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Saturday, September 5, 2026

A recusa de Cristina Peri Rossi

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Faz parte da constelação que forma o célebre boom latino-americano — onde se inserem autores tão consagrados como Cortázar, García Márquez ou Vargas Llosa —, e depois deste A Insubmissa, segue-se a edição de O Museu dos Esforços Inúteis. É certo que Cristina Peri Rossi já fora publicada em Portugal pela Teorema nos anos oitenta (O Amor É uma Droga Dura, 1989), mas esse único livro encontra-se há muito esgotado, pelo que os leitores portugueses não tinham, até aqui, o acesso facilitado à obra de uma autora que em 2020 foi galardoada com o Prémio Cervantes.

Ora, A Insubmissa, uma narrativa autobiográfica que incide principalmente sobre a infância e juventude da escritora, tem desde logo três principais motivos de interesse.

Em primeiro lugar, a construção da personagem da mãe de Peri Rossi, que, no primeiro capítulo (de longe, o mais interessante), surge quase como uma prefiguração da bondade e inteligência, mas que, subtilmente, por silêncios e alusões, vemos ao longo do livro transformar-se numa figura manipuladora que tende a usar a filha como escudo. A construção desta visão beatificante da filha, que se esforça por fechar os olhos aos defeitos da mãe, descreve assim na perfeição uma manifestação bastante universal de cegueira filial.

Depois, temos ainda a descrição do exílio rural de Cristina, que, a certa altura, para curar um princípio de tuberculose, vai viver com os seus tios favoritos para a estação ferroviária onde o tio trabalha. Nestes capítulos, assistimos à reconfiguração do mundo urbano da protagonista, que aí começa a descobrir a sua atração por mulheres, sempre consideravelmente mais velhas, que não parecem mais do que actualizações do amor de Cristina pela mãe, com quem, sabemos desde o princípio, estava decidida a casar, até para assim a salvar de um casamento infeliz e violento com o pai da protagonista.

Por fim, A Insubmissa é interessante de um ponto de vista formal, uma vez que, apesar de ser sempre descrito como um romance, o livro parece mais um conjunto de contos a orbitar em torno de um núcleo temático robusto, mas contos que, assim coligados, se vão informando uns aos outros e, o que é particularmente curioso, que parecem, mesmo ao chegar ao fim, abdicar dos desfechos habituais do género para enfim mergulharem na narrativa central, suavizando dessa forma elegante a transição entre capítulos.

Título: “A Insubmissa” | Autora: Cristina Peri Rossi | Tradução: Guilherme Pires | Editora: Antígona | Páginas: 203

Ora, apesar de todos estes méritos, em demasiados momentos o romance parece apressado e descuidado. Isso torna-se evidente, por exemplo, na descrição do pai da protagonista ao longo da história. A páginas tantas, Cristina mostra-se frustrada com a mãe por esta repetidamente sugerir que Cristina seria igual ao pai, sem nunca explicitar o que pretende dizer com isso. Ora, a mesma frustração é sentida por nós, leitores, que vemos este homem ser descrito, por exemplo, na página 102, como “um homem agreste, violento, solitário e perigoso” e na página imediatamente a seguir como “aquele homem agreste, violento e ameaçador” e ainda, na mesma página, como alguém que “perante as censuras da minha mãe, (…) optava por um silêncio pesado, vagamente ameaçador; outras, em contrapartida, respondia com violência”. Peri Rossi teima então em adjetivar em vez de mostrar, sendo raras as cenas em que somos confrontados com os motivos para tal caracterização, sobretudo por comparação com as incidências em que esse carácter nos vem apresentado como um facto consumado, que só nos resta aceitar.

No entanto, (além da quantidade peculiar de vezes em que a escritora refere parenteticamente que já conhecia certas palavras pelo seu efeito antes de as ter ouvido) talvez o exemplo mais cabal de um certo desmazelo encontra-se no capítulo O Salão das Visitas, onde somos introduzidos à história familiar da escritora. Nessas vinte e duas páginas, além de nos ser recordado pela enésima vez que a família materna viera de Génova (“Génova — a cidade de onde haviam partido os meus bisavós” (54); “… beleza genovesa, ou seja, do lugar de procedência de parte da minha família materna” (62); “aquele não era o estilo de casas que conhecera na sua terra natal, Génova” (70) — uma informação que, aliás, já nos fora partilhada em capítulos anteriores, onde se comparavam os olhos da mãe da protagonista aos de Elizabeth Taylor, tal como voltará a acontecer aqui), é-nos ainda dito uma e outra e outra vez que o bisavô fabricava ladrilhos e mosaicos (três incidências), que a avó se chamava María Luisa (“María Luisa, a minha avó materna” (63); “a minha mãe, filha da sua irmã María Luisa” (64); “da minha avó, María Luisa” (75)); e que a bisavó só sabia falar italiano, entre vários outros exemplos possíveis. O problema destas repetições é que parecem ser usadas meramente para contextualizar, não servindo, portanto, qualquer propósito narrativo, como se a escritora se tivesse esquecido de que já atrás o referira ou como se receasse que nós, leitores, nos tivéssemos esquecido destes pormenores que, fosse como fosse, pouco acrescentam ao que vem sendo contado.

Por fim, parece haver outro problema, este mais estrutural, no livro. Uma narrativa de infância tende a servir ou como ilustração das ilusões e enganos da juventude, ou como explicitação do ponto de vista inocente das crianças ou como génese da mulher em que a narradora se viria a transformar. Ora, nada disto acontece aqui. Como o título desde logo sugere, a protagonista recusa-se sempre a submeter a sua visão do mundo ao olhar que a sociedade lhe procura impor, tendo os seus gostos e interesses formados desde antes do princípio de uma história que em nada os virá alterar, de modo que a violência de que será vítima pouco ou nada mudará a sua percepção do mundo ou a sua personalidade, de que a escritora parece invariavelmente orgulhosa. Assim, o romance ilustra apenas uma continuação de uma perspetiva apresentada como incontroversamente certa do princípio ao fim, pelo que a meta da história está logo ali, junto ao ponto de partida, o que nos leva por vezes a sentir que pedalamos em seco, sem sair do lugar.

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