A mãe destruiu a família: testemunho de mãe alienada (II)

No primeiro artigo desta história, começámos a dar voz a uma mãe alienada que viveu o afastamento de um dos seus filhos e que, a partir daquilo que experienciou, afirma que “a alienação parental existe, ela é real”. Regressamos agora ao início do seu percurso, procurando reconstruir os acontecimentos pela ordem em que foram vividos e compreender quando e de que forma começaram a surgir as primeiras mudanças na relação familiar.
Esta mãe, que mais tarde viria a viver o afastamento do filho, conta-nos uma realidade que encontramos muitas vezes noutras histórias equivalentes e que é a de, no início, nada parecer fazer prever o caminho que a relação familiar poderá vir a tomar. A mãe recordou: “o divórcio não começou por um conflito aparente entre os pais (…) A verdade é que quando eu me divorciei, nós, numa primeira fase, fizemos um divórcio consensual e também a regulação das responsabilidades parentais de forma consensual. Eu tenho dois filhos, na altura do divórcio, a minha filha tinha quatro anos e o meu filho tinha sete anos. E ali ficou decidido que a guarda seria partilhada, com semanas alternadas”.
Este é o primeiro momento que precisamos de guardar na reconstrução desta história: dois filhos, então com quatro e sete anos, uma separação que a mãe descreve como consensual e uma organização da vida das crianças em semanas alternadas com cada um dos pais. Mas, uma coisa é existir um acordo, outra é a forma como esse acordo passa a ser vivido no quotidiano. E é precisamente aqui que, segundo esta mãe, começaram as primeiras dificuldades.
Quando o acordo começa a ser vivido de forma diferente
Após o divórcio, a mãe e o pai continuaram a viver muito próximos. A mãe ficou num apartamento no mesmo prédio onde residia o pai. Esta proximidade física permitia que as crianças circulassem facilmente entre as duas casas. É neste contexto que a mãe situa os primeiros problemas: “Mas, logo numa primeira fase, fiquei a viver num apartamento no mesmo prédio que o meu ex-marido. O que acontecia era que o pai não respeitava a divisão das semanas que tínhamos acordado e as crianças desciam e subiam quando queriam. Quando eu dizia: ‘Temos de cumprir as semanas’, acabava por ser eu a má, como se não quisesse as crianças comigo ou não lhes quisesse permitir alguma coisa. Havia, portanto, um facilitismo por parte do pai, que dizia que não era preciso cumprir o que tinha ficado estabelecido”.
Este primeiro relato introduz um elemento importante para compreendermos o que começa a acontecer nesta família. Perante uma organização parental que tinha sido definida por ambos os pais, começaram a surgir situações em que o pai não cumpria o regime de semanas alternadas que havia sido acordado. Enquanto a mãe procurava manter o regime estabelecido, o pai entendia que as crianças poderiam circular entre as suas duas casas de acordo com aquilo que desejassem em cada momento. A divergência deixava, assim, de estar apenas na organização prática dos tempos e começava a refletir-se na própria mensagem transmitida às crianças. Para a mãe, aquilo que tinha sido definido deveria ser cumprido, por considerar que essa previsibilidade proporcionava segurança e estabilidade aos filhos. Para o pai, o regime poderia ser alterado em função da vontade manifestada pelas crianças naquele momento e da sua própria vontade.
Esta diferença torna-se particularmente relevante porque as crianças começam a receber duas mensagens parentais distintas sobre uma mesma regra familiar. Uma procura manter aquilo que tinha sido previamente definido pelos pais, enquanto a outra permite flexibilizá-lo em função da vontade imediata das crianças. É precisamente nesta diferença que começa a surgir uma questão que irá assumir particular importância no percurso desta família. Quando um dos pais procura manter uma regra e o outro permite que ela não seja cumprida, a criança pode começar a percecionar de forma diferente aquele que lhe diz “não” e aquele que lhe diz “sim”.
Numa fase de adaptação à separação dos pais e à vida entre duas casas, a previsibilidade, a coerência e a segurança assumem particular importância para a criança. A organização dos tempos e o cumprimento do que foi definido são responsabilidades dos adultos e não decisões que devam ser colocadas nas mãos dos filhos. Importa, por isso, compreender como cada um dos pais responde às manifestações das crianças e que mensagem, através dessas respostas, lhes vai sendo transmitida acerca do outro pai ou da outra mãe.
