O segredo de Westminster: por que um monge medieval foi parar em um sarcófago romano?
Em 1869, enquanto o deão Arthur Penrhyn Stanley retornava de uma viagem à Itália, operários que realizavam escavações na lendária Abadia de Westminster, no coração de Londres, na Inglaterra, depararam-se com um impressionante sarcófago de calcário.
O achado ocorreu em solo britânico, mas a estrutura era um antigo artefato esculpido séculos antes, durante a ocupação romana na Grã-Bretanha. A descoberta deu início a um enigma histórico: como o corpo enterrado em uma tumba pagã da Roma Antiga acabou sob o piso de um templo cristão medieval em plena capital inglesa?
O caixão de pedra trazia uma dedicatória em latim a um romano chamado Valerius Amandinus, feita por seus filhos entre os séculos II e V d.C. (provavelmente no período constantiniano, no início do século IV). No entanto, sua tampa exibia uma modificação feita centenas de anos depois: uma grande cruz cristã entalhada.
No interior da tumba, acompanhando fragmentos de tijolos romanos, repousava apenas o esqueleto, sem pertences que revelassem de imediato quem era aquele indivíduo.
Leia Mais
A história real da 'maldição' do faraó Tutancâmon que inspirou 'A Múmia' Escavação no Egito revela túmulo e "porta para o além" de antigo supervisor do Faraó Tumba no Egito revela 16 corpos humanos e um cachorro mumificados
O veredito do esqueleto: quem era a figura importante?
Após mais de 150 anos de dúvidas, a solução do mistério foi apresentada pelo arqueólogo e historiador Warwick Rodwell no Journal of the British Archaeological Association.
A nova avaliação osteológica realizada pelo especialista James Langthorne revelou que o esqueleto pertenceu a um homem com cerca de 1,75 m de altura e idade estimada entre 35 e 49 anos no momento da morte. Os exames corrigiram conclusões do século XIX, que sugeriam um indivíduo mais baixo e com no máximo 30 anos.
A datação por radiocarbono efetuada nos ossos confirmou que a morte ocorreu entre os anos 987 e 1052 d.C.. Cruzando os dados biológicos com os registros do mosteiro londrino, Rodwell concluiu que a figura importante era Aelfwig, um monge que atuou como abade de Westminster até sua morte por volta de 1020.
A imponente cruz gravada na tampa do sarcófago reforça seu elevado status, já que tal honra era reservada a grandes líderes eclesiásticos.
Reciclagem de luxo e saques ao longo dos séculos
A reutilização de sarcófagos romanos para sepultar autoridades medievais era uma prática conhecida na Inglaterra anglo-saxã, como registrou o monge Beda no século VIII. Estudos indicam que o caixão de Amandinus foi retirado do nicho de um mausoléu em outra parte de Londres e adaptado para abrigar o falecido abade.
No século XIII, durante a reconstrução gótica promovida pelo rei Henrique III, os restos mortais foram reacomodados na sacristia da abadia.
Registros históricos revelam ainda que a sepultura sofreu violações antes das escavações de 1869: um esboço a lápis feito em 1820 indica que saqueadores quebraram a tampa para roubar objetos valiosos que pudessem estar junto ao corpo enterrado.
Hoje, o sarcófago e a história do abade estão preservados e em exibição pública nas Queen's Diamond Jubilee Galleries, na própria Abadia de Westminster.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.