67ª ModaLisboa: as clientes, a política e a festa

Foi ao som de I Need a Hero, quase que numa homenagem festiva a Bonnie Tyler, que Dino Alves abriu e fechou a passerelle no desfile de encerramento da 67ª edição da ModaLisboa este domingo, 12 de outubro. O designer está acostumado a ficar para o fim no calendário de desfiles, talvez porque quase sempre aquece o público para a pista de dança. Desta vez, decorou com pó branco o piso preto e o ar, com duas manequins em vestidos volumosos de tule que espalharam talco pela sala de desfiles.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Antes, Dino Alves trouxe o seu upcycling clássico numa coleção que parecia dividida em várias partes, com alguns elementos de união da narrativa. Por vezes eram as tiras de tecido que serviam de contorno para tops ou saias, mas também para desenhar bolsos em t-shirts e camisas; noutras eram as saias de tule ou armadas com volumes geométricos; e ainda a tela preta que serve de tecido para camisas, vestidos ou calças.
Com Dino Alves, um pretinho básico ganha saia de bailarina — e o mesmo efeito é aplicado nos tops para dar um formato peplum. Já os amarrados em tecidos com mais estrutura criam novos formatos e volumes numa coleção com 60 coordenados para todos os gostos e ocasiões.
Horas antes a mesma passerelle viu o desfile extravagante da 2B e os convidados célebres de Bárbara Bandeira, precedidos por figuras da política nacional. Presença habitual em pelo menos um desfile, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa escolheu a apresentação de Luís Onofre, no domingo a tarde, para marcar o seu apoio ao evento, realizado em parceria com a autarquia. Carlos Moedas senta-se sempre ao lado de Eduarda Abbondanza, mas houve tempo para um abraço à integrante provavelmente mais leal da plateia da ModaLisboa: Lili Caneças.
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Um dia antes outro membro do executivo participou na semana da moda de Lisboa. Margarida Balseiro Lopes esteve na apresentação da Portuguese Soul na Havas Village, na Avenida da Liberdade, no sábado de manhã. “Tinha estado o ano passado precisamente na ModaLisboa, tive a oportunidade de estar no Portugal Fashion e tenho defendido muito esta ideia de que a moda é cultura, também é economia, também é indústria, também é internacionalização. E portanto a minha presença aqui hoje é de alguma forma também para sinalizar precisamente essa que é a ideia do Governo relativamente à abrangência e à riqueza que a cultura tem no nosso país”, disse a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, destacando a inclusão da moda na revisão do regime de mecenato cultural e a atribuição de uma medalha de mérito cultural ao designer Miguel Vieira. “Agora estamos a trabalhar não só com a associação ModaLisboa, mas também com a ANJE e o Portugal Fashion, para conseguirmos ter políticas públicas que procurem em particular apoiar os novos criadores“, promete ainda a ministra, sem avançar com mais detalhes sobre medidas que visem os designers a dar os primeiros passos.
Com exceção da estreia da Adolfo Domínguez na sexta-feira, o calendário desta edição fez-se dos nomes já habituais, e que se mantêm firmes aos seus próprios ADNs. Como Roselyn Silva, que depois de uma coleção em preto e branco regressa às cores e aos padrões africanos, neste desfile que assinala a sua estreia no Pátio da Galé. As camisas brancas bem cortadas com maxi golas ganham aplicações e bordados de beija-flor e as saias rodadas clássicas da designer ganham novos padrões e aplicações de brilho. Fiel ao gosto das suas clientes, que enchem as bancadas da sala de desfile, aos poucos a criadora aproxima-se do streetwear com peças mais casuais, como t-shirts, ou mais extravagantes, como a bomber jacket oversized em jacquard. Para o grand finale, Roselyn Silva guardou o regresso de Bárbara Guimarães à passerelle, num vestido cru estilo noiva, com direito a buquê de flores.
Outro designer que garante uma plateia cheia de fãs do seu trabalho — e uma primeira fila de luxo com Margarida Corceiro a liderar a team — é Gonçalo Peixoto, que continua a desenhar para a mulher que personaliza o seu estilo: feminina e sexy. As transparências continuam lá seja na renda com aplicações de flores ou no chiffon sem forro. Os brilhos estão garantidos nos bordados de lantejoulas. E os decotes e pele à mostra também se fazem presentes em muitos modelos diferentres de vestidos de noite, alguns com modelagem ajustada e estrutura de corset. Para compor os looks, o styling mistura a sensualidade de uma minissaia transparente com uma camisa clássica de escritório — sem faltar, é claro, um bom blazer oversized com padrão colorido.
