CNN TürkBakırköy'de tanker devrildi; sızıntı nedeniyle yol kapatıldıPunchDavido’s aide dismisses Okpebholo’s 2.5m vote promise for TinubuThe Jerusalem PostIran giving Yemen's Houthis target intelligence for drone, missile strikes on Saudi Arabia - reportBollywood HungamaKriti Sanon approaches Delhi High Court seeking protection against AI-generated impersonation, unauthorised use of identity한겨레국제이주기구 “기후변화로 2050년까지 남아시아 4천만명 이주” 경고InquirerP1.1M contraband cigarettes uncovered after blaze in Bukidnon houseZDF heuteAktuelle Pressemitteilungen des ZDFColliderPokémon Officially Debuts Its Creepy New Ghost Type for a Limited TimeSouth China Morning PostReporter’s notebook: Kimi’s AI credit card turns spending into computing quotas – with limitsSCMP ChinaLandmark China trial gets 84% efficacy in treating cancer with clue from waste water techInteriaPokój hotelowy z autentycznym kokpitem Boeinga 737. Cena zwala z nógSoompiSeo Kang Jun And Ahn Eun Jin Run Into Each Other On Dates With Other People In “A Love Other Than Yours”
The Daily Newsstand · Free, Always
Saturday, October 17, 2026

De cavalo … para a bicicleta!

Translate

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Sejam bem-vindos. O viajante desta semana tem um percurso ao contrário da maioria dos viajantes. Começou nas quatro rodas, em aventuras todo-o-terreno, em Portugal e em vários continentes, depois passou para as motos e atravessou desertos, zonas remotas e ultimamente tem conhecido o mundo em cima da sua bicicleta dobrável. Bem-vindo, António Cunha.

Muito obrigado, muito bem-vindo, João. É um prazer enorme estar aqui no programa.

António, não sei se é segredo, mas estás de partida para uma viagem em cima da tua bicicleta dobrável. Para onde?

Para os Balcãs. O objetivo é fazer os três países, Bósnia, Montenegro e Kosovo, partindo de Sarajevo até Pristina. São uns 550 km.

Em cima de uma bicicleta pequenina, com umas rodinhas pequeninas.

É muito pequenina. Mas permite também colocar no autocarro ou no comboio. Vou ver da melhor maneira como fazer o percurso. Está mais ou menos traçado, mas a combinação dos dois vai ser feita na altura.

Muito bem. Eu estive a olhar para o mapa, há ali umas montanhas.

São 11 mil metros de acumulado. Para uma pequena bicicleta e para as pernas é muito.

É um desafio.

Mas de certeza que vou arranjar boleias.

Muito bem. É fácil viajar assim nesse registo, António?

Sim, é muito fácil, porque a pessoa põe a bicicleta na mala convencional, não é uma mala extra, vai com as dimensões normais, como se viaja em turismo normal.

Estamos a falar de uma bicicleta muito pequenina, quase cabe num tote bag, quase que a levas debaixo do braço.

Quase, sim. Isso e depois mais um pequeno saco.

Chateiam-te muito nos aviões ou não?

Nada. Não.

Mas é bagagem de porão?

É bagagem de porão, normal. Mas nunca tive problemas. E sim, é isso, a pessoa vai para onde quer.

Muito bem. Vais fazer então Sarajevo, na Bósnia, até Pristina, no Kosovo. O que estás à espera de encontrar? É uma região que tu já conheces?

Não conheço nada, mas julgo que todos que passamos pela década de 90 marcou-nos a guerra da Bósnia. Das Balcãs. E tentar perceber um pouquinho melhor como é que aqueles vizinhos todos não se davam bem, entre cristãos, muçulmanos, etc.

É uma zona de fratura entre vários impérios. E várias religiões.

E etnias.

E etnias também.

Sempre tive curiosidade, nunca aconteceu e penso que vai acontecer agora. Tenho muita curiosidade de ir àquela ponte de Mostar, que todos vimos que explodiu. Mais do que uma opção estratégica, era um símbolo entre religiões, entre cristãos e muçulmanos.

Na cidade de Mostar, de um lado viviam cristãos, do outro lado viviam muçulmanos.

Para mim foi altamente simbólico. Eu sou cristão e portanto para mim aquilo foi altamente simbólico. Felizmente está reconstruída, mas tenho muita curiosidade em passá-la de bicicleta.

Simbólico pelas piores razões. Ou não?

Sim, claro.

É um sinal da destruição e do ódio.

Sim, e de separação entre as duas religiões. Que sempre conviveram durante séculos. E que naquela altura acabou. O que eu vou à procura é, obviamente, as questões mais dos parques naturais, que eles têm o Dormitor, Tara, etc. Mas é mais por cultura que vou.

