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Sunday, September 13, 2026

Patologizar comportamentos e sentimentos faz pessoas se autodiagnosticarem com transtornos que não têm

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"Comportamentos que parecem jeitinho de ser, mas são claros sinais de TDAH." "Dez coisas que pessoas com TDAH amam fazer." "Cinco sinais de que você pode ter borderline e nem sabe." Vídeos assim fazem sucesso nas redes sociais, e pessoas muitas vezes sem formação médica tentam diagnosticar transtornos a partir de comportamentos cotidianos.

Os vídeos, encontrados com uma busca rápida pelos termos em plataformas como TikTok e Instagram, fazem parte de um processo mais amplo que alguns pesquisadores chamam de patologização da vida, em que experiências, emoções e sofrimentos comuns passam a ser vistos cada vez mais como sintomas de transtornos mentais.

O psiquiatra Rossano Cabral Lima, professor do Instituto de Medicina Social da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), reconhece a necessidade de dar sentido ao sofrimento. O problema começa, diz, quando o diagnóstico vira a explicação principal para qualquer mal-estar ou traço de personalidade.

"A gente precisa reconhecer o mal-estar, reconhecer as formas de sofrimento", afirma. "Mas a gente tem que ter uma mente aberta e crítica para essa tentativa de responder a esse mal-estar exclusivamente ou principalmente a partir dos diagnósticos psiquiátricos."

Para ele, a classificação pode padronizar o sofrimento, fazendo com que pessoas com histórias muito diferentes recebam o mesmo rótulo enquanto o contexto daquela dor fica em segundo plano.

O resultado, segundo o médico, é uma "psiquiatria de checklist", em que basta somar um número mínimo de sintomas para que a conclusão pareça dada. "Muitas vezes as pessoas já chegam ao consultório, de fato, convencidas do que elas têm. Elas só procuram um aval médico."

Muitas vezes as pessoas já chegam ao consultório, de fato, convencidas do que elas têm. Elas só procuram um aval médico

Um artigo publicado em 2025 no Journal of Autism and Developmental Disorders analisou 150 vídeos do TikTok sobre autismo na vida adulta e identificou sinais de patologização de experiências comuns.

Dos 116 vídeos que descreviam traços ou sintomas, 76 associavam ao autismo comportamentos comuns na população, como sentir cansaço após interações sociais.

Os 150 vídeos analisados somaram mais de 1,1 bilhão de visualizações, com média de 7,18 milhões por vídeo e taxa de engajamento de 20,6%. A maioria (95%) foi produzida por usuários que se identificavam ou eram presumidos como autistas. Apenas um vídeo foi feito por um profissional de saúde.

Para a psicóloga Flávia Albuquerque, autora do livro "Despatologiza" (Rocco), esse tipo de conteúdo nas redes sociais combina promessa de autoconhecimento, identificação imediata e pertencimento. Em poucos minutos, oferece uma resposta para a pergunta "por que eu sou assim?".

O alcance dos vídeos também está na escolha dos comportamentos apresentados como sintomas. Procrastinar, esquecer compromissos, se distrair ou se incomodar com barulhos e texturas são experiências comuns, o que amplia a chance de o público se reconhecer.

"Quando um vídeo diz ‘você se distrai com facilidade e vive cansado, isso pode ser TDAH’, ele está descrevendo, na prática, a experiência de quase todos nós sob as condições de vida contemporâneas", afirma.

O psicólogo Horácio Goes Amici pesquisou o fenômeno em sua dissertação de mestrado na USP (Universidade de São Paulo). Ele diz que, em alguns casos, um vídeo sobre algum diagnóstico também serve como porta de entrada para cursos, produtos e outros serviços relacionados à condição, vendidos ou promovidos por quem protagoniza esse tipo de conteúdo.

Na pesquisa do mestrado publicada em 2023, Amici analisou 31 vídeos em português sobre ansiedade, depressão e TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) que tinham mais de 700 mil curtidas no TikTok. Selecionou os nove vídeos mais visualizados, três de cada transtorno . Depois, examinou os dez primeiros comentários de cada um, totalizando 90 comentários.

O estudo encontrou predominância de criadores sem formação em saúde, ausência de referências bibliográficas e uma abordagem dos transtornos baseada em listas de comportamentos cotidianos e genéricos. Nos comentários, apareceram com frequência autodiagnósticos e o uso do diagnóstico como forma de explicar dificuldades e aliviar a culpa diante das cobranças por desempenho.

Ainda assim, pondera Albuquerque, há sentido nessa busca por resposta. O diagnóstico pode conferir legitimidade para pedir ajuda, solicitar adaptações e admitir limites sem que isso seja lido como frescura ou falta de esforço, além de reunir pessoas com experiências parecidas, que leva ao sentimento de pertencimento.

"Em uma cultura que muitas vezes exige uma justificativa formal para reconhecer o sofrimento, o rótulo também pode representar o direito de sofrer sem ser julgado."

Para muitos, diz ela, o diagnóstico reorganiza uma história de autocobrança. Depois de anos ouvindo que eram preguiçosos, desorganizados ou incapazes, encontram no rótulo uma explicação para dificuldades que antes não conseguiam compreender. "Aquilo que parecia culpa passa a ser condição", resume. É o que a autora chama de "absolvição patologizante": "não é sua culpa, é o seu cérebro".

Como é feito o diagnóstico de um transtorno mental

Diferentemente de outras áreas da medicina, a psiquiatria não dispõe de exames de sangue, de imagem ou genéticos capazes de confirmar transtornos como TDAH, TEA (transtorno do espectro autista) ou ansiedade. Mas a avaliação não se resume a uma soma de sintomas.

O psiquiatra Antonio Geraldo da Silva, presidente da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), afirma que é preciso fazer o diagnóstico diferencial, investigando se os sinais podem estar relacionados a outras doenças ou mesmo a uma experiência dentro da normalidade. A avaliação leva em conta intensidade, duração e impacto dos sintomas.

Feito de maneira apressada, o diagnóstico ainda pode contribuir para o excesso de prescrição de psicofármacos, afirma Lima. Silva também chama atenção para a automedicação: algumas pessoas preenchem questionários, concluem que têm determinado transtorno e começam a tomar medicamentos sem avaliação médica adequada.

A crítica à patologização, porém, não deve ser confundida com a ideia de que transtornos mentais não existem ou não precisam de tratamento. Silva diz que quadros graves podem provocar sofrimento intenso e exigir acompanhamento médico.

O desafio é distinguir o que é doença do que faz parte da experiência normal e evitar tanto a banalização dos diagnósticos quanto a negligência de quem precisa de cuidado.

A saída não é nem abraçar, nem descartar o "é isso que eu tenho", afirma Albuquerque, mas transformá-lo em pergunta. Em vez de "eu tenho tal transtorno", algo mais próximo de "venho sofrendo com isso e gostaria de entender melhor o que está acontecendo comigo" e, a partir daí, procurar uma escuta profissional.

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