A democracia precisa do jornalismo em todas as línguas


Ao realizar um levantamento linguístico da região metropolitana de Manila, deparo-me com um paradoxo.
Essa metrópole abriga pelo menos 217 línguas, um número que cresce a cada nova comunidade que encontro. Ainda assim, algumas das línguas indígenas e regionais das Filipinas estão desaparecendo diante de nossos olhos.
Como integrante do grupo etnolinguístico Karay-a, sei o que desaparece quando uma língua enfraquece. Perdemos palavras, junto com canções, rituais, humor, conhecimentos ecológicos, histórias de família e formas de enxergar o mundo. Quando uma língua silencia, um arquivo queima sem produzir fumaça.
Isso não é apenas uma emergência cultural. É uma emergência democrática.
A democracia depende de os cidadãos compreenderem o que está sendo feito em seu nome. O jornalismo ajuda as pessoas a avaliar líderes, acompanhar os gastos públicos, se preparar para desastres, defender seus direitos e participar do debate. Mas a informação não é verdadeiramente pública quando está disponível apenas em línguas que muitos cidadãos não dominam plenamente.
As Filipinas, com cerca de 117 milhões de habitantes, abrigam aproximadamente 175 línguas indígenas vivas, dezenas delas ameaçadas. Ainda assim, o filipino e o inglês dominam a educação, o governo e os meios de comunicação de massa. Das salas de aula aos tribunais, essas línguas muitas vezes determinam quem pode participar com confiança e quem precisa se esforçar diante de um vocabulário desconhecido.
O desequilíbrio transmite uma mensagem clara: as línguas locais pertencem ao ambiente doméstico, enquanto as línguas do poder pertencem à vida pública.
Essa mensagem tem consequências.
Um agricultor pode ouvir falar de uma nova política agrícola sem compreender seus termos técnicos. Uma comunidade indígena pode receber notícias sobre mineração ou disputas de terra em uma língua que não consegue expressar sua relação com o território. Durante tufões, emergências de saúde ou eleições, informações pouco claras podem se tornar perigosas. As pessoas podem recorrer, em vez disso, a rumores ou a publicações enganosas nas redes sociais que falam com elas de forma mais direta.
O jornalismo em línguas locais ajuda a reduzir essa lacuna democrática. Ele faz mais do que traduzir palavra por palavra reportagens produzidas em Manila. Permite que jornalistas façam perguntas diferentes, reconheçam prioridades locais e expliquem acontecimentos nacionais por meio da experiência das comunidades. Reportagens em cebuano, hiligaynon, bikol, waray, ilocano, kapampangan ou kinaray-a podem transmitir sentidos e preocupações que desaparecem em uma versão nacional padronizada.
Foi essa convicção que me levou a fundar a Paraluman News. Eu queria ajudar a construir um jornalismo que não exigisse que as comunidades abandonassem sua língua, identidade ou experiência antes de entrar na conversa pública.
A Paraluman News se apoia em uma crença simples: o acesso à informação não deve depender de alguém falar a língua das instituições, das elites ou das grandes redações. O jornalismo deve entrar nas comunidades, ouvir atentamente e se comunicar de maneiras que as pessoas reconheçam como suas.
Essa também é uma questão sobre quem moldará o futuro da mídia filipina.
Os jovens filipinos muitas vezes são tratados apenas como público ou usuários de tecnologia. Mas podem se tornar repórteres, tradutores, editores, historiadores comunitários e inovadores na mídia. Eles já transitam entre línguas, plataformas e espaços culturais. Sabem como uma história pode passar de uma conversa em um barangay para um grupo de mensagens, um podcast ou um debate nacional.
Com formação, confiança e recursos, os jovens podem liderar a revitalização do jornalismo em línguas locais. Podem registrar as histórias dos mais velhos, produzir vídeos jornalísticos em línguas regionais, criar arquivos digitais e explicar políticas públicas em formatos que suas comunidades possam usar. Podem mostrar que uma língua materna não é uma barreira à modernidade, mas uma fonte de autoridade, criatividade e conexão.
A região metropolitana de Manila revela a promessa e o risco da vida multilíngue. Em mercados, escolas e espaços on-line, kapampangan, pangasinan, chavacano, hokkien, taglish e muitas outras línguas se encontram e evoluem. Mas a migração cria pressão para abandonar a língua materna.
Sotaques regionais são ridicularizados como provincianos, e os falantes aprendem a suavizar os contornos musicais de sua terra natal para soar de maneira considerada aceitável.
As redações podem reforçar essa hierarquia ou desafiá-la. Devem investir em repórteres, editores, apresentadores e correspondentes comunitários que trabalhem em línguas locais e indígenas. Esse trabalho deve fazer parte do jornalismo diário de interesse público, e não ser uma reportagem ocasional sobre patrimônio cultural. Rádios comunitárias, jornais regionais, podcasts e canais digitais merecem apoio contínuo. As universidades também devem formar jornalistas multilíngues.
Apoiar o jornalismo em línguas locais não é simplesmente um projeto cultural. É um investimento em cidadania informada, confiança pública e participação igualitária. Uma democracia não pode afirmar que inclui todos ao mesmo tempo em que exige que milhões de pessoas deixem do lado de fora a língua em que se expressam melhor.
Na semana em que acontece o Dia Mundial do Jornalismo, devemos lembrar que o direito de saber inclui o direito de compreender. O jornalismo só cumpre seu propósito democrático quando as pessoas podem ouvir a verdade, questionar o poder e imaginar seu futuro em uma língua que sintam como sua.
Este artigo de opinião integra a campanha do Dia Mundial do Jornalismo, uma iniciativa para mostrar o valor do jornalismo promovida pelo World Editors Forum, o Project Kontinuun e a Canadian Journalism Foundation.
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