Lula. Criticado onde cresceu, elogiado onde se sindicalizou

Sandrine Amaral também declara que vai votar em Flávio Bolsonaro, assim como Paulo César de Freitas. “Se Bolsonaro ganhar, corto a barba no domingo para celebrar”, declarou o homem de 78 anos, o tal suposto “primo afastado” de Lula da Silva.
No entanto, nem todos na Vila Carioca estão contra o Presidente. Serena Quilombola diz que vai votar no candidato do PT.
Perto doutra oficina, enquanto convive com alguns vizinhos, a cozinheira de longas tranças, que trabalha num pequeno restaurante perto da casa onde viveu Lula da Silva, sublinha que “sempre foi apoiante do Lula”: “Ele é daqui, não é? Seria mau não votar no candidato daqui”. Serena reconhece que “não sabe muito de política”, mas que sente que “Flávio Bolsonaro não seria um bom Presidente”. “Mas aqui na Vila Carioca sei que as pessoas estão mais pelo Bolsonaro, ainda que esteja meio dividido”, nota.
Num país polarizado, há quem também opte por não votar em nenhum dos candidatos. Lúcia Bianchi é amiga de Sandrine Amaral e encontra-se com ela no quiosque, na manhã deste sábado. Ao Observador, afirma que tem recebido mensagens que dizem que tem de ir votar ou “tiram-lhe os subsídios”. “Ela tem problemas de visão e tem um subsídio especial”, explica a dona do quiosque. Questionada sobre quando lhe foi concedido esse benefício, Lúcia explica que foi durante os mandatos de Lula da Silva.
Ainda assim, não se interessa por política — não gosta do atual Presidente, nem do seu rival. Alegando que vai ter de ir votar na segunda volta para não perder o benefício financeiro de que usufrui — ainda que oficialmente não exista qualquer penalização desse género em vigor —, Lúcia Bianchi vai optar pelo voto nulo. “Não voto em Lula nem em Bolsonaro, só voto em Deus”, resume.
No sindicato, Lula da Silva é visto como um herói: “Foi ele quem retirou o Brasil da pobreza”
Uma grande festa. Apesar do tempo cinzento e do frio anormal para outubro que se faz sentir em São Bernardo do Campo esta segunda-feira à tarde, nada desanima os apoiantes de Lula da Silva. Reunem-se em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde dançam ao som de músicas que aclamam o Presidente brasileiro. Uma das que mais se ouve é Deixa o Homem Trabalhar, a canção da campanha de 2006. Outro dos gritos de guerra que fazem a multidão vibrar é “Lula, guerreiro do povo brasileiro”.
No sindicato a que dedicou grande parte da sua vida — e que deu origem à sua carreira política —, não há dúvidas de que Lula da Silva é visto como um excelente Presidente. No edifício da central sindical está uma faixa negra onde se lê: “Lula Presidente”. Quem entra no edifício vê cartazes e folhetos de apoio à candidatura do PT. No átrio, veem-se tapeçarias de figuras históricas da esquerda, como Rosa Luxemburgo, Mahatma Gandhi e Che Guevara. No centro? Lula da Silva.
Percorrer as instalações do sindicato é como visitar um museu em homenagem ao atual chefe de Estado. As referências multiplicam-se — desde cartazes do período em que esteve detido a exigir “Lula Livre” até múltiplos retratos da sua trajetória. Para Carlinhos Neri, que integrou o mesmo sindicato e conviveu com Lula nessa época, a homenagem é indiscutível: “Ele foi a figura mais importante deste sindicato”.
“Representou-nos de forma extraordinária. Foi um grande homem que não teve medo de enfrentar o poder. Sabe, há muito preconceito no Brasil contra Lula da Silva. O operário pobre chegou a Presidente e isso é motivo de orgulho, um exemplo para nós. Mas ele sempre foi perseguido pelos adversários”, sublinha, durante o evento na ABC Metalúrgicas, o antigo operário da indústria automóvel, atualmente reformado. “Sempre fui um grande apoiante e votei nele sempre. Para mim, Lula é o melhor político da história do Brasil”, diz.
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