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Wednesday, November 4, 2026

Nuno Gouveia: "Os americanos rejeitaram Donald Trump"

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Nuno, bem-vindo à Rádio Observador. Vamos abordar estas eleições dos Estados Unidos e os resultados que já temos confirmados em vários estados. Esperava a esta altura, cinco da manhã em Portugal continental, e com ainda votação a decorrer, por exemplo, no Alasca, esperava nesta altura ter um resultado já tão confirmado com uma vitória para o Partido Democrata?

Olá, muito boa noite. Na verdade, muitas das sondagens já apontavam para um cenário desta verdadeira hecatombe eleitoral para o Partido Republicano. Obviamente, havia também o contexto das próprias sondagens e as expectativas e de fato era expectável pelo menos uma vitória do Partido Democrata, e eu sempre disse isso, que essa vitória não estaria em causa.

Mas nesta dimensão?

Exatamente. A dúvida seria perceber a dimensão da vitória. O que nós temos neste momento é uma vitória verdadeiramente assombrosa por parte do Partido Democrata. Neste momento, há dúvidas se a última vez que aconteceu isto numas eleições americanas foi em 1994, quando o Partido Republicano teve uma grande vitória e recuperou a maioria na Câmara dos Representantes pela primeira vez em mais de 40 anos, ou se em 1974, e a maioria aponta para esse ano, precisamente depois do impeachment de Richard Nixon, onde o Partido Democrata obteve vitórias redundantes. E isso dá para percebermos a dimensão desta vitória e a importância. E se acrescentarmos também um dado muito importante, que é que a geografia eleitoral destas eleições, ou seja, por exemplo, na questão do Senado, os estados que estavam em causa favoreciam o Partido Republicano, e isso também explica muito da importância da vitória do Partido Democrata esta noite, porque ele venceu em estados, e certamente vamos ter tempo para falar mais sobre isto, mas venceu em estados onde há muitos anos candidatos democratas não venciam, a começar pelo Texas, desde a década de 90 do século passado, que o Partido Republicano tinha vencido todas as eleições realizadas a nível estadual, seja para cargos de governador, para senador, para outro tipo de cargos estaduais, e o Partido Democrata, neste momento, já garantiu a vitória quer para o cargo do senador, quer para o cargo da governadora nova eleita. E isso diz muito da dimensão da vitória. Um outro pequeno exemplo, o Kansas, que não elegia um senador democrata desde 1932, neste momento já ficou garantida a vitória do senador democrata, do candidato democrata nesse estado. Portanto, dá para perceber, de facto, a verdadeira hecatombe eleitoral que tivemos esta noite.

Nós já vamos falar desse estado a estado e dessas lutas importantes. Já estava aqui a deixar algumas pistas, Nuno Gouveia. Eu gostaria de começar também essa análise aos resultados, à fotografia que fica, neste momento, da Câmara dos Representantes, porque é nesta Câmara Baixa que estão todos os lugares a votos e é aqui que se pode ver um maior referendo à política de Donald Trump, ou seja, perceber efetivamente como é que os norte-americanos estão a reagir à governação de Donald Trump neste mandato enquanto presidente. E aí, os republicanos tinham uma vantagem curta à partida para esta eleição. As projeções davam um sinal de vitória ao Partido Democrata, mas o que estamos a ver já não é só uma vitória, é uma vantagem confortável. A vitória seria acima de 218, ou seja, voltar a conquistar a Câmara dos Representantes. Aqui já estamos bem para lá dos 218, já estamos a caminhar para um número acima dos 255. Esta é a tendência que nos está a indicar o New York Times, sendo que em votos já confirmados, a Câmara dos Representantes, neste momento, já tem 218 lugares para o Partido Democrata e ainda estão votos a ser contados. A tendência aponta para algo a chegar aos 255. Esta fotografia da Câmara dos Representantes mostra que, de facto, o referendo a Donald Trump colocou um não às políticas do trumpismo neste mandato?

