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Tuesday, November 3, 2026

Leia trechos de livro do 'Hilbert da Federal' sobre dias de Lula na prisão

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Já era noite do dia 6 de abril de 2018 quando o avião da Polícia Federal pousou no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais. O helicóptero Caçador 06, também da PF, aguardava a chegada do preso para levá-lo até a sede da Polícia Federal do Paraná, na vizinha Curitiba.

A tarefa não seria comum. Não era apenas um ex-presidente, e sim um líder amado por muitos e odiado por outros tantos, condenado em um processo questionado, com muitos juristas afirmando não haver prova alguma de sua culpa. Para muitos, portanto, a condenação era política —e esse quadro exigia atenção redobrada de nossa equipe.

Durante o voo de aproximadamente 15 minutos do helicóptero, parecia noite de Ano Novo, tamanha a quantidade de fogos de artifício. Era Lula chegando para cumprir sua pena. No trajeto, tripulantes de outras aeronaves entraram na frequência do Caçador 06 com frases de ódio como: "Joga esse lixo pela janela!" ou "Não o soltem nunca mais!", mas foram prontamente repreendidos pelo comandante da nossa aeronave: "Peço que respeitem o meu trabalho e se limitem a falar na fonia somente o essencial." A controladora de voo do aeroporto Bacacheri (próximo à PF e voltado a pequenas aeronaves) endossou a reprimenda: "Senhores, lembrem-se de que toda fonia é gravada, e isso poderá ser utilizado contra vocês." Elogiei a atitude de ambos e, a partir desse momento, houve um silêncio total.

Após um pouso difícil por conta dos fogos de artifício, Lula desembarca. Uma equipe com três policiais o aguardava para conduzi-lo rapidamente até o gabinete da superintendência, evitando sua permanência em áreas descobertas. Era aguardado pelos três delegados responsáveis pela PF no Paraná.

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Permaneci no heliponto, respirando fundo para aliviar a tensão do momento. Ali do topo do prédio tive a sensação de estar observando a história sendo construída. Era possível ver as manifestações de apoio e de repúdio e os flashes da imprensa; ouvia os gritos ensandecidos de ódio, o choro de tristeza e os fogos de artifício por toda a cidade —sons que ainda ecoam em minha mente.

Era a coroação de uma movimentação intensa que havia começado três dias antes. Nesse período, dormi menos de quatro horas por noite, preocupado com os detalhes da operação. Chegava antes das 7h da manhã na Superintendência Regional e, com meus colegas, planejava os procedimentos e padrões de segurança. Ensaiamos mais de uma vez cada passo de Lula, do aeroporto de São José dos Pinhais até a sala montada para ser sua cela.

Havia uma preocupação em especial para que nenhuma informação sobre a operação vazasse para a imprensa.

Nas reuniões com o N.O. (Núcleo de Operações), compos¬to por cerca de dez policiais e por mim chefiado, combinamos de não adotar nenhuma postura que pudesse ser interpretada como contrária ou favorável ao preso. A ordem era "vestir a farda preta", conforme dizia sistematicamente o 061. Faríamos nosso trabalho dentro da mais estrita legalidade, com bom senso nas decisões e mantendo a publicidade de nossos atos.

Naqueles dias de preparação, não acreditávamos que Lula realmente seria preso. Elaboramos quatro planejamentos (A, B, C e D) e fizemos longas reflexões sobre a execução de cada um deles. Tudo foi muito bem elaborado, sem margem para surpresas. Não vou entrar nos detalhes internos de segurança da operação, mas acabamos por executar o plano A.

Em eventos dessa proporção são exigidos amplos recursos dos órgãos policiais, sejam eles físicos ou financeiros, do uso de aeronaves às diárias para alimentação da equipe. Além do desafio psicológico. Afinal, estávamos lidando com uma figura conhecida mundialmente. Era real o risco de algum confronto ou outro acontecimento caótico, exigindo um controle emocional ainda maior de todos os policiais comprometidos com a missão. Um dos maiores desafios foi lidar com a imprensa. O assédio era grande, mesmo que o trabalho de busca de provas e verificação das fontes nos crimes da operação Lava Jato fosse responsabilidade de um grupo restrito de policiais dos quais eu não fazia parte, e suas conclusões também não tiveram a minha influência ou ajuda.

