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Sunday, September 13, 2026

Dia da Cachaça: por que a bebida brasileira ainda exporta tão pouco

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A cachaça tem dia no calendário, lugar garantido na mesa brasileira e até um drinque que virou símbolo do país. O que ainda não tem é o mesmo tamanho no mercado internacional. No Dia Nacional da Cachaça, celebrado neste domingo (13), a bebida chega a uma nova fase de valorização no Brasil, com mais produtos premium, envelhecidos e espaço na alta coquetelaria, enquanto as exportações ainda representam uma parcela pequena da produção.

Em 2025, o Brasil produziu 234,4 milhões de litros de cachaça, segundo o Anuário da Cachaça 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária. Desse total, apenas 7,95 milhões de litros foram exportados, para 76 países, movimentando US$ 17,07 milhões.

Poucos produtos carregam uma relação tão próxima com a história do Brasil quanto a cachaça. Nascida nos engenhos de cana-de-açúcar, a bebida atravessou diferentes momentos da formação do país e ganhou espaço na música, na literatura e nos costumes brasileiros. Mais recentemente, também passou por uma transformação de imagem e começou a ocupar bares e restaurantes com produtos envelhecidos, maior valor agregado e novas experiências de consumo.

A mudança ganhou força a partir dos anos 1990, quando o setor começou a trabalhar na valorização e profissionalização da bebida. Ao mesmo tempo em que a cachaça tradicional manteve seu espaço, produtores menores e grandes empresas passaram a investir em produtos de maior valor agregado, enquanto a coquetelaria abriu novas possibilidades para o destilado brasileiro.

O movimento ocorre em um setor que também ampliou sua base produtiva. Segundo o Anuário da Cachaça 2026, do Ministério, o Brasil encerrou 2025 com 1.538 estabelecimentos elaboradores registrados, distribuídos por 844 municípios.

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No mercado externo, porém, o espaço ainda é pequeno.  No mesmo ano em que as exportações de cachaça brasileira ficaram em pouco mais de US$ 7 milhões, as exportações de tequila chegaram a US$ 4,3 bilhões, segundo dados do CRT (Consejo Regulador del Tequila). A diferença ajuda a dimensionar o caminho que a cachaça ainda tem pela frente para se consolidar como um destilado global.

Para Vicente Bastos, presidentede do IBRAC (Instituto Brasileiro da Cachaça) a bebida ainda é uma “promessa” no mercado internacional. Na avaliação dele, ampliar a presença no exterior depende de promoção, distribuição e investimento, além de um esforço para apresentar a cachaça a consumidores que ainda conhecem pouco o produto.

Da bebida popular ao produto premium

A transformação do mercado brasileiro não significa que a cachaça tradicional esteja perdendo espaço. Existe uma grande base de produtos padronizados, consumidos puros ou em preparos como a caipirinha, que continua sendo importante para o setor.

Ao mesmo tempo, a valorização de produtos de maior qualidade criou espaço para produtores especializados em cachaças premium. O movimento também chegou às grandes empresas, que passaram a desenvolver produtos de maior valor agregado.

O IBRAC estima que o segmento premium ainda represente menos de 10% do mercado, embora não haja um número exato. Para Bastos, a tendência acompanha uma mudança mais ampla no consumo de bebidas alcoólicas: consumidores passam a beber menos, mas procuram produtos de maior qualidade.

A coquetelaria também ajudou a ampliar as possibilidades de consumo, com cachaças envelhecidas e produtos de diferentes perfis ganhando espaço em drinques autorais e bares de perfil mais sofisticado.

 O desafio de transformar identidade em negócio

Se no Brasil a cachaça ganhou novas formas de consumo, no exterior o desafio ainda é fazer com que o produto seja conhecido para além da caipirinha.

Bastos estima que entre 1% e 3% da produção seja destinada ao mercado externo, embora considere que a proporção esteja mais próxima de 1%. Segundo ele, as estatísticas de produção ainda não são precisas o suficiente para determinar essa participação com exatidão.

A dificuldade, na avaliação de Bastos, não está apenas no produto. A cachaça também precisa de maior exposição internacional, investimentos em promoção e uma rede de distribuição capaz de levar diferentes marcas a mais consumidores.

A tequila, segundo ele, conseguiu construir uma presença global com a ajuda da proximidade com os Estados Unidos, da força da culinária mexicana e da entrada de grandes multinacionais de bebidas, que ajudaram a distribuir e promover a categoria em diferentes países.

A cachaça ainda não conta com uma presença semelhante dessas grandes empresas. “O Brasil precisa se assumir mais”, afirma Bastos.

O presidente do IBRAC compara o desafio ao caminho percorrido pelo café colombiano. Segundo ele, a Colômbia construiu durante décadas uma estratégia de promoção da origem, até transformar o “café da Colômbia” em uma marca reconhecida internacionalmente.

Para a cachaça, essa estratégia ainda está em construção. O IBRAC mantém, em parceria com a ApexBrasil, um projeto de promoção internacional que prevê ações em diferentes mercados, incluindo México e Alemanha, além de rodadas de negócios e aproximação com compradores estrangeiros.

Antes de conquistar o mundo, setor precisa “arrumar a casa”

A expansão internacional também passa, segundo o IBRAC, por desafios dentro do próprio Brasil. Um deles é a informalidade.

Bastos afirma que ainda existe uma parcela de produção fora dos controles oficiais, com produtos que não seguem os padrões de identidade e qualidade estabelecidos pelo Ministério da Agricultura.

Para ele, ampliar a formalização é importante tanto para a segurança do consumidor quanto para a concorrência entre empresas. “Esse trabalho de casa tem que ser feito. Eu acho que ele está até sendo feito, precisa intensificar”, afirma.

Tributação pesa para o setor

A tributação aparece como outro ponto de preocupação. O IBRAC defende que a cobrança sobre bebidas alcoólicas considere a quantidade de álcool efetivamente presente no produto, em vez de estabelecer diferenças apenas pela categoria da bebida.

O setor agora acompanha a regulamentação do Imposto Seletivo, previsto na reforma tributária. Para o IBRAC, a nova estrutura não deveria criar uma diferença de tratamento entre categorias de bebidas alcoólicas.

O desafio, portanto, é fazer a transformação que já começou no mercado brasileiro ganhar escala. Para o instituto, a cachaça precisa combinar a profissionalização da cadeia, a valorização do produto e uma estratégia mais consistente de promoção no exterior para transformar sua identidade brasileira em presença global.

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