Sem dúvida. E é preciso dizer que devido a alterações que fizeram em alguns estados, precisamente por causa dos círculos eleitorais, havia estimativas que se os resultados fossem os mesmos para a Câmara dos Representantes do que em 2024, os republicanos teriam mais 10 lugares em função destas alterações dos círculos que foram efetuadas em alguns estados. E isso acrescenta ainda mais importância à dimensão desta vitória do Partido Democrata na Câmara dos Representantes, que como disse e muito bem, é a votação em toda a América. E acrescido a esse facto, o próprio Donald Trump pediu aos americanos, e não foi uma vez, foram várias vezes, para votarem nestas eleições como se ele estivesse no boletim de voto. Ora, muito bem, os americanos parece que assim o fizeram e é uma clara rejeição de tudo, ou pelo menos da esmagadora maioria das políticas da administração Trump nestes primeiros dois anos, o que não deixará, obviamente, ter implicações para o resto do mandato de Donald Trump, mas acima de tudo, é a confirmação daquilo que as sondagens também já vinham a indicar, da grande impopularidade, não só das políticas seguidas por Donald Trump, mas pelo próprio presidente. E esta vitória de uma dimensão épica por parte do Partido Democrata quer dizer que essas políticas foram rejeitadas nas urnas pelos americanos E isso, obviamente, não deixará de ter implicações, em primeiro lugar, na governação do próprio Donald Trump e na margem de manobra que ele vai ter a partir de janeiro, mas também, eu diria, da própria forma como os americanos olham para Donald Trump e dos próprios republicanos, porque os republicanos, obviamente, depois de uma derrota dessas dimensões e sempre que aconteceram derrotas desta dimensão para ambos os partidos, os próprios partidos tiveram que tirar consequências e tiveram que mudar a sua atuação. Sempre aconteceu isso e estou certo que irá voltar a acontecer isso.

Quando olhamos aqui para os estados principais, já estava a falar do Texas, acha que é aí que há o principal sinal preocupante para o Partido Republicano e para a liderança de Donald Trump?

Nós, de facto, temos muitos sinais preocupantes para o Partido Republicano e para este partido republicano de Donald Trump, que desde que ele assumiu o poder interno, digamos assim, em 2016, que o Partido Republicano tem mudado muito. E nós sempre que fomos seguindo a evolução da política americana e do próprio Partido Republicano, fomos sentindo que este dia iria chegar, porque, de facto, foram muitos os republicanos ao longo dos anos que foram alertando para que o caminho que Donald Trump estava a seguir iria ter consequências para o futuro do partido. E neste momento, na verdade, o que aconteceu no Texas, o Texas é um estado republicano e tem sido um estado republicano seguro nas últimas décadas, é o segundo maior estado da União e que representa muitos votos, por exemplo, votos eleitorais nas eleições para a presidência. É preciso também contextualizar estas eleições e, de facto, a grande impopularidade do presidente Trump teve as suas consequências. Várias escolhas que Donald Trump teve, particularmente aqui no Texas, onde havia um senador republicano, digamos, um republicano mainstream, John Cornyn, que possivelmente teria vencido esta eleição facilmente, e Donald Trump decidiu apoiar um candidato mais radical, um candidato que tinha estado envolvido em muitos escândalos, porque foi procurador do Estado do Texas e tinha estado envolvido em muitos escândalos, que era muito impopular entre o eleitorado do Texas, mas que Donald Trump apoiou nas primárias e que venceu essas primárias. E poderemos também atribuir aqui um pouco desta derrota no Texas ao próprio candidato, que depois acabou por arrastar também aquilo que se chama todo o ticket republicano, ou seja, os candidatos para as eleições estaduais ou para o próprio governador, que também acabou por perder as eleições. Agora, obviamente, se o Texas deixar de ser um red state e passar a ser um swing state, e isso depois das eleições desta noite é uma forte possibilidade, apesar que o Texas continuará a ter uma maioria eleitoral tendencialmente de centro-direita, no fundo, mais próxima do Partido Republicano, mas isso não deixará de lançar alertas para o futuro. E se nós acrescentarmos ao que aconteceu no Texas, o que aconteceu em outros estados-

Como por exemplo?

