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Wednesday, October 7, 2026

O destino da França é viver a ferro e fogo. E depois falir

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

O José Manuel Fernandes já está conosco. É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Depois, se quiser entrar em direto pra nos dar a sua opinião, só tem que ligar pra nós 91 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. O número é sempre o mesmo: 91 002 41 85. Carla.

O que começou como um protesto de um grupo de estudantes liceais, rapidamente evoluiu para o bloqueio de centenas de escolas e manifestações violentas. França está de novo sob brasas e depois de ontem se terem realizado dezenas de manifestações, os liceus estarão fechados o resto da semana. Isto quando o país discute um orçamento sob a pressão enorme dos credores e sem uma maioria que permita fazer as reformas necessárias. E também quando todos já só pensam nas presidenciais de 2027 e o candidato da extrema-esquerda surge ao lado dos grupos violentos. É a França novamente a ferro e fogo, mas numa altura em que aumenta a inquietação dos mercados financeiros. José Manuel, bom dia.

Bom dia.

Isto quer dizer que vai ser assim até às eleições presidenciais, aquelas eleições que Marine Le Pen pode ganhar.

Enfim, vai ser assim até lá, se calhar até depois. Porque provavelmente depois, sobretudo se ela puder ganhar, é capaz de tudo se tornar ainda mais dramático, porque já se percebeu que há uma parte da sociedade francesa, uma parte da rua francesa, digamos assim, que nunca toleraria esse desenlace. E em França, de facto, nós tentamos perceber o que se passou. Isto é grave. Há dezenas, mesmo centenas de polícias feridos. Aquilo que se passa na rua, primeiro com os bloqueios dos liceus, depois com os atos violentos, depois com incêndios colocados até em liceus, ou liceus incendiados. Enfim, não foram todos incendiados, mas parte deles incendiados. Houve carros dos bombeiros destruídos. E depois acabou também por haver feridos do lado dos próprios manifestantes. Alguns não sabem exatamente como é que aconteceu. A polícia, os CRS, que é a polícia de choque deles, nunca foi tranquila. Isso, de facto, quando nas manifestações aparecem grupos com bataclavas, portanto, com aquelas gorros que tapam a cabeça, vestidos de preto, vão pra lá apenas preparados para o combate. Aliás, vendo as imagens, percebe-se que há coisas que são, nem sei como é que aquilo se passa, porque ontem terá havido um bebê que ia passar num carrinho, que também levava num carrinho, também terá ficado frito, uma coisa dessas. Eles têm uma coisa, eles chamam aquilo lança-foguetes, mas não sei o que é, parece que é uma coisa de fogo de artifício. Mas que lançam uns fogachos contra a polícia. Umas espécies de bolas de fogo, e eles andam com aquilo na rua e vi imagens a disparar, inclusive pra dentro do metrô. E a polícia responde com várias maneiras. Eles usam umas coisas que parece que é a única polícia europeia que usa, e agora já terão sido proibidos de usar isso em manifestações de liceais, portanto, são adolescentes, que é uma espécie de granadas de borracha, digamos assim, que explodem. Terá sido uma dessas granadas que arrancou a mão a um manifestante, que ia pegar na granada. A granada estava no chão, mas ele pegou nela e explodiu nessa altura e ele perdeu a mão. Portanto, há imensas situações de uma violência inexplicável. Depois, há situações em que militantes, autarcas e o próprio agente máximo de uma força política que tem imenso peso em França, que é a França Insubmissa, partido de Jean-Luc Mélenchon, aparecem ligados, nalguns casos, a incitar mesmo. Já há situações em que alguns deles foram processados, porque dizem: "Vamos acabar com a polícia e vamos incendiar o Eliseu", o Eliseu é o palácio presidencial. Noutros casos, aparece um autarca que parece estar a tentar bater num carro em que vai uma polícia a caminho de se juntar aos seus companheiros. Enfim, as situações são muito graves. Isto não é novo em França, parece que cada vez que há uma crise, que há um problema, erguem-se barricadas, fazem-se manifestações, provoca-se a polícia e a