Muito bem. Então boa viagem, boa sorte para essa tua viagem pelos Balcãs na tua bicicleta dobrável, que tem sido o teu veículo nos últimos anos. E o que é impressionante é que tu fazes viagens até grandes para a bicicleta que tens, o que é fantástico.

Sim, mas obviamente-

Conjugando outros meios de transporte, é isso?

Exatamente.

Boa. Não interessa, o que interessa é ir.

Sim, e obviamente vou pedalando, até porque uma bicicleta destas faz metade do que uma outra bicicleta pode fazer.

Ou seja?

Talvez 50, 60 quilômetros, já fiz 80.

Por dia?

Por dia. Mas não é fácil fazer mais. Às vezes, mesmo pedalando 10 horas ou 12, não é fácil. Mas está a pessoa cansada, mete no comboio ou apanha uma boleia e vai.

Costumas apanhar boleias?

Nunca apanhei.

Mas sentes-te tentado às vezes a pedir?

Sim. E eu acho que nesta viagem vou claramente pedir.

Por causa das barreiras físicas. Há lá muitas montanhas nos Balcãs.

Aquilo é sempre a subir e a descer.

Caramba. Muito bem. Mas por onde tens andado a levar a tua bicicleta a passear, António?

A primeira viagem que fiz, fiz Toronto-Nova Iorque.

Uau! Conjugando...

São mil quilômetros, mais ou menos, e fiz metade de bicicleta e metade de comboio. Mas é muito fácil de fazer. Isto é interessante dizer, porque é fácil, porque entre Niagara, que é ali na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, e o Atlântico, existe um canal, que é o Erie Canal, que foi um canal navegável no século XVIII, mas que agora tem uma ciclovia ao lado. Não é sempre pavimentada, por vezes é terra batida, mas que é relativamente fácil de fazer, superbem sinalizado. Na prática, a pessoa consegue vir quase em mil quilômetros, quase de Toronto a Nova Iorque, a pedalar, se quiser.

Pelo tal canal, nas margens do canal.

Sim, é o Erie Canal, o trilho chama-se Empire State Trail, e que é muito fácil de fazer. Muito fácil, seguro, uma cidade ou outra que pode não ser, mas a pessoa pode passar ao largo.

Como é que descobriste esse trilho?

Eu fui fazer uma semana de formação, uma escola em Nova Iorque. Isto é muito "jet fuel" para ir de lá só a Nova Iorque. Então dei a volta e encontrei esse trilho e muita gente que faz a partir da primavera. Mesmo com uma bicicleta dobrável, é fácil de fazer.

Boa. Quantos dias demoraste a fazer esse trilho?

Demorei oito dias.

Oito dias, ok. Os tais 500 km a pedalar e depois os outros 500 com ligações em transportes públicos.

Sim. Foi isso.

Qual é a melhor altura do ano para fazer esse trilho?

Primavera, outono.

Outono. Ou primavera, outono.

Eu fui um pouquinho mais cedo, apanhei frio ainda e chuva, mas nada de transcendente. Mas, por exemplo, se a pessoa quiser ir acampar, é melhor ser, porque tem zonas de acampamento. Mas foi muito interessante também para conhecer um pouquinho a cultura americana, que é claramente diferente da nossa e que passa ali por algumas zonas relativamente de baixa densidade. E obviamente é sempre talvez um choque para nós, aquela cultura.

Quando dizes cultura, é porque tens contato com a chamada América profunda? Se bem que ali é a costa leste.

Não é profundíssima.

Não é o Midwest, por exemplo?

Não, mas comparando com Nova Iorque-

Ou os estados do sul

...sim, mas comparando com Nova Iorque é muito diferente. Às vezes, obviamente, a pessoa quando vai de bicicleta tem que parar muitas vezes e às vezes parava naqueles bares de caminhonistas à borda de estrada. E as conversas são conversas muito particulares. Muito secas, muito simples, mas é uma cultura diferente.

Quando dizes conversas muito secas é o quê? Sobre as coisas pequeninas que são grandes para cada um de nós, da vida. É isso? Temas locais.

Sim, locais e muito simplistas.

Ou seja, não há política internacional, mas há política regional, por exemplo.

Sim.

Ok. E aquelas coisas que inquietam as pessoas todas de todo o mundo. O preço da alimentação, do gasóleo, etc. É por aí?

Sim, mas obviamente isto é uma perceção. Mas não fiquei super admirado de elegerem quem elegeram. Afinal, isto até está bem.

Não há surpresas.