No Kansas. O Iowa, por exemplo, é um estado que foi um swing state há poucas décadas, mas que nos últimos anos tinha votado confortavelmente em candidatos do Partido Republicano, e nós tivemos duas vitórias também do Partido Democrata, quer para o lugar de governador, quer para o lugar de senador. Temos outros estados que, por exemplo, nos estados do Sul, que têm sido estados seguros de maioria republicana. Nós tivemos no estado da Geórgia, que nas últimas eleições já tem sido aquilo que nós chamamos um swing state, mas que o Partido Democrata teve vitórias muito confortáveis, quer para o Senado, e eu falo em particular no Senado, porque o candidato do Senado, Jon Ossoff, é um potencial candidato presidencial já em 2028.

Foi um dos grandes vencedores esta noite também.

E ganhou de forma muito confortável, e é um candidato moderado e centrista, é um nome a ter em conta no futuro. Mas uma vitória também esmagadora na Carolina do Norte por parte do candidato democrata, que era antigo governador. Temos eleições no Deep South, no Mississippi, na Louisiana, onde é expectável que o candidato do Partido Republicano vença, mas os candidatos democratas tiveram ganhos consideráveis. E nós olhamos para o que aconteceu em toda a América hoje e, de facto, há muito poucas boas notícias para o Partido Republicano. Talvez olhando para a Flórida, um estado que nós sabemos que foi durante muitos anos um swing state e que nos últimos anos também se aproximou muito do Partido Republicano. E aí os republicanos, quer para o Senado, quer para o cargo do governador, conseguiram vencer. No fundo, aguentaram este ciclo eleitoral infernal, mas há muito mesmo poucas boas notícias para o Partido Republicano.

Há aqui a informação já do Maine também, de Susan Collins já ter perdido o lugar para Troy Jackson. Susan Collins é republicana, está há 30 anos no Senado norte-americano. Avançava para mais uma reeleição, procurava mais uma reeleição, perdeu para Troy Jackson e já terá falado mesmo com o candidato democrata. E esta informação surge na CNN ainda antes da confirmação dos resultados no Maine. É mais um caso destes em que, de facto, há alguém com histórico ligado ao Senado norte-americano e ao Partido Republicano, naturalmente, a perder a eleição para os democratas.

E Susan Collins era uma resistente, o estado é um estado democrata, tem votado confortavelmente do Partido Democrata nas últimas décadas, mas esta senadora tinha resistido a ciclos eleitorais difíceis. Era uma das últimas, talvez, senadoras mais centristas do Partido Republicano e que não aguenta esta onda azul. Aliás, parece-me que pelas previsões, o Partido Democrata poderá ter 55 senadores, ou seja, um ganho de oito senadores em relação ao panorama atual.

Não só um ganho de oito face ao panorama atual, como até uma vantagem maior do que o Partido Republicano tinha até o dia de hoje, ou vai ter até janeiro. Portanto, tem 53 e vai passar a ter, muito provavelmente, casa dos 45, 46 para o Partido Republicano.

E é muito interessante perceber que este era um ano, como só um terço do Senado vai a eleições, este era um daqueles anos, até pelos estados que iam a votos, que favorecia o Partido Republicano. E já antes destas eleições, uma pessoa analisando os estados que vão a eleições em 2028 e em 2030, a maioria dos analistas considera que a próxima oportunidade que o Partido Republicano terá para recuperar a maioria no Senado será precisamente daqui a seis anos, em 2032, quando estados mais próximos do Partido Republicano vão a eleições. Isso não deixará de ter implicações, em primeiro lugar, para os dois anos da administração Trump, mas também durante os próximos quatro anos do próximo presidente, pois a maioria no Senado é muito importante, no fundo, para confirmar nomeações, por exemplo, para os cargos de governo. Um aspecto fundamental nos Estados Unidos para confirmar os juízes nomeados para os diferentes circuitos, mas sobretudo para o Supremo Tribunal, e essa é uma disputa sempre muito grande entre ambos os partidos, e com uma maioria deste gênero no Senado, mesmo um presidente republicano, Donald Trump, neste momento, não terá condições nenhumas, em caso de algum juiz do Supremo se retirar, para nomear novos juízes, porque certamente o Partido Democrata irá bloquear essas nomeações até o fim do seu mandato. Isto também porque o Partido Republicano fez o mesmo ao Partido Democrata anteriormente e, portanto, não irá deixar de fazer isso. Mas, por outro lado, depois uma série de poderes que o Senado tem e que limitará muito a ação do Donald Trump nos próximos dois anos. E caso um republicano seja eleito depois de 2028, também terá essas dificuldades.

