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Thursday, November 5, 2026

Foucault e o marxismo

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1 Para grande frustração dos intelectuais de esquerda lusos, que sobre o assunto só dizem banalidades e mal digeridas, Foucault, um dos maiores pensadores do século 20, nunca foi marxista. Nem poderia sê-lo. Era mesmo antimarxista. E a explicação é muito simples. Foucault faz a diagnose da multidão de pequenos poderes dispersos a todos os níveis da vida social, desde a escola, ao hospital, à fábrica e ao local de trabalho, à prisão, ao hospício, ao desporto, à família, ao casamento e por aí fora que geram códigos de conduta interiorizados em todos nós e cujo exercício articula uma política biológica. A evolução tecnológica dilatou até à exaustão este poder minucioso, preciso e silencioso. O poder não é vertical, é horizontal e transversal a todas as relações sociais. Analisa-se numa disciplina que torna os indivíduos e a sociedade no seu conjunto governáveis. A saúde é um caso exemplar. Vai desde a prevenção da saúde pública, às campanhas de vacinação, à alimentação e higiene, e mete-se na nossa reprodução, na nossa sexualidade, no tabagismo e na esperança de vida em nome das «boas práticas». O poder protege a nossa biologia ao mesmo tempo que a controla. Transforma o nosso corpo num laboratório e invade o nosso espírito dizendo-nos o que é e o que não é bom e normal. Provoca sempre resistências mas estas não são monopólio de ninguém. Levam-nos a dizer e a sentir a verdade, custe o que custar (parrêssia em grego). Cabem a cada um construindo a sua subjectividade irrredutível através do exercício de «técnicas» libertárias individuais. Daí o namoro de Foucault com o liberalismo espistemológico e ético. Cada um é empresário de si próprio e desenvolve uma actividade permanente de estímulo, ajuste e reestruturação. Um velho individualista, como eu, compreende isto muito bem.

Claro está que o Estado incute e vulgariza estas novas disciplinas sociais. Serve-se delas de modo a controlar a população em nome da sua governabilidade. A dicotomia legal/ilegal é paulatinamente substituída pela normal/anormal. O poder define sempre um saber que fixa o que é possível pensar e exerce-se sem (ou com pouco) recurso à força preferido a persuasão que leva os indivíduos a adoptar comportamentos supostos sãos em nome daquele saber. Os indivíduos interiorizaram uma nova normalidade pelo que o Estado não tem de andar sempre em cima deles.

2 Ora, é esta diagnose da pluralidade dos poderes que irrita o marxismo. O poder em Foucault não é expressão da predominância de uma classe social definida, a burguesia, que dele se serviria para disciplinar a classe operária e assim a canalizar para as necessidades do crescimento económico. Os poderes não são o Big Brother visando maximizar a força produtiva do trabalhador ao serviço do capital e da extracção da mais-valia. Não são condicionados pela economia. São muito mais complexos do que isso.

Para os marxistas, Foucault confunde o poder político com os poderes disciplinares. Claro que só lhes interessa o primeiro pois que é esse que pretendem alcançar de modo as colocá-lo ao serviço do partido. Os marxistas são obcecados com o poder vertical. O horizontal não lhes interessa nada e a sua diagnose desvia mesmo o partido das suas tarefas fundamentais. O poder é o soberano radicado no Estado, tal como foi pensado desde o século 17. A perspectiva de um (bio) poder descentralizado e multiforme arvorado a gestão biológica e estatística dos seres vivos, de uma microfísica do poder, assusta-os.  A constatação que o poder não é privilégio de uma classe determinada, a burguesia, mas sim um conjunto de relações extensivas a todos os recantos, desde a prevenção rodoviária à sexualidade, que acompanha toda a vida social e individual deixa-os desorientados.

Foucault substituiu o poder do Estado pela governabilidade social e individual. Esta não pretende condicionar ninguém em prol dos interesses de minorias mas sim articular a infinita diversidade dos seres humanos. Reduz a conflitualidade social, sem a eliminar. Os marxistas nunca lhe perdoarão.

3 O objectivo de Foucault não é o socialismo mas a libertação do homem através da resistência às disciplinas e seus condicionamentos. É quanto basta para que os marxistas façam dele um  individualista reaccionário alheio às condições materiais da exploração e incapaz de pensar dentro das circunstâncias próprias da classe trabalhadora, e ao mesmo tempo um idealista porque não pensa a partir das condições materiais que mandam na condição burguesa e trabalhadora.

O que Foucault quer não é o socialismo mas a resistência através da subjectividade liberal. É por aqui que ele contribuiu para o wokismo. A distinção que faz, p. ex., entre a sexualidade e o sexo serviu de base para todos os movimentos lgbt ou seja, para a dissolução do género masculino e feminino na procura da satisfação individual. E isto porque para ele o sexo não era uma criação inteiramente natural, tal como o «género», mas sim uma convenção social historicamente determinada e construída, antecâmara de todo o wokismo. Sexo e género são prolongamentos da liberdade humana uma vez ultrapassados os constrangimentos que as tolhem. A biologia é ciência disciplinar produzida pelo poder.

4 Os marxistas encaram tudo isto como um desvio do objectivo principal que é a tomada do poder político. Por muito que Foucault insista na natureza política da disciplina alargada a toda  sociedade e nela vigente não é essa a política que interessa aos marxistas. Os marxistas são apaixonados pela ideia do Estado e do seu poder, inaugurada por Hegel e ampliada por Marx. A protecção das minorias e do consequente pluralismo obrigava-os a transigir com o liberalismo coisa em que não estão interessados. Minorias desembestadas e sem controlo partidário a perturbar a consciência de classe e o papel dirigente do partido não os convencem. Não podem deixar de ir às manifestações pró-habitação, mas não se deixam fotografar ao pé de lgbts cheios de arganéis, clips e tatuagens.

Foucault leva às últimas consequências a liberdade individual e o seu instrumento, a resistência, sem a aprisionar numa estratégia de classe. Quer denunciar as múltiplas formas de poder. Importa-lhe muito mais a liberdade e o exercício pleno dos direitos individuais do que a tomada do poder político.

5 A esquerda tem alguma coisa a retirar de Foucault? Tem, mas para isso tem de se desmarxizar. Tem de optar pela radicalização das liberdades e vitimizar-se armando-se em paladina das minorias, oprimidas pelas maiorias políticas e morais. A estratégia terá de ser esticar a corda, atrair as minorias e formar com elas coligações de multidões ululantes contra as «elites» e os «privilegiados». Tem de ser, portanto, «populista». Tem de renunciar à revolução e apostar na radicalização mas sem renunciar obviamente ao liberalismo que é o combustível da resistência. Afinal o populismo, que não é exclusivo da direita, ao contrário do que alguns lusos pensam, serve a esquerda e mesmo mais, é o seu destino.

Se a esquerda se impressiona com Foucault, que aposte no liberalismo e na afirmação dos direitos individuais até ao limite, mas que é bom não confundir com «assembleias populares» de fachada como se fossem representativas. Não é este o caminho para a democracia «avançada» que não conseguiu trilhar há 50 anos, porque o pc, que detesta indisciplinas, não estava interessado nisso.

A esquerda lusa e a outra gostam de arvorar cultura e referir Foucault, mas têm de perceber que ele era, antes de mais, um libertário individualista e Marx gostava muito pouco de libertários, pois expulsou M. Bakunine da 1ª Internacional, insultou duramente (coisa que era especializado em fazer) M. Stirner na A Ideologia Alemã e embirrava solenemente com P. Lafargue, apesar de este ser seu genro. Marx era um ditador totalitário e autoritário, como se depreende de tudo quanto escreveu, designadamente da Guerra Civil em França e da Crítica do Programa de Gotha. Foucault era um espírito libérrimo e detestava-o cordialmente. Leiam-no e citem-no mas não façam dele aquilo que ele não foi.

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