Não.

Tem que haver uma explicação.

Obviamente, foi uma amostra muito pequena, atenção, mas foi a minha perceção.

Muito bem, já percebi. Não te queres comprometer muito com grandes avaliações.

Não, porque se calhar quero lá voltar.

Fazes bem, mas recomendas esse tal trilho Empire?

Recomendo. State Trail.

Muito bem.

Porque é fácil de fazer.

Ok.

E super bem sinalizado.

Imagino que sendo ali na América do Norte, na costa leste, muitas árvores. É isso?

Sim, exatamente, muito arborizado.

Começando em Toronto, começas à sombra de gigantes áceres. Lembras-te de Ontário?

Aquilo contorna o lago Ontário.

Ainda Lago Ontário.

Ainda.

O Trump quer chamar-lhe Lago América. É esse.

Exatamente. E portanto, sim, vai sempre uma cota interessante.

Muito bem. Então Toronto, Nova Iorque, bicicleta dobrável, conjugando também o transporte público. Olha, isto é uma bela ideia. Estás a mandar ideias.

Sim, força.

Sem medos.

Sem medos.

Boa. Também pedalaste na Arábia Saudita, não foi? Com a tua bicicleta dobrável.

Sim, também eu tinha uma reunião de trabalho e portanto depois tirei uns dias de férias e coloquei a mala. Foi um percurso relativamente pequeno, mas a bicicleta não é muito popular.

Na Arábia Saudita.

Foi interessante por isso. Havia ali alguma novidade e as pessoas viam e às vezes convidavam para jantar ou para conversar. Mas fiz um percurso de cento e tal quilómetros, foi pouco. Fui até uma formação rochosa que se chama Edge of the World, que é uma rocha no meio do deserto. Vale a pena, é imponente. E fiz de bicicleta até lá.

E foi fácil meter a bicicleta dentro da Arábia Saudita, que é um país que se abriu recentemente ao turismo.

Sim, não tive problemas nenhuns, antes pelo contrário. Eu fiz esse percurso sozinho e estava a tentar entrar num portão que eu pensava que era um parque natural que me levava ao Edge of the World, depois percebi que era uma quinta, mas como eu não falava árabe, eu falava inglês. Estávamos ali numa discussão, aquilo era ao lado de uma mesquita, e depois a pessoa que iria fazer a cerimônia nessa mesquita percebeu que havia ali alguma coisa e veio falar comigo e convidou-me para beber um café com eles, lá sentados no chão. A conversa correu muito bem, ele convidou-me para dormir na mesquita. Eu dormi na mesquita.

Boa.

Porque quando eu disse: "Vou acampar aqui em algum sítio e depois amanhã logo vejo." Ele: "Não, não vais nada, dormes aqui." Foi muito simpático comigo. Depois quando cheguei à bicicleta, porque tinha ido fazer qualquer coisa, tinha uma taça de tâmaras dentro do capacete e uma garrafa de água. Ele foi-se embora da mesquita e foi muito simpático comigo.

Que giro, muito bem. A bicicleta dobrável na Arábia Saudita, isto é uma conjugação improvável. Nunca recebi, até agora, acho que já recebi um viajante que fez de bicicleta, agora dobrável, não. Mas recomendas também?

Recomendo, sim. Está perfeitamente aberto ao turismo, super seguro, zero problemas.

Muito bem. Quantos dias pedalarte pela Arábia Saudita com a tua bicicleta dobrável?

Eu tive uns oito, 10 dias, porque depois ainda vim até ao Mar Vermelho, mas aí vim de autocarro. Já são 1000 km, não dava para vir de bicicleta. Porque estava ainda algum calor e aquela humidade, ou falta dela, prejudica um bocadinho.

Castiga.

Sim, mas estive uns quatro ou cinco dias a andar de bicicleta.

Muito bem. Tu gostas de te movimentar em cima de veículos, não é?

Sim.

Desde muito novo, não é, António?

Sim.

Mas começaste nas quatro rodas.

Comecei com as quatro patas, em boa verdade. Eu fiz equitação durante muitos anos.

Ah!

E talvez este desejo de novidade venha daí.

Eras praticante de equitação?

Sim, mas de passeio.

De passeio, não de competição.

Sempre tive o cavalo em casa e fazia os meus percursos.

Onde?

Por lá, por Coimbra.

Coimbra.

Às vezes levava o cavalo de férias ali para a Figueira ou para Quiaios e andava por ali.

Levar o cavalo de férias é uma boa expressão.

Sim.

"Onde é que vais?" "Vou levar o cavalo a fazer férias."

Sim.

Mas ias de Coimbra para a Figueira da Foz?