Donald Trump pediu aos eleitores para imaginarem que era o nome dele que estava no boletim de voto. Estas eleições mostram que, perante esse cenário, escolheram não votar em Donald Trump. Não podemos confiar que todos os eleitores tenham imaginado o nome de Donald Trump no boletim, mas perante esse pedido, o certo é que foram os democratas a vencer. Estas eleições eram projetadas como um referendo à presidência de Donald Trump. Significa que é correto fazer nesta altura uma leitura de que os norte-americanos já não querem Donald Trump?

Sim, aliás, essa é a análise que está a ser feita por todos aqueles que estão a falar sobre estas eleições e de facto é a conclusão óbvia depois destes resultados e depois do que foi a campanha eleitoral. É preciso dizer também que alguns dos resultados foram responsabilidade de Donald Trump, por terem sido escolhas pessoais, mas também tudo o que Donald Trump tem feito nos últimos meses contribuiu para que o povo americano o rejeitasse. Desculpa. Temos muitos exemplos recentes. Muitos exemplos de Donald Trump, de facto, objetivamente, prejudicou os interesses republicanos. Eu vou dar alguns exemplos. A guerra tarifária com o Canadá prejudicou imensamente vários candidatos republicanos em estados que têm relações próximas com o Canadá. O Michigan, o próprio Maine, onde Susan Collins perdeu.

Michigan, que também tem esse candidato democrata que está à frente e com quem Donald Trump teve um confronto praticamente direto, nesse candidato do Michigan, do Partido Democrata, Abdul El-Sayed, que se pode tornar o primeiro muçulmano a chegar ao Senado norte-americano. Mas lá está, poderá ficar aí confirmada mais uma derrota para Donald Trump.

Sem dúvida. Aliás, ele vai colecionar várias derrotas e ele é responsável, por exemplo, na Carolina do Sul, outro estado, que morreu o seu Lindsey Graham, morreu no verão e ele optou por escolher, e foi ele que escolheu, e o partido seguiu a sua opção, a sua irmã, que se revelou uma péssima candidata e que perdeu a eleição esta noite para o Senado, um lugar que facilmente um outro candidato, mesmo num ambiente como o desta noite, teria vencido, e foi uma escolha pessoal de Donald Trump. Portanto, de facto, estas eleições, que foram uma derrota para Donald Trump, não deixarão de ter implicações no próprio partido. Por exemplo, hoje ao analisar, e isto vale o que vale e não vale muito, mas as hipóteses de J.D. Vance vencer as eleições primárias de 2028 baixaram significativamente pela sua proximidade a Donald Trump.

Mas Marco Rubio também não fica mal na fotografia por ser alguém que apoia mais diretamente a intervenção no Irão e isso estar a ter um impacto direto na carteira e depois, consequentemente, no voto?

Eu acho que todos os candidatos e todos os políticos que estão mais próximos de Donald Trump poderão sofrer com isso. Também é importante perceber, e nós desde 2016 temos percebido, que Donald Trump é a grande figura dentro da base republicana. Obviamente, a sua imagem irá ficar diminuída não só aos olhos dos americanos comuns, mas também nesta base eleitoral. Nós sabemos que quando há derrotas desta dimensão, e parece-me inevitável que o Partido Republicano passe também por um momento de discussão interna e que haja muitos republicanos que se insurjam contra esta liderança de Donald Trump. Também não sei se isso será suficiente para um candidato não MAGA vencer as eleições primárias de 2028, porque as grandes figuras-

Que nome pode surgir do Partido Republicano para além de figuras mais óbvias, como estávamos aqui a referir, J.D. Vance e Marco Rubio? Vê outra possibilidade?

