Quem ganha com o enfraquecimento da escola europeia?

Há alguns anos que observo um fenómeno que me inquieta enquanto professora. Em 2022 encontrei nas redes sociais conteúdos que sugeriam formas de evitar o trabalho escolar, obter tempo livre e contornar as exigências da aprendizagem. Entre os exemplos estavam vídeos que apresentavam estratégias para transformar determinadas aulas em espaços de conflito permanente.
A lógica era simples. Os alvos preferenciais pareciam ser os professores de Matemática e de Português. Não por acaso. No 3.º ciclo, estas disciplinas têm um peso determinante no percurso escolar dos alunos e exigem esforço, trabalho continuado e aquisição de competências fundamentais. Segundo os conteúdos divulgados, bastaria tornar as aulas praticamente impossíveis de lecionar. Depois surgiria a narrativa de que o problema não estava nos alunos, mas sim no método do professor.
O desfecho seria previsível: desgaste emocional, exaustão, baixa médica e interrupção do processo de ensino. No final, os alunos transitariam de ano sem terem adquirido plenamente as aprendizagens essenciais.
Hoje já não possuo os links desses conteúdos. Não sou especialista em redes sociais, algoritmos ou cibersegurança. Também não me interessa alimentar teorias da conspiração. Mas continua a impor-se uma pergunta: a quem interessa o enfraquecimento do sistema educativo europeu?
A questão nasce sobretudo da experiência vivida dentro da escola. Ao longo dos últimos anos assisti a situações que me deixaram a refletir. Em mais do que um ano letivo, perante a exigência da disciplina ou a simples tentativa de garantir condições mínimas de aprendizagem, ouvi alunos fazerem uma pergunta inquietante: “Vai meter baixa?”
O mais preocupante não é a frase em si, mas o que ela revela. Para alguns alunos, a possibilidade de um professor entrar em baixa médica parece ter deixado de ser vista como consequência de sofrimento profissional para passar a ser encarada como um acontecimento normal, previsível ou até vantajoso.
As baixas médicas dos docentes não surgem por acaso. Resultam frequentemente de anos de desgaste acumulado, pressão constante, conflitos repetidos e de uma sensação crescente de desproteção. Apesar disso, continua a existir a expectativa de que tudo funcione normalmente.
Entretanto, os jovens passam um número crescente de horas nas redes sociais. O problema não é a tecnologia. O problema surge quando estas plataformas se transformam numa das principais fontes de influência comportamental. Muitos adolescentes passam mais tempo a ouvir influenciadores digitais do que professores, pais ou outras referências educativas. A cultura da gratificação imediata substitui frequentemente o valor do esforço, da persistência e da responsabilidade.
Numa altura em que vários indicadores apontam para dificuldades acrescidas nas aprendizagens, seria expectável que o debate educativo se centrasse na melhoria dos resultados e não na normalização da indisciplina. Contudo, continua a existir uma estranha resistência em discutir abertamente aquilo que muitos professores observam diariamente. Fala-se de inovação pedagógica, digitalização, inteligência artificial e novas metodologias. Fala-se muito menos da indisciplina, da exaustão docente e da crescente desvalorização da autoridade pedagógica.
Também me interrogo sobre o papel dos sindicatos. A luta pelos salários e pelas carreiras é importante, mas a defesa dos professores não pode limitar-se às questões remuneratórias. Quem representa os docentes deveria estar igualmente na linha da frente da denúncia do desgaste psicológico, da degradação do ambiente escolar e da crescente desvalorização da função docente.
Talvez não exista nenhum plano coordenado para provocar a falência do sistema educativo europeu. Contudo, existe uma sucessão de fenómenos que contribuem para o seu enfraquecimento: a banalização da indisciplina, a erosão da autoridade dos professores, a dependência das redes sociais, a desvalorização do conhecimento e a incapacidade de proteger quem ensina.
A escola dificilmente colapsará de um dia para o outro. O risco é outro: o desgaste lento e silencioso de uma das instituições mais importantes da democracia. E quando um aluno pergunta a um professor “Vai meter baixa?”, talvez essa pergunta revele mais sobre o estado da educação do que muitos relatórios oficiais. Porque uma escola não se fragiliza apenas quando faltam recursos. Fragiliza-se, sobretudo, quando deixa de proteger aqueles que todos os dias entram numa sala de aula para ensinar.
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