tenho muitos, eu sou uma pessoa doente, sabe que nem no privado se consegue marcar consultas a tempo e horas. Basta tentar. As especialidades, então, também pode esperar meses. Portugal é um país onde não há um único médico no desemprego, ao contrário do que acontece em muitas outras profissões, mas o bastonário continua a defender que nós não temos um problema de falta de médicos, só mesmo no SNS, segundo ele, é que faltam médicos. Aliás, Carlos Cortes é contra, violentamente contra a abertura de mais vagas nos cursos de Medicina. Não é só ele, que cada vez que eu falo disso aqui, sou inundado de reações. E bem, as pessoas têm todo o direito a discordar de mim e eu agradeço que me enviem diferentes opiniões, como é óbvio, até para me ajudarem a pensar. De qualquer forma, a Ordem não quer, de maneira nenhuma, suspeito eu, que haja mais concorrência entre os médicos, isso é que não, quer simplesmente que o SNS pague mais e mais pelos médicos que existem, sendo que a consequência disso seria a de que os hospitais privados também pagariam mais e mais pelos médicos que existem, porque os hospitais privados não têm propriamente médicos que estejam nos corredores a beber brandy e a fumar cigarros. Até porque isso faz mal à saúde. E nos nossos hospitais. Pronto, ok. Era uma imagem, Paulo. Peço desculpa, aqui o polícia da metáfora. Peço desculpa. Não percebi que era uma imagem. Pronto. Mas se nós tivéssemos médicos nos hospitais a dormir uma sesta, isso é permitido. A dormir uma sesta, nós poderíamos dizer: "Realmente aqui os hospitais privados estão aqui a contratar médicos só para chatear o SNS, quando os médicos poderiam estar a trabalhar". Não, eles lá também estão a trabalhar que nem os malucos. E portanto, se calhar, há uma falta geral de médicos. Mas os médicos não nascem nas árvores, o dinheiro não nasce nas árvores e por isso, se calhar, é preciso tomar medidas diferentes. Mas imagina que tu eras o único jornalista no país. Não gostavas? Já imaginaste qual seria o meu salário? Exatamente. Tudo para gastar em brandy e cigarro. Tinhas uma ordem que ia impedindo ou tentando impedir de alguma forma que houvesse mais jornalistas no país. Paulo, olha, devo-te dizer que não havendo uma ordem dos jornalistas, os nossos organismos corporativos desta profissão de jornalista, também não andam muito longe disto. Enfim, cala a tua boca.
Vamos sem tempo, é melhor.
É melhor.
Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é a juíza do caso Sócrates, o mau é a FNPprof e o vilão de hoje é o Bastonário da Ordem dos Médicos. São as escolhas do Miguel Pinheiro.
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