Morcego ‘vampiro’ ataca e suga sangue de morador no Rio de Janeiro. Caso vira estudo científico
A transmissão da raiva dos morcegos aos humanos, apesar de ser rara no Brasil, tem sido analisada por estudiosos. O assunto teve repercussão após ataques a humanos, como o de Ilha Grande, estado do Rio de Janeiro, na Praia do Mangue, onde um morador foi vítima de espoliação sanguínea por um morcego hematófago.
O estudo feito por pesquisadores da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), divulgado na revista científica Scielo, detalhou o caso e discutiu as consequências e desafios para a profilaxia da raiva humana.
Entenda o caso
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A situação aconteceu no dia 17 de março de 2024, quando o morcego hematófago realizou a espoliação sanguínea, ou seja, mordeu e sugou o sangue de um morador da região de 33 anos, na Praia do Mangue, ao lado da praia de Pouso, na Ilha Grande, no litoral sul do Rio de Janeiro, no município de Angra dos Reis.
Segundo o relato do homem, o animal teria causado o ferimento no dedo do pé, mas ele relatou não sentir dor, só notou a quantidade de sangue no chão.
Ele não viu o animal que tinha causado aquilo, mas colegas alertaram que o ferimento tinha a possibilidade de ter sido por espoliação de morcego.
A partir desse momento, as medidas de profilaxia foram feitas no posto de saúde da ilha. Logo após, ele foi encaminhado ao posto de saúde no continente, no município de Angra dos Reis.
Os órgãos competentes providenciaram a assistência necessária, e o paciente seguiu o protocolo antirrábico devidamente.
Todos os morcegos atacam humanos?
Os morcegos hematófagos, da espécie que atacou o homem no Rio, fazem parte de um grupo de vertebrados parasitos, com apenas três espécies viventes entre as mais de 1.470 espécies da ordem Chiroptera.
Outras espécies como Desmodus rotundus (Geoffroy, 1810), Diaemus youngii (Jentink, 1893) e Diphylla ecaudata (Spix, 1823) se alimentam, exclusivamente, de sangue de animais e com distribuição do norte da Argentina ao norte do México.
Estudos apontavam que o morcego-vampiro-comum, D. rotundus, fosse o único a se alimentar de mamíferos, porém novas descobertas indicaram que D. ecaudata e D. youngii, que anteriormente eram associados a alimentação exclusiva em aves, podem se alimentar também em mamíferos, inclusive em humanos.
Na história, existem relatos de colonos espanhóis e soldados atacados por morcegos ainda no século XVI. Atualmente, no Brasil, os relatos de alimentação de morcegos hematófagos ocorrem principalmente em indígenas e ribeirinhos na região Amazônica.
A preocupação dos pesquisadores é que a presença dessas espécies em áreas rurais e urbanas pode favorecer o consumo de sangue humano e de animais domésticos como cães. A situação é um desafio à vigilância em relação a saúde, uma vez que as mudanças ambientais e humanas podem favorecer a transmissão da raiva dos morcegos aos humanos.
Espécies da região
Na região da Ilha Grande, são conhecidas 37 espécies de morcegos. O espaço é um dos locais do estado do Rio de Janeiro com a maior riqueza e abundância de morcegos. Nos anos de 2015 e 2017, foram reportados outros relatos de ataques à cães e galinhas na Vila Dois Rios, também na Ilha Grande.
Humanos podem ser uma alternativa de alimento para morcegos hematófagos, mas os ataques a humanos são considerados eventos raros. Uma maior frequência de casos é registrada nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, porém sempre com indicações de desequilíbrio ecológico.
Já os cães são a vítima mais atacada no município do Rio de Janeiro e na Ilha Grande, e o ferimento na região dos pés é a situação mais comum.
Captura dos animais para estudo
A captura dos morcegos para o estudo foi realizada no dia 1º de abril de 2024, com estruturas de redes de neblina. Todos aqueles capturados foram analisados e devolvidos à natureza após numerações.
O morcego hematófago foi capturado, eutanasiado e teve uma amostra do encéfalo congelada em freezer e encaminhado ao Instituto Municipal de Medicina Veterinária Jorge Vaitsman, onde foi realizado o exame de Imunofluorescência Direta (IFD) para o diagnóstico da presença do vírus rábico, seguindo o protocolo estabelecido por Brasil.
Profilaxia no Brasil
No Brasil, a vigilância da raiva animal é conduzida pelo Ministério da Saúde e toda a profilaxia é gratuita realizada através do Sistema Único de Saúde. A vacinação pré-exposição e pós-exposição é fornecida em Clínicas da Família, o soro-antirrábico e imunoglobulina são distribuídos em hospitais da rede pública.
O Brasil é o país americano com o maior número de casos de raiva. Os estados de São Paulo e Rio de Janeiro apresentam apenas 61 casos de raiva humana, estando na nona posição entre os estados brasileiros com dados entre 1989-2022, no entanto nas duas últimas décadas, apenas dois casos de óbitos foram notificados.
O Ministério da Agricultura e Pecuária, entre 2014 e 2023, registraram 174 casos de raiva em animais para o estado do Rio de Janeiro, sendo a maioria em bovinos. No município de Angra dos Reis, foram registrados três casos de raiva em morcegos e um caso em bovino, entre 2021 e 2023 (SIRVER, 2025).
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