Não, levava no outro lado.

No outro lado, ok.

Mas era muito agradável na altura, que se podia andar de cavalo na praia, isto já na década de 90. E depois obviamente há sempre aquele desejo de aumentar o raio, e os cavalos também.

Tu tinhas o teu próprio cavalo?

Tinha.

Ok. Chegaste a ter quantos cavalos?

Não, só tive um.

Um?

Sim.

Tiveste um a vida toda ou tiveste um e vários?

Tive um e depois encenei vários. Mas o meu, só tive um.

Tinha nome?

Tinha, era Nasht.

Nasht?

Chamava-se Nasht. Nasht de nascar, não era de nascer, alguém colocou esse nome.

Ok.

E depois comprei um velho Land Rover da década de 70. Até tinha mais alguns cavalos, não era muito mais, e alguns também já cansados, mas que me permitiram fazer algumas viagens com amigos. Tenho vários amigos que também têm Land Rovers antigos e fizemos várias viagens ao Norte de África, e algumas viagens com alguma complexidade: Marrocos, Mauritânia, Senegal. Ainda se passava no Parque de Argão, ou seja, basicamente para cruzar a Mauritânia tínhamos que ir pela praia, porque não havia uma estrada diferente. Entrámos para a Mauritânia, Atar, Chinguetti, fizemos a pista do comboio. Isto com um Land Rover de 70 e tal.

Já com muitos quilómetros no motor.

Muitos quilómetros, sem litros de água, sem litros de gasóleo. Foi complexo.

Muito bem, vamos falar dessa complexidade na segunda parte das "Conversas do Fim do Mundo". António, vamos abrir o álbum de viagem. António, trazes contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial?

Tenho um que me deu um tuaregue.

Onde?

Na Líbia.

Na Líbia.

Ainda com o Kadhafi.

No tempo do Kadhafi.

Sim. E que era obrigatório na altura contratar um guia e felizmente atribuíram-nos um guia, um tuaregue do deserto, não era um urbano. Aprendi muito com ele em termos de navegação no deserto, condução no deserto. E ele depois, quando acabámos a viagem, deu-nos o manto que tinha.

Aquele azul?

Não, aquele é negro.

Era negro.

Sim, o turbante deles é claramente azul.

É azul.

Mas é um manto de agasalho.

Ok.

Sim, e ainda o tenho, claro.

Muito bem. Ele ensinou-te muitas coisas, dizias tu. Qual foi a coisa mais importante que esse tuaregue te ensinou sobre navegação no deserto, António?

Por exemplo, que entre as 11h e as 15h, 16h não se anda no deserto. Ponto final.

quietinho, à sombra, onde lhe distir.

Porque o carro não anda. A areia está muito quente. Está pouco densa e portanto o carro atola e nós percebemos isso. Ele não falava nada inglês, mas ele fez-nos um relógio no chão e basicamente colocou duas margens. E na margem "proibido" diz "no good". E nós percebemos e começámos a ajustar o nosso relógio para naquela hora montarmos os toldos, estamos lá sossegadinhos. E a performance do carro é completamente diferente.

Uau.

Sim, e aprendemos isso com ele. Ou a passar grandes dunas, o que temos de fazer.

Sem captar.

Sem captar, sim. Correu bem.

Correu bem, nunca captaste.

Ali, não.

Ali, não. Noutros lados.

Noutros lados.

Então muito bem, vamos saber onde na segunda parte das "Conversas do Fim do Mundo". Esta semana estamos à conversa com António Cunha. Fazemos aqui uma pausa, regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana com o viajante António Cunha. O António agora dedica-se a fazer viagens de bicicleta dobrável, conjugando com outros transportes públicos para ultrapassar obstáculos. É isso que ele vai fazer na próxima semana, dentro de dias, nos Balcãs. Ele vai pedalar entre Sarajevo e Pristina, no Kosovo. Mas começou nos cavalos, depois passou para o todo-o-terreno à boleia de um velhinho Land Rover dos anos 70. António, dizias no final da primeira parte que já capotaste. Capotaste onde?

O carro não foi muito relevante, mas de moto já capotei. Não sei se pode usar essa expressão.

Viraste o boneco.

Virou várias vezes, sim.

Aleijaste?

Aleijei.

Onde?

Foi na Bolívia.

Desculpa, foi na fase das motas, não é?

Sim.

Ok. Então já vamos à queda da mota. Vamos só fechar o capítulo dos 4x4. Tinhas um grupo de amigos com quem fazias viagens no teu Land Rover antigo, dos anos 70. Foste com ele para vários países, sobretudo do norte de África, foi?

Sim.

Chegaste a sair de África ou não?

Não naquele. Nós tínhamos um amigo, o Renato, que estava a fazer um programa em Moçambique, ele emprestou-nos um carro, um velho Land Rover ainda mais velho que este.

Caramba!

E que fizemos Moçambique, África do Sul, Zimbabué, subimos o Limpopo, foi muito interessante. Não só pela viagem, mas também pelo desafio do carro, que nós nunca sabíamos se íamos chegar. Fomos mandados parar no Zimbabué e o polícia quando andou à volta do carro disse: "Vão-se embora e acampem já aí à frente, porque isto não está em condições." E no Zimbabué.

Tinha quantos quilómetros nesse sentido?

O jipe chamava-se Imortal.

O teu ou o do teu amigo?

Não, o do meu amigo.

Imortal.

Um Land Rover daqueles não tem o mesmo tratamento que tem em Portugal. Mas andava.

Preso por arames.

Sim, mas correu muito bem.

Boa. E o teu tinha nome?

Não.

O teu jipe? Não.

Não tem.

Não tem. Muito bem. Então, sobretudo em África, foi lá por onde conduziste o teu Land Rover.

Depois fizemos outras viagens 4x4, com viaturas mais modernas, mas essas um pouquinho menos interessantes.

Ok. Dá outro sabor à viagem o veículo?

Dá, porque é uma extensão, de alguma maneira. São dois desafios. Obviamente, é o desafio da viagem, do próprio deserto, etc. Mas a preparação do carro, que era feita por nós, tivemos que aprender mecânica para arranjar o carro.

Tu não tens nada a ver com a mecânica.

Não tenho. Eu sou engenheiro técnico, não demos nada disso no curso, mas tivemos que aprender. O desafio era esse também, era que o carro andasse. E, em boa verdade, nunca tivemos problemas muito relevantes e sempre fomos e viemos para onde quisemos.

Muito bem. Depois chega a fase das motas, é isso?

Sim.

Como é que passas das quatro rodas para as motas, António?

Por uma questão de utilidade, porque eu diria que a mota é o veículo mais interessante para viajar. Não há dúvida, porque é muito ágil, a pessoa não perde o contexto. No 4x4, a pessoa acaba por estar dentro de uma cápsula, acaba por perder um pouquinho o contexto. A mota não perde tanto, consegue vencer muitas distâncias e é muito agradável de conduzir e mais fácil de despachar. Por exemplo, chegamos a despachar as motas para Chipre, que depois fizemos uma volta por Turquia, Curdistão e Irão e depois voltando para trás. Mas por isso, ou seja, foi numa lógica de utilidade. Não foi uma verdadeira paixão às motas, porque está muito mais adaptada à viagem do que isso. Começou por essa razão.

Por uma questão logística?

Sim.

Uma razão logística, ok. Muito bem. Foi então aí na Bolívia que capotaste, como dizias há pouco. Viraste o boneco, como se costuma dizer, na tua mota e correu mal. Onde é que foi?

Virei, foi no Salar de Coipasa, que é imediatamente a norte do Salar de Uyuni, é um salar um pouquinho mais pequeno, que tinha sido uma noite bastante pesada, porque fomos numa altura que ainda o salar tinha muita água e não é aquele salar que às vezes vemos nas fotografias sequinho, o sal seco, nós levávamos água, e eu ia à frente e a olhar para o GPS e estava distraído, não vi um buraco e a mota de facto virou várias vezes. Eu não ia muito rápido, mas aleijei-me a sério. Parti o braço bem partido. E num sítio remoto.

Pois. Como é que se sai daí com o braço partido?

Foi difícil. Eu fui na mota, o meu irmão atrás, obviamente. Conseguimos arranjar ali algumas boleias. Estávamos muito longe ainda da civilização, mas conseguimos chegar a um centro de saúde, onde me colocaram uma tala de cartão da caixa da fruta. Gente muito boa, mas com muito poucos recursos. Lá me deram alguma coisa para a dor, que fez uma diferença enorme, mas depois obviamente disseram: "Não, você tem que ir para La Paz, porque tem que ser operado urgentemente."

La Paz, a capital da Bolívia.

Sim, mas aqui não há ambulâncias, não há helicópteros Tem que ir de autocarro.

Morde a língua e vai de autocarro.

Sim, e o problema é que o autocarro estava para sair. E se não fosse aquele, não sei quando é que ia ser. E depois nós tínhamos de arranjar sítio para pôr as motas, a do meu irmão e a do Bernardo, e alguém que nos tinha de transportar para a paragem de autocarro. Estava ali uma operação logística muito difícil de montar em poucos minutos.

Sim.

Mas sai uma senhora enfermeira desse centro de saúde e em poucos minutos organizou tudo. Arranjou um sítio para nós pomos as motas na garagem dela, pediu a alguém para ir buscar um carro para nos levar à estação dos autocarros. Quando eu vejo já ia a enfermeira na traseira, na mota, não sei se com o meu irmão ou com o Bernardo. Essa senhora foi um anjo que apareceu.

Abençoada enfermeira.

Sim, mas sabes como é que se chamava?

Como?

Ou como é que se chama? Fátima.

Ah!

Sim. E eu, obviamente, fiquei muito sensibilizado com o nome e disse: "Olhe, eu vivo a 60 km do Santuário de Fátima" e ela disse: "Ah, sim? Então quando chegar, vá lá e reze por mim."

E fizeste isso?

Claro que sim.

E depois foste para La Paz, hospital.

Sim, hospital.

Essa viagem de autocarro foi de quantas horas?

Foram muitas horas, mas eu não me recordo.

Imagina, bastava ser meia hora, não é? Com um braço em faniques.

Eu hoje tenho pânico das bandas sonoras que estão nas autoestradas, porque cada slogan era um grito que dava no autocarro. Ainda o autocarro atascou no Salar do Uyuni, porque a via principal era atravessar o Salar do Uyuni, não era turismo, é o autocarro, a carreira de lá, atravessa o salar. Ele tirou aquilo relativamente rápido, mas ainda ficamos lá um bocadinho a patinar. Mas correu bem, depois encontrei um hospital privado, mas que me tratou muito bem.

Muito bem. Portanto, tens uma história para contar. Ainda bem que acabou tudo bem. E o braço está aí cheio de vigor.

Está.

Espetacular. Mas fizeste outras viagens também de mota ou não, António?

Sim, algumas relevantes. Fizemos uma viagem à Mongólia.

Boa!

Onde alugámos motas chinesas, que estavam novas, $700. Portanto, podem imaginar a qualidade.

Que grandes bombas. Quantos centímetros cúbicos tinham essas?

Havia dois modelos, de 150 e 175.

Caramba. Isso não é nada.

Não, mas para o que nós fizemos foi ótimo e não nos aleijámos e se calhar foi por isso. Fomos até ao sul, até ao deserto de Gobi, obviamente evitando alguns caminhos de areia, porque não era para isso que andava preparado. Mas a parte interessante da viagem foi, porque as motas eram muito pouco fiáveis, de facto. Mas na Mongólia só existe este modelo de mota. Não sei como, não sei qual foi a estratégia de negócio, mas só existe este modelo de mota, e que tem uma enorme vantagem: é que qualquer mercearia no meio do nada, quando é no meio do nada, é mesmo no meio do nada, tem pão e peças para a mota. Mas todas as peças para a mota.

Portanto, papéis e carburadores convivem numa prateleira.

Exatamente, cambalhotas, rodas, pneus, tudo. Estragou, não há problema, porque se vai à mercearia.

Tu foste confrontado com isso?

Sim.

Tiveste que comprar peças para a tal mota chinesa?

Tive. E uma delas parti a suspensão da frente a chegar ao Gobi.

Que bruto.

Não sei.

Desculpa, devia ter dito isso.

Era mesmo o material.

Sim.

Mas entretanto encontrámos um outro tipo que andava por lá com uma mota igual e eu comprei-lhe a suspensão. Ele depois deve ter arranjado outra mais tarde. Aí nem foi preciso mercearia, foi a um transiunte e resolvemos comprar.

Fez negocinho na estrada.

Sim.

Não é nada.

Mas para quem gosta de andar de mota, eu acho que a Mongólia é extraordinária.

É? Por quê?

Quem gosta de baixa densidade e de deserto.

Sítios inóspitos, não é?

Sim, era muito fácil encontrar, por exemplo, uma reta sempre a direito com 100 km.

Terra batida.

Terra batida e de deserto, nem era terra batida, era caminho. Não era estrada, era caminho.

Sempre a andar, a chinesa.

Sim, sempre a andar.

E com paisagens espetaculares, não é?

Sim. Mongólia é mesmo, porque é um país mesmo de baixa densidade. Eu julgo que o país tem uns 3 milhões, eu acho que 1 milhão está concentrado na capital e, portanto, podem imaginar que é mesmo de baixa densidade. Vê-se uma pessoa aqui e ali, mas quem gosta de deserto, é interessante.

Foi o sítio que tu gostaste mais de andar de mota?

De mota, sim, claramente. De 4x4, claramente África.

É?