As propostas conceptuais de Kolovrat e Valentim Quaresma
Lidija Kolovrat não atrai tantas influencers, mas trouxe Sara Matos ao Pátio da Galé, uma representante da clientela que é hoje muito dispersa. “Vem de todo mundo”, assume a designer bósnia ao Observador. “Tenho loja própria num sítio muito bom. Mas tivemos hoje uma cliente americana que leu sobre nós. Temos Google reviews, Instagram. E também temos clientes que viajam periodicamente, de propósito, para ir à loja”, conta, afirmando que tem atraído as atenções de mulheres mais jovens, e tem vendido muito para Nova Iorque.
Também para atender este público, Kolovrat apresenta uma coleção com muitas propostas de vestidos de noite, mas sem desconectar da sua estética própria, conceptual e artística. “Esta vez foi uma história que me tocou em África. Numa província da Nigéria, a mulher e o homem falam línguas diferentes e se comunicam. Pensei, como? Isto é interessante”, conta a designer, que foi buscar referências multiculturais especialmente do continente africano. “Sinto que nos falta ritual, ir às nossas raízes e à força que temos, porque há coisas que se passam à nossa volta que nos confundem e estão ligadas ao poder”.
As influências notam-se em modelos como capas ou túnicas, em padrões de animais, estampados étnicos, franjas que parecem penas de pássaro, e cores dentro de uma paleta de tons castanhos. Uma narrativa única, mas com uma variedade de materiais e técnicas. “Às vezes dá uma confusão. Não sei se vou por ali ou por aqui”, assume, sobre o processo de criação e produção, que resultou em peças com fios que imitam cabelo; vestidos formados por cordas alinhadas; e tecido feito de retalhos de brocado cozidos.
A realidade distópica de Valentim Quaresma apresenta-se com elfos e seres saídos do universo Espaço:1999 — também com a ajuda da maquilhagem de Antónia Rosa. A trabalhar, como habitual, com deadstock, o designer aproveita o amassado como textura e aplica retalhos para criar desenhos orgânicos e costuras para formar repuxados. Ao usar tecido com efeito molhado, traz movimento e fluidez, numa paleta onde predominam castanhos, pretos e toques de verde. A diferença vem no final do desfile — a “noiva” de Valentim Quaresma. “Foi bastante pensado como eu iria acabar o desfile. Embora toda a narrativa do desfile seja baseada na distopia, o último coordenado é branco, é como se tivesse uma luz ao fim do túnel.” De resto, os acessórios característicos do designer se fazem presentes em peças que imitam espinhos ou máscaras num estilo Mad Max.
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Nuno Baltazar e DuarteHajime apostam em fórmulas que funcionam
No seu Cabinet des Curiosités, sob o olhar atento de nomes como Catarina Furtado e Dalila Carmo, Nuno Baltazar trouxe especialmente as suas silhuetas alongadas que marcam a cintura e os ombros em camisas, vestidos e combinações de tops e saias ajustadas. A alfaiataria viu-se tímida em peças como calções ou saias, enquanto a coleção abusa de formas mais fluidas com tecidos que fazem de capa e chegam a arrastar no chão. A paleta fica pelos tons mais sóbrios, com padrões paisley em cores como o vinho ou o roxo — mas há espaço também para o amarelo mostarda e o metalizado.
A passerelle volta a ser palco para as influências urbanas de DuarteHajime, que agora apoia-se nas referências do mundo motard para a nova coleção. A começar pelo casal que abriu o desfile, trazendo as suas duas motas para dentro da sala de desfiles do Pátio da Galé. As peças seguem à risca o tema, com um forte trabalho em pele e sarja, bomber jackets e coletes; combinados com propostas mais femininas, como os vestidos em tule estampado mais ajustados ou as calças em seda estilo lenço, com padrões em tons de terra e verde. Os fechos e amarrações aparecem ao longo da coleção, dando unidade à narrativa de streetwear da marca de Ana Duarte.
Fora do Pátio da Galé (que assistiu ainda ao talento emergente dos nomes da Workstation), destaque para a apresentação de Luís Carvalho, que inaugura a passerelle do Museu do Tesouro Real, no Palácio da Ajuda. Ainda OFF location apresentaram Béhen e Constança Entrudo, que abriram os trabalhos na quinta-feira no MUDE; Carlos Gil com o seu desfile para o povo na rua Augusta; e Portuguese Soul by Apiccaps, com a campanhar Kindness, lançada no hall do Havas Village na Avenida da Liberdade ao som de Raquel Martins. Na instalação de modelos que exibiam as tendências do calçado português para a próxima estação, uma seleção de mocassins e sandálias em nude e tons como o verde, o lilás e o amarelo de marcas como Carlos Santos, Penha, Centenário, Mariano, Helena Mar e Miguel Vieira.
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