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Sunday, November 1, 2026

Gabriel Martins filma o luto e volta a dramas coletivos em 'Vicentina Pede Desculpas'

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No tempo da faculdade, o cineasta Gabriel Martins passava muitas horas andando de ônibus. Nascido em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, ele observava tudo e todos quando ia e voltava das aulas na capital mineira, estudando as expressões dos passageiros e imaginando suas histórias.

É justamente o que a atriz Rejane Faria faz numa das cenas de "Vicentina Pede Desculpas", que chega aos cinemas nesta quinta-feira (5). No novo filme do diretor, a protagonista, inspirada pela avó que o realizador perdeu ainda jovem, compara seu olhar triste ao de outras pessoas, questionando se elas enfrentam o mesmo drama que o dela —o luto.

"Estamos esquecendo a humanidade. Todo dia, ao acordarmos, precisamos ser lembrados dela", afirma o cineasta, um dos sócios da Filmes de Plástico, reconhecida por projetos que jogam luz sobre os detalhes do cotidiano. Queridinha de mostras brasileiras, mais recentemente de festivais mundiais, nem sempre a produtora se contenta com a realidade, inscrevendo nela pequenas mudanças e sonhos de difícil alcance.

No longa mais conhecido de Martins, "Marte Um", os dramas de uma família negra e periférica atravessam desejos pessoais e eventos absurdos. Enquanto o filho caçula estuda para ser astronauta, contrariando o pai que busca torná-lo uma estrela do futebol, a mãe testemunha uma pegadinha envolvendo um homem-bomba e começa a dissociar mentalmente.

"Precisamos ser lembrados de que as pessoas erram, de que nossos vizinhos encaram situações que não conhecemos. Penso que os filmes servem para nos chacoalhar dentro da realidade, impedir que sejamos levados pelo mar de negatividade em que vivemos", adiciona ele, mencionando cenários de tensão como as eleições no Brasil e a guerra entre Israel e Palestina.

Seguindo à risca as palavras do artista, seu longa mais recente começa com um chacoalhão, um acidente de ônibus que mata quase todos os passageiros. A tragédia é surreal —o veículo cai abruptamente de um viaduto, como num filme de ação, distante dos enquadramentos parados, dos diálogos longos e das cenas silenciosas que predominam a partir daí.

Movida pela culpa, a mãe do motorista, também entre as vítimas, decide ir atrás e se retratar com parentes dos envolvidos. Embora "Vicentina Pede Desculpas" não seja exatamente fantasioso, o longa reúne jeitos de se representar fantasmas. Fora a casa escura, que é iluminada pelas reportagens sensacionalistas que a TV exibe, exemplo disso é que os dois filhos de Vicentina são vividos pelo mesmo ator, Renato Novaes.

Assim, é como se o morto batesse à porta um dia após partir. "Como bom discípulo de Alfred Hitchcock e Brian de Palma [diretores muito elogiados por usar os visuais como uma extensão dos dramas narrados], existe um lugar dos duplos, da ideia de ausência e presença, que me atrai muito. Gosto de como o cinema é capaz de materializar presenças."

A relação entre o diretor e a plasticidade o segue desde os primeiros projetos. Em seu "Filme de Sábado", curta-metragem que inaugurou a Filmes de Plástico em 2009, um jovem decide montar uma praia em seu quintal. Ao fim, incomodado com o céu nublado, ele usa um refletor de luz para simular o sol.

Dois anos depois, Martins flertou com o faroeste no curta "Dona Sônia Pediu uma Arma Para Seu Vizinho Alcides". Nele, uma senhora vinga a morte do filho e mata um bandido com um tiro na cabeça. Vídeos antigos, que repensam a infância do cineasta como memórias dos personagens, e a música de uma sanfona reforçam o misticismo em torno da assassina.

Já em seu longa de estreia, "No Coração do Mundo", cuja direção dividiu com o sócio Maurílio Martins —na faculdade, eles viraram amigos ao descobrir que tinham o mesmo sobrenome—, o realizador retrata vários habitantes de Contagem. Entre o crime e a vida honesta, todos sonham em deixar a cidade. Em certa cena, a personagem de Grace Passô narra planos para o futuro em frente à paisagem falsa de um cartaz.

"David Lynch sempre foi um cineasta muito importante para mim, e, por mais que goste de dialogar com a realidade, minha mente está sempre calibrada para evocá-la simbolicamente. Eu gosto de pensar que o cinema não é simplesmente qualquer outra coisa. Dá para falar da vida com todos os artifícios possíveis."

"No Coração do Mundo", inclusive, nasceu de uma extensão de "Contagem", curta de Martins que também vê diferentes pontos de vista. Lançado em 2010, o filme venceu o prêmio de melhor direção no Festival de Brasília e cativou o diretor e crítico Carlos Reichenbach, morto em 2012.

Conhecido por filmes ácidos, cujo humor escrachado descortina questões sociais, e que marcaram a Boca do Lixo —indústria de baixíssimo orçamento que ocupou o centro de São Paulo e viveu o auge nos anos 1970—, Reichenbach aclamou "Contagem" em seu famoso blog "Olhos Vivos", em que disse que o curta abria um "novo ciclo cinematográfico".

Para Martins, aquela experiência alimentou sua cinefilia. "Ele sempre me ensinou, com seus filmes, que o cinema pode ser muitas coisas. Nada pode dizer o que ele deve ser, e você deve fazê-lo da forma que seu coração mandar. Como o Carlão, eu adoro escrever, e o que de fato me introduziu ao cinema foi a crítica. Quero ser cinéfilo até o fim da vida."

Outro aspecto que chama a atenção em "Vicentina Pede Desculpas" são os diálogos, que expõem opiniões distintas sobre o luto. Se as primeiras obras da Filmes de Plástico exploravam o improviso, com falas que surgiam durante as filmagens e a participação de amigos e parentes —alguns atuam até hoje—, conversas densas de produções recentes exigiram roteiros bem definidos.

Apesar do planejamento mais cuidadoso, Martins nunca abandonou o senso de imprevisibilidade. Exibido no Festival de Cannes de 2017, o seu curta "Nada", por exemplo, acompanha uma aluna de ensino médio que se recusa a fazer o vestibular. Ao confrontar professores, os pais e amigos próximos, ela debate temas como o mercado de trabalho e as rédeas da sociedade, mas sem chegar a conclusões simplistas.

"Gosto de histórias que me botam em situações sem saída", afirmou o cineasta durante o Festival de Toronto, onde "Vicentina" estreou e participou da competição oficial. No filme, é difícil adivinhar quem abraçará e quem rejeitará a personagem. Ela encara discussões acaloradas, é convidada para um aniversário, escuta confissões numa igreja e, no processo, amadurece junto de outros seres errantes.

"Gosto de gastar a cena. Eu poderia escrever diálogos que são mais diretos ao ponto, mas prefiro essa dimensão quase teatralizada. Adoro essa costura entre o jeito com que as pessoas realmente conversam e uma estrutura mais melodramática."

Diferentemente de "No Coração do Mundo" e "Marte Um" —que, há quatro anos, foi escolhido pelo Brasil para tentar uma indicação ao Oscar e abriu novas portas para a Filmes de Plástico— "Vicentina Pede Desculpas" é o primeiro longa de Martins com um único protagonista.

Esse estudo de personagem exigiu uma escala maior que a de costume, e a produtora firmou uma parceria com a Netflix, em que o filme será disponibilizado em 20 de novembro, para viabilizar o projeto. O acordo foi feito com o roteiro já amadurecido e o diretor diz que a essência da obra não sofreu qualquer intervenção.

"Existem pessoas de várias classes sociais, com várias ideias diferentes, que não respiram o tempo todo a escravidão brasileira e não sofrem racismo sempre que saem de casa, embora isso pertença, infelizmente, à cultura do país", diz Martins sobre a abordagem política de seus filmes, que reveem as narrativas a que corpos negros costumam ser associados.

"Existem muitas outras horas de nossos dias, e acho que muitos filmes deixaram de entendê-las como possibilidades cinematográficas. É sobre tirar esse povo, que corresponde à maioria da população, da margem e levá-lo ao centro como uma verdade cultural."

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