Sim. E depois fizemos uma outra viagem com mais três ou quatro amigos, Cazaquistão, temos já alguns anos. E que correu bem, não houve quedas. Só uma situação em particular, que fui apanhado em excesso de velocidade.

No Cazaquistão?

No Cazaquistão, sim.

Como é que se é apanhado em excesso de velocidade no Cazaquistão?

Porque eu estava com frio e vinha atrás.

Também é um país de baixa densidade, não é?

Sim, mas foi numa estrada, talvez principal, e eu ultrapassei os colegas e porque estava com frio, queria dizer que precisava de vestir mais qualquer coisa, mas naquele momento estava um radar e parámos lá para parar para a polícia e o polícia obviamente mostrou umas imagens, era inequívoco. Eu ia a alta velocidade. Mas o interessante foi, mas isto sempre com o Google Translator, sempre a falar. Eu falava, depois ele repetia em inglês, eu falava em inglês, ele repetia em cazaque Tivemos uma boa conversa e, entretanto, eu perguntei, porque ele estava a dizer que me ia multar: "Mas vai mesmo multar?" E ele disse uma coisa que me recordo bem: "Como é que te posso multar se és meu convidado?" Foi na altura que o Cazaquistão estava a abrir ao turismo e talvez tinham muito isto presente. Obviamente, tive uma lição pedagógica que aquilo era uma zona de escolas e que se tinha que ter cuidado, imagine que era teu filho. Mas não nos multou. Foi muito simpático.

Muito bem. Portanto, elogias as retas da Mongólia, foste apanhado em excesso de velocidade no Cazaquistão, um grande trambolhão no Salar, na Bolívia. Gostas de enrolar punho. Tu gostas muito de velocidade, ou não?

Não há nada que transmita a mesma sensação que a mota.

É?

Não, nada. Uma mota na areia do deserto, eu diria que não há veículo nenhum que consiga transmitir a mesma realidade, mas obviamente tem efeitos secundários.

É isso. Começaste nos cavalos. Há alguma similitude entre andar de mota e cavalgar entre Coimbra e Figueira da Foz?

Há. Sim, claramente.

Muito bem, mas agora estás na onda da bicicleta dobrável.

Isso.

Mantém-te aí. Não é bem seguro, porque às vezes há muitas interações com os outros condutores. Já apanhaste algum valente susto?

De bicicleta, não.

Muito bem. António, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer check-out?

Bora.

Vamos embora. Então vou pedir-te para completares as habituais frases. Na minha mala vai sempre...

A bicicleta.

A bicicleta. E depois como é que fazes? Tu tens muitos alforjes para a tua bicicleta?

Não, só tenho um alforje, que ponho à frente. Oito quilos no máximo.

Uma maleta que vai no guiador, é isso?

Exatamente.

Vamos dizer a marca, não há problema nenhum. É uma Brompton, não é?

É uma Brompton.

São aquelas bicicletas. É uma marca inglesa, não é?

É uma marca inglesa, é uma marca muito boa.

Superfiável.

Quem gosta de engenharia, e há coisas que eu descuro, e aquilo é uma bicicleta, não é um space shuttle. Está mesmo bem feita. Eu levo muito pouca bagagem. São 12 quilos de bicicleta e oito quilos de bagagem e a pessoa vai a qualquer lado com esses dois pacotes.

Que paraíso. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.

Foi a da Bolívia, claramente.

A da Bolívia?

Sim, de longe.

Em que deste um trambolhão no Salar de Coipasa.

Coipasa.

Coipasa. E partiste o braço. Estavas a viajar há quantos dias?

Há poucos, quatro, cinco dias.

Caramba.

Nem tinha aquecido.

Então não conheceste quase nada da Bolívia.

É verdade.

O hospital de La Paz.

Conheci bem. Fui bem tratado.

Foste bem tratado?

Fui.

Ok. Foste para um hospital privado?

Sim.

Porque serviço público de saúde, enfim.

Pois, não sei.

Não mereceu a tua confiança.

Não.

Foi a primeira e última vez em viagem que foste parar a um hospital?

Foi. E obviamente faço sempre seguro e desta vez-

Ainda bem.

Sim.

Ainda bem que fizeste o seguro, não ainda bem que foste ao hospital

Eu faço sempre, mas desta vez percebi que é bom fazer.

Que é bom.

Sim.

O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter.

Foi dos Estados Unidos, por ter estado no Irão.

Ok. Chatearam-te muito?

Sim, têm essas coisas. Chatearam um bocadinho. Tive algumas entrevistas cá, lá também. Como entrei de bicicleta, não é propriamente muito comum entrar de bicicleta na fronteira do Canadá para os Estados Unidos.