A mãe prosseguiu: “Então, se a menina chorava que queria ficar com a mãe, que era o que acontecia, dizia não, não é preciso vir. Em contrapartida, se o menino também dizia que não queria ir ou que queria, vai. E, portanto, dizia não, não é preciso cumprir semanas. Isto aqui são muito pequeninos, fazem o que querem. E já aí há um problema porque o discurso de um progenitor é completamente diferente do outro. E as crianças apercebem-se disso e tiram vantagem disso. (…) porque comigo havia regras e eu queria cumprir algo que, ao meu ver, era melhor para o superior interesse deles. Portanto, era melhor para o bem-estar, porque deveriam estar com.iscurso completamente diferente. E nesse momento, quando dava jeito, a mãe é má, não, a mãe é que quer, isto é, a mãe é que quer, a mãe é má”.
Sobre este assunto, é importante não confundir duas questões. É natural que crianças pequenas expressem preferências, protestem numa transição, chorem porque querem permanecer com um dos pais ou manifestem vontade de estar com o outro. Uma manifestação de resistência ou uma preferência circunstancial não constitui, por si só, um sinal de alienação parental. Mas, o elemento que merece atenção neste testemunho é outro: a forma como os adultos respondem a essas manifestações e o significado que lhes atribuem perante a criança. Quando existem regras diferentes nas duas casas, as crianças percebem rapidamente essas diferenças. Aprendem como funciona cada contexto e podem, de forma natural e de acordo com a idade, procurar a resposta que, naquele momento, lhes é mais favorável. A situação torna-se mais preocupante quando uma decisão que deveria ser assumida pelos adultos é apresentada à criança como sendo uma imposição ou responsabilidade de apenas um dos pais. Nesse momento, a questão deixa de ser apenas a existência de regras diferentes e pode começar a influenciar a forma como a criança percebe cada um dos pais, sobretudo quando, na relação com um deles, a obediência não resulta apenas do reconhecimento das regras e dos limites, mas também do receio das consequências de não corresponder àquilo que esse pai ou essa mãe espera. E é precisamente essa mudança que esta mãe começa a identificar no seu relato.
“Temos que fazer o que a mãe está a dizer”
Há um episódio que esta mãe recordou como particularmente significativo, embora afirmasse não se recordar se, naquele momento, o filho não queria ir para casa do pai ou para casa da mãe, evocou um diálogo entre pais que ocorreu perante a criança. Contou-nos então que: “Para mim, o principal sinal surgiu num momento em que o meu filho não queria ir, já não me recordo se não queria ir para casa do pai ou para a minha, e eu lhe disse: ‘Temos de cumprir as semanas.’ Nessa altura, o pai disse-lhe: ‘Não, João [nome fictício], temos de cumprir porque a mãe destruiu a família e, a partir daqui, se não cumprirmos, só vai ser pior. Temos de fazer o que a mãe está a dizer’. Foi nesse momento que comecei a perceber que o discurso era sempre contrário ao meu e que eu estava a ser colocada no papel de vilã, como se fosse a má. Uma criança de quatro anos e outra de sete não conseguem compreender estas diferenças, nem perceber que, quando eu defendia o cumprimento do que tinha sido estabelecido, fazia-o por considerar que era o melhor para eles e que lhes proporcionaria maior estabilidade”. Este episódio introduz uma dimensão diferente da simples discordância acerca do cumprimento das semanas alternadas. Começou aqui a surgir uma mensagem dirigida à criança que atribui à mãe a responsabilidade pelo que estava a acontecer na família e que contribui para construir uma imagem negativa da sua figura.
Encontramos três elementos particularmente relevantes neste testemunho: “a mãe destruiu a família”, “temos de fazer o que a mãe está a dizer” e a apresentação do cumprimento do regime acordado como uma “imposição da mãe”, em vez de uma decisão anteriormente assumida pelos dois pais. A criança deixa, assim, de estar apenas perante duas formas diferentes de entender o cumprimento de uma regra e passa a receber uma explicação sobre o conflito familiar na qual a responsabilidade é atribuída à mãe.