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Costumava dizer aos jornalistas: "Tenho ótimas histórias, a maioria para jamais ser contada." Mas, aos poucos, conforme fui convivendo com Lula, notei que os diálogos eram quase sempre sobre política. Sendo assim, são poucas as confissões que guardei apenas para mim...

Quando a insistência da mídia era muita, eu me guiava pela frase de um colega mais experiente: "Você é escravo do que fala e mestre do que cala." Não podia comprometer o meu trabalho, a instituição ou a segurança do ex-presidente. Conseguimos manter em segredo as informações principais, como o local exato da cela e as rotinas diárias, assim como o horário do banho de sol. O princípio ético do "dever do silêncio", vital para forças de segurança, foi observado por todos os policiais engajados nesse trabalho.

No dia da chegada de Lula, tive minha primeira experiência —desagradável— com a imprensa. Cerca de 15 repórteres me cercaram no portão do prédio e bombardearam: "Quando irão prendê-lo?"; "Como é a cela?"; "Tem frigobar?"; "E ar-condicionado?"; "Cama de casal ou de solteiro?". Não tenho autorização para dar entrevistas, mas acabo respondendo o básico, de improviso. Em pouco tempo, porém, tentando não ser mal-educado, parei de responder e fui me afastando. Já era tarde: soube depois que eu estava ao vivo na GloboNews e em outros canais. Poucos minutos após a entrevista, recebo uma ligação da sede da PF em Brasília puxando minha orelha. Falei ter sido pego de surpresa e acabei não conseguindo contornar a situação. Assegurei que algo assim não iria se repetir.

Após aqueles instantes de respiro no heliponto da PF paranaense que se seguiram ao desembarque de Lula, eu me dirigi à sala da superintendência. Pela porta semiaberta, vi Lula sentado no sofá do gabinete do SR2, tomando um copo d'água. Dava para ouvir os gritos de manifestantes, mas estávamos tranquilos, havia muitos policiais por toda a região.

Após 30 minutos, chegam os advogados Cristiano Zanin Martins e Sigmaringa Seixas. Lula falou pouco, mas com convicção: "É um espetáculo midiático isso que estão fazendo com a gente!". E refutou as acusações: "A história irá provar minha inocência, e será feita justiça a isso que estou vivendo!".

O superintendente, antes de autorizar a condução à cela, afirmou ao ex-presidente lamentar aquela situação, e que todos os seus direitos seriam respeitados. Assegurou ainda que tudo seria conduzido dentro da legalidade, de forma republicana, e que ninguém agiria de forma a piorar sua condição.

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Pedi licença para conduzir Lula até o alojamento convertido em cela, afinal, já havia passado das 22h. Durante o caminho, pouco mais de 50 metros pelos corredores do prédio, Lula continuou calado e com a fisionomia abatida. Uma aparência condizente com o dia incomum, desgastante e desagradável que estava vivendo.

De nossa parte, estávamos física e mentalmente prontos para a missão. Só não contávamos que Lula ficaria aos nossos cuidados por 580 dias.

20/04/2018, sexta-feira. Dia 13

Providenciamos um pão francês com mortadela para Lula. Tendo em vista que não costumávamos permitir a entrada de alimentos diversos, procurei nesse dia, excepcionalmente, disponibilizar algo diferente. O ex-presidente fica muito agradecido e confessa que estava com muita vontade de comer um pão francês, mas tinha vergonha de pedir.

Vamos para o banho de sol às 9h25, e esse é o primeiro momento em que travamos um diálogo mais prolongado —conseguimos mantê-lo ali por uma hora e meia, sem sermos incomodados por drones buscando imagens.

Começa perguntando sobre a esteira e outros aparelhos de ginástica. E também sobre a possibilidade de um acompanhamento semanal com algum médico da cidade. Esclareço que, tanto para a esteira quanto para o médico, é preciso autorização da Justiça, mas normalmente pedidos assim são aceitos. Talvez encontre problemas apenas com a questão da frequência semanal do médico, uma vez que os demais presos da Lava Jato têm autorização para uma consulta a cada 30 dias, e com ele deveria ocorrer o mesmo.