Ok.

Tive duas entrevistas, revistaram-me a bicicleta.

Lá?

Sim.

Na passagem do Canadá para os Estados Unidos, na fronteira?

Sim, exatamente.

Na zona do Niagara, não é?

Exato, é mesmo Niagara. A ponte que passa por cima. Mas não foi nada de especial, foi uma questão de tempo só.

Mas não te obrigaram a desmontar a bicicleta, a inspeitar praticamente tudo?

Não, até porque um dos inspetores que me fez a entrevista resolveu prachar o colega e disse por rádio que precisava de uma revista exaustiva à bicicleta, inclusive o depósito de combustível. Isso devia ser uma pracha entre eles, tudo bem, mas correu bem.

Foi um controle com humor. Pronto.

Foi isso.

A recordação de viagem mais cara.

Mais cara não por ter custado muito, mas pelo impacto que gerou quando cheguei a Portugal, que ficou caro. Eu trouxe gendungo de Moçambique para o meu pai. O meu pai faleceu este ano, um abraço para ele. Eu trouxe um gendungo do mercado de Moçambique e o meu pai fazia todos os anos chanfana. A chanfana é muito típica de Coimbra.

Sim.

E ele colocou o gendungo como colocava as malaguetas sempre nas caçoilas de chanfana e estragou as caçoilas todas, porque era um veneno, não se podia comer, era muito picante. Então ele estragou várias caçoilas, que é um forno grande de aldeia. Foi muito barato de comprar, mas ficou caro depois cá.

Caramba, quantas caçoilas é, como se diz?

Talvez umas sete, oito.

Sete ou oito cabras.

Não, é uma cabra. Cabra velha.

Sim. Boa. A refeição mais estranha, qual foi?

Talvez um coalho numa tenda mongol. Nós quando estávamos por lá, encontrámos uma pequena família, um casal e um miúdo pequeno, que nos convidaram para dormir com eles. E dormimos lá no meio do deserto, numa tenda mongol, numa iurte. E depois, obviamente, comemos o que eles tinham lá e era uma calda de leite, uma coisa, não percebi bem.

De iaque, por aí?

Não sei, mas obviamente comemos. Fomos educados e comemos e correu bem.

Mas não é para repetir.

Não.

Não vais ao supermercado comprar.

Comprar aquilo, não.

Deve ser difícil aceitar comida quando não se gosta.

Ali era irrecusável.

É irrecusável?

É, porque nós estamos numa tenda, no meio do nada, com um casal novo. Obviamente não há rede, não há nada. Então nós o que comunicávamos era com as últimas folhas do Lonely Planet, que tem basicamente o vocabulário em inglês.

Sim, o essencial.

Sim, e em mongol. E nós comunicávamos, aquele serão que estivemos lá, comunicávamos com aquele texto e portanto, aquilo era uma coisa muito íntima, era irrecusável provar.

Muito bem. Olha, chegamos ao fim, António. Qual foi a música que trouxeste para fechar a nossa conversa?

Tinariwen.

Música do deserto, é isso?

Sim, música do deserto que de alguma forma lembra-me os amigos e os velhos Land Rovers no Norte de África, que acho que são episódios que dificilmente se esquecem. Toda aquela frugalidade dos Land Rovers antigos com boas amizades e com sítios absolutamente espantosos e portanto, esta música transporta-me para lá.

Que se chama "Ama Saqula Teneré", é isso?

Exatamente. Sim, tem uma letra muito sobre a vida no deserto, sobre a capacidade de apanhar vento, calor, portanto temperaturas complicadas, e aguentar. Até dá para fazer o paralelo com a bicicleta. Às vezes aqueles dias que são assim mais intensos.

De grande sofrimento, que também usaram.

Sim, mas claramente esta música transporta-me ali para o início dos anos 2000, à viagem com os amigos.

Muito bem. Esperas regressar aos jipes ou nem por isso?

Sim, eu tenho uma caravana 4x4. Faço muitas viagens em família.

Que sorte!

Sim, espero continuar.

Que inveja!

Sim, e porque a questão é: alguém disse que nós temos basicamente 18 verões com os nossos miúdos. Nós já estamos em período extra, o que é ótimo.

Sim.

Mas sim, obviamente, continuo com esse tipo de viagem.

Muito bem. António, foi um gosto. Muito obrigado por teres vindo às Conversas do Fim do Mundo. Tinariwen a fechar a conversa do Fim do Mundo desta semana. Já sabem, estamos de regresso todos oito dias. Sejam bons e boas viagens.

View the original on Observador Desporto →

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.