Haverá Ron DeSantis, que ainda é governador da Flórida, que foi candidato em 2024 contra Donald Trump, mas rapidamente se percebeu que não tinha hipótese. Há Nikki Haley, que é uma figura que foi candidata também em 2024. Mas olhando para o panorama atual do Partido Republicano, e se Donald Trump fizer campanha por um destes candidatos internamente, repito, eu acho que a sua força na política americana residirá a partir de hoje, sobretudo na base MAGA, que vai continuar a acompanhá-lo. Nós sabemos que isso irá acontecer. Podemos especular e se calhar precisamos de mais algumas semanas, mais alguns meses, para perceber se Donald Trump continuará a ditar as ordens, porque o que tem passado nestes últimos anos é que Donald Trump escolhe um candidato e esse candidato vence internamente dentro do partido e eu ainda tenho alguma resistência a acreditar que de repente esta força que ele tem dentro da base republicana vai desaparecer.

Mas não há um fim de ciclo, ou um início de fim de ciclo nesta eleição? Porque Donald Trump, de facto, está na política norte-americana há 12 anos, desde 2014, quando entrou para as primárias, para depois essa eleição em 2016.

Estas eram as últimas eleições dele enquanto força dominante.

Exato.

Em 2028, independentemente de ele ser decisivo ou não para escolher o próximo candidato, ele já não será a força decisiva. E o que aconteceu no passado, e por exemplo, temos um paralelismo do que aconteceu em 2006, quando George W. Bush também perdeu umas eleições intercalares e que a partir dessa data, basicamente ele passou a ser uma figura não grata dentro do partido. Recordo-me que na convenção de 2008, George W. Bush nem sequer esteve presente, apenas fez um vídeo à distância, porque de facto a sua presença já não era querida, em primeiro lugar, entre a base do seu partido, mas depois na América. Neste momento, parece-me que Donald Trump não tem margem e não terá margem para recuperar a sua imagem perante a América. A questão é perceber se esta força que ele conseguiu dentro do partido, que muitas vezes se confunde facilmente com culto religioso, porque Donald Trump cometeu diversos erros, disse várias coisas que teriam condenado ao ostracismo outro político, e ele sempre sobreviveu a isso. Agora, é preciso perceber, Donald Trump deixará a Casa Branca no início de 2029, não voltará à política ativa e, portanto, perceber se finalmente algumas pessoas do Partido Republicano que não gostam dele, e nós também sabemos que muitos destes republicanos, sobretudo figuras do Congresso e do Senado, mas também governadores, pessoas que têm responsabilidades e que em privado criticam muito o presidente e alguns deles até dizem coisas que nós não dizemos em público, mas que obviamente em público sempre tiveram medo e receio de afrontar Donald Trump, se a partir destas eleições e destes resultados catastróficos, ganham no fundo alguma coragem para afrontar o presidente.

Nesse aspecto, Donald Trump e o Partido Republicano têm vindo a confundir ao longo dos últimos anos. Estamos praticamente a falar a mesma coisa. Acha que isso vai deixar de ser assim a partir desta quarta-feira? Ou seja, vamos começar a ver uma cisão e se lhe parece que vai acontecer já ou vamos ter que esperar mais tempo para perceber mais indicadores, para ficarmos com a noção de que o trumpismo está a desaparecer, se há uma nova ala no Partido Republicano, se estes resultados já apontam para esse caminho.

Em condições normais, o que iria acontecer é, ainda durante esta noite, iria iniciar-se uma verdadeira guerra civil dentro do Partido Republicano. Estes resultados, e há a perspectiva clara que são da responsabilidade do presidente, ele fez tudo para que isto acontecesse. E por outro lado, também já não há a ameaça de que Donald Trump irá continuar presidente depois daqui a dois anos e, portanto, poderá haver, e haverá certamente alguns republicanos, até para conquistar um espaço no pós-trumpismo e até para tentarem liderar esse espaço e que é normal que se revoltem contra a atual situação do partido. Agora, o que nós temos visto, de facto, nos últimos anos é muita cobardia política por parte dos republicