Na Hong-jin e "Hope" no MotelX: um filme "nunca visto antes"

Porque é que “Hope” decorre naquela localidade virtual da Coreia do Sul, tão isolada dos centros urbanos?Quis que a história começasse numa pequena cidade trivial, insignificante, aparentemente sem importância. Ali acontece algo fortuito que acaba por ter impacto e consequências capazes de alterar o curso de todo o universo. Aquele espaço não é só remoto para si ou para a audiência de Cannes. Os próprios sul-coreanos não o conhecem.
O filme combina ficção científica, comédia, acção e, de forma particularmente evidente, elementos do western, pela presença dos cavalos, por exemplo. Era algo que procurava desde o início ou este desenvolvimento foi surgindo organicamente durante a escrita do argumento?
Foi um pouco das duas coisas. Alguns elementos surgiram naturalmente enquanto escrevia, mas, desde o início, queria um filme que incorporasse muitos géneros diferentes. Essa opção também resulta das necessidades da própria história. A comédia, por exemplo, era necessária porque, perante todas as metáforas presentes no filme — e a realidade pouco agradável que é retratada — precisava de uma escapatória, de um certo alívio. A comédia funciona como uma espécie de contraponto àquilo tudo: ao thriller, à acção e ao suspense. Quis fazer um filme que nunca tivesse sido visto antes. Para tornar as cenas de acção interessantes e variadas, era necessário incorporar diferentes géneros. O resultado acabou por levar-me a uma amálgama complexa, a um estilo que eu nunca tinha sido utilizado antes, imprevisível e muito louco.
Disse na conferência de imprensa que o medo do desconhecido está no centro do deste filme. Pode desenvolver essa ideia?
Penso que também podemos formulá-la de outra maneira: um acto inocente, que não contém malícia nem intenções malévolas, pode, ainda assim, resultar num acontecimento que conduz a um resultado extremamente perverso. Essa é outra forma de formular a ideia. O ser humano, por auto-defesa, tem medo daquilo que não conhece.
Quando finalmente vemos o monstro pela primeira vez, ele é especialmente assustador. Mas essa figura também pode ser entendida como uma metáfora da actualidade, a divisão da península corana, as guerras actuais, as ilusões associadas à IA. A fractura entre nações e a possibilidade de confronto também parecem estar presentes. Tinha isto em mente quando escreveu o filme?
Sim. Uma das coisas que pode surpreender o público é esse tipo de associações com o presente. Queriamos lançar esse género de discussões ou, pelo menos, tentar provocá-las nos espectadores.
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