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Começa espontaneamente a falar sobre sua situação, diz que vai dedicar muito tempo de sua vida para provar, em suas palavras, que "o Sergio Moro está errado e foi muito injusto; vou provar que ele trabalha para corporações dos Estados Unidos". Afirmou ainda que o próprio Moro nunca afirmou que ele é dono do apartamento triplex no Guarujá.

E continuou: "Ele está destruindo o país. Não pode prender o gerente de uma fábrica e fechar a empresa por conta disso, punindo milhares de trabalhadores pelos crimes cometidos pelos superiores." Disse ainda achar nossa democracia "fajuta" ao permitir "que este tipo de servidor público seja tão irresponsável e continue atuando".

Avaliou ainda sua condição ali na PF: "80% da população brasileira não tem a mesma condição que eu tenho aqui", e indignou-se com um de seus advogados por ter dito à imprensa que "Lula estava muito bem e feliz".

Afirmou sentir falta de fazer coisas como caminhar e conversar e, mais de uma vez, disse algo nesse sentido: "Quando uma pessoa está presa, tira-se tudo dela, menos a vontade: a vontade de ir ao cinema, de ir à casa de um amigo, de caminhar em um parque? esta vontade não sai da minha mente, e é o pior tipo de privação."

Assegurou ainda, com muita confiança, que nas eleições daquele ano venceria qualquer candidato "de lavada", fosse Bolsonaro, Marina ou qualquer outro.

Procurando entender um pouco mais sobre o universo da política, tomo a liberdade de perguntar sobre Marina Silva. Queria saber, por exemplo, se eram amigos, afinal ela havia sido sua ministra do Meio Ambiente.

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Conta ser amigo de Marina há mais de 30 anos. Contudo, acredita que agora ela está "muito carola". Reforça que, embora seja católico, tem muito respeito pelos evangélicos. Mas não concorda com os pastores que "enganam a população para arrancar dinheiro". Por fim, diz acreditar que algumas pessoas ficam "fanáticas" com a religião, acabam misturando as coisas e tornando-se chatas.

Às 13h30, chega para a visita o ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Sepúlveda Pertence —que também integra sua equipe de defesa—, acompanhado do advogado Sigmaringa Seixas.

Abro aqui um parêntese: após essas visitas, eu me encontrei com o advogado e professor Arnaldo Faivro Busato Filho para tratar de um processo movido pelo ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Na peça, ele reclama sobre como foi tratado por mim no momento da sua condução ao Instituto Médico Legal de Curitiba para um exame de rotina. Queixa-se, em especial, da exigência do uso de algemas.

Condenado a mais de 321 anos de prisão, o sr. ex-governador recebeu o apoio do excelentíssimo sr. Gilmar Mendes, que se sentiu ultrajado pela maneira como Cabral foi conduzido. O ministro do Supremo referiu-se ao ex-governador como "amigo" e julgou necessário instaurar um "procedimento inominado" para investigar nossa atuação. Ressalto que a colocação de algemas em um preso (quando o agente policial julga necessário) é um procedimento padrão.

Suspeito que a ação poderia ser uma eventual tentativa do ministro de levantar informações sobre as estratégias da Operação Lava Jato. Mas, sem saber exatamente as motivações, procuro manter a equipe calma e responder às perguntas sem receio de defender nossa doutrina de trabalho.

Importante explicar que inúmeros outros presos são conduzidos da mesma maneira, inclusive os da Lava Jato. Acabam, inclusive, muitas vezes expostos à mídia —seria praticamente impossível, hoje em dia, esconder um preso das lentes das câmeras, principalmente quando em deslocamento. No entanto, o sr. ministro Gilmar Mendes nunca se sentiu indignado ou ultrajado pelo tratamento aos detidos em tantas outras conduções, especialmente quando se trata de presos pobres.

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"Banho de Sol: os 580 dias de Lula na prisão"
Autor: Jorge Chastalo Filho
Editora: WMF Martins Fontes
592 páginas
Preço: R$ 79,90 / E-book: R$ 58,33
O livro começa a ser distribuído para todo o Brasil a partir de hoje

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