Este tipo de comunicação merece particular atenção, porque introduz a criança no conflito entre os adultos, o que pode influenciar progressivamente a representação que constrói de cada um dos pais. Quando um deles é apresentado como responsável pela separação, pelas regras que a criança não deseja cumprir ou pelas dificuldades que a família está a viver, a imagem desse pai ou dessa mãe pode começar a ser associada à culpa e ao conflito. Para uma criança, o pai e a mãe não são apenas duas pessoas em conflito. São as pessoas que mais ama, as suas principais figuras afetivas e referências fundamentais de segurança, fazendo ambos parte da sua história, do seu desenvolvimento e da construção da sua própria identidade. Proteger os filhos depois de uma separação implica, por isso, protegê-los também do conflito entre os pais e da necessidade de escolher lados, de decidir quem tem razão, quem tem culpa ou quem “destruiu” a família. Essas são questões que pertencem ao mundo dos adultos e não devem ser colocadas sobre os filhos.
Quando a mãe começa a desconfiar de que algo estava a mudar
Foi depois deste episódio que a mãe situou aquilo que identificou como o primeiro momento em que começou verdadeiramente a interrogar-se sobre o que estava a acontecer. A este propósito referiu-nos: “E foi nesse momento que comecei a desconfiar de que alguma coisa não estava bem. Na altura, pedi que o meu filho fosse acompanhado por uma psicóloga, em primeiro lugar através da escola, mas o pai dizia que não era necessário”. Neste momento da história, esta mãe procurou apoio psicológico para o filho, por começar a sentir que aquilo que estava a acontecer ultrapassava uma simples diferença na forma de exercer a parentalidade, enquanto o pai não considerava necessário esse acompanhamento. Mas a mãe fazia outra leitura: “Comecei então a perceber que a narrativa que estava a ser construída em torno do divórcio, da guarda partilhada e da razão pela qual os meus filhos tinham de ir de uma casa para a outra acabava sempre por me responsabilizar. A mãe era apresentada como a culpada por tudo o que estava a acontecer. Sentia que, progressivamente, estava a ser construída uma imagem negativa de mim enquanto mãe.”
Da diferença parental à construção de uma narrativa
Este último testemunho ajuda-nos a perceber por que razão não devemos analisar isoladamente cada um dos episódios anteriores.
Se olhássemos apenas para crianças que sobem e descem entre dois apartamentos, poderíamos estar perante uma organização familiar flexível. Se olhássemos apenas para uma criança que chora porque quer permanecer com a mãe ou com o pai, poderíamos estar perante uma reação circunstancial a uma transição. Se olhássemos apenas para dois pais que discordam sobre a rigidez com que deve ser cumprido um regime de semanas alternadas, estaríamos perante uma divergência parental que pode ocorrer em muitas famílias separadas. Mas, olhando conjuntamente para eles, tiramos outra ilação. Estava a ser desencadeado um processo de alienação parental com a finalidade de denegrir e culpabilizar a mãe pela separação, para que os filhos fossem criando uma imagem negativa da mesma.
De facto, é a sucessão dos acontecimentos que começa a colocar outras perguntas.
Segundo este testemunho, à divergência sobre o cumprimento das semanas juntava-se progressivamente uma explicação para as crianças, era “a mãe” quem queria que fosse assim, era preciso “fazer o que a mãe está a dizer”, e, no episódio que esta mãe identificou como particularmente marcante, surgiu a afirmação de que “a mãe destruiu a família”. É esta sequência que precisamos de continuar a acompanhar. É aqui que a prevenção se torna particularmente importante. Em situações de separação, os pais podem discordar. Podem ter estilos educativos diferentes. Podem interpretar de maneira diferente aquilo de que os filhos necessitam. Mas existe uma diferença entre discordar do outro pai e envolver a criança numa narrativa que responsabiliza o outro pai pela separação ou pelas dificuldades familiares.
Quando começamos a ouvir uma criança reproduzir avaliações, acusações ou explicações negativas acerca de um dos pais, é necessário escutar, observar e procurar compreender quando, como e em que contexto esse discurso começou a surgir. Importa perceber se corresponde à experiência da própria criança, se aparece associado a acontecimentos concretos e como se vai transformando ao longo do tempo. Foi precisamente aqui que surgiu uma questão fundamental nesta história: aquilo que inicialmente aparecia no discurso dos adultos começou, progressivamente, a surgir também na forma como os filhos olhavam, falavam e se relacionavam com a mãe.
É esse percurso que continuaremos a reconstruir em futuros artigos, acompanhando quando e como começaram a surgir mudanças no discurso e no comportamento dos filhos e de que forma essas mudanças se refletiram na relação com a mãe, procurando também compreender que sinais podem ser importantes para intervir precocemente e prevenir que o afastamento se instale e se consolide ao longo do tempo.
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