polícia também não é gentil, digamos assim. Agora, se poderia ser gentil face a estas circunstâncias. Mas isso tudo acontece num quadro, numa situação, num momento em que a França está mais do que bloqueada, porque há razões para os protestos juvenis. Digamos que tudo isto seria normal noutros países. O que se passa? Estamos a falar de coisas que também falamos cá em Portugal, mas que em França, surpreendentemente, ganharam outra dimensão. Estamos a falar de falta de professores, estamos a falar de turmas demasiado grandes, estamos a falar de escolas onde chove, caem tetos, há imagens a circular de ratos a fugir à frente dos estudantes, falta de papel higiênico nas casas de banho. Portanto, muitas coisas desse gênero, que os miúdos, naturalmente, sentem-se mal. Depois também há questões que têm a ver com o sistema de acesso ao ensino superior, se está a correr bem, se está a correr mal. Isto num quadro em que a qualidade percebida do sistema de ensino está a cair dramaticamente. Temos dados recentes, a queda da França no PISA deixou de estar na média da OCDE pra vir por aí abaixo, está atrás de Portugal em vários indicadores. Portanto, de forma muito acentuada. Isto ainda se casa com algumas regiões onde a presença de segundas e terceiras gerações de imigrantes se torna muito evidente nas manifestações. Isso, por exemplo, foi muito claro naquela Zona que é uma espécie de subúrbio de Paris, que é Saint-Denis, que é um subúrbio que historicamente é relevante, está lá a catedral onde estavam em tempos enterrados, era o Panteão Real, e que foi também onde esteve o Papa no Stade Saint-Denis, que fica onde está o Stade de France. Foi de Saint-Denis que saíram alguns dos terroristas que atacaram o Bataclan e algumas das pessoas que foram identificadas foi porque estavam a cantar honras a esses terroristas. Cantar uma espécie de rap de elogio ao terrorismo. Isto é um ambiente muito doentio, muito complicado. Não se percebe como é que se pode sair disto. Grande parte do investimento que não há na educação, não quer dizer o investimento em percentagem do PIB, nem caiu muito e há indicadores que em termos de média da OCDE, até se gasta mais em França do que na média da OCDE, não estou a comparar com Portugal. Mas depois as zonas sensíveis, vendo, por exemplo, em paridade de poder de compra, os professores franceses em algum momento, não em todo o percurso, mas em momentos do seu percurso, ganham menos que os portugueses. Estamos a falar em paridade do poder de compra, aquilo que podem comprar ou não podem comprar. Portanto, há aqui muito mal-estar, mas ao mesmo tempo, uma das razões porque não se consegue alterar nada é porque a França gasta em pensões, com o sistema de pensões, mais do que a média também da OCDE. E isto não se consegue mudar. A França é o país onde os candidatos presidenciais defendem que a idade da reforma, que está em 62 anos, em Portugal vai quase em 67, deve descer para os 60. E houve um debate entre os candidatos da esquerda socialista esta semana, em que todos eles disseram que entre 60, 62, quer dizer, seja lá como for, a única reforma que este governo tentou avançar, ou melhor, a maioria Macron tentou avançar, que fez vários governos, que foi ir aumentando devagarinho até aos 64. Todos os candidatos dizem que não, é para acabar. É um país que está assim e as taxas de juro dos empréstimos da França estão a aumentar, o déficit público está descontrolado, a dívida pública arrisca-se a ultrapassar a italiana, que já não está tão longe como isso, mas comparando a dinâmica das duas dívidas, começa a ficar também preocupante. Portanto, a França é, para todos os efeitos, a segunda economia da União Europeia.

Isto está um barril de pólvora.

Mas está um barril de pólvora e muito difícil ver como é que sai disto. E depois ainda há o tema das presidenciais, mas lá iremos.

Lá iremos, depois das 10:00. Até já.

Até já. 910 002 41 85 para entrar em direto, mas também nos pode enviar a sua mensagem de voz através do WhatsApp ou então deixar os seus comentários nas nossas redes sociais ou no site do Observador. Muito bom dia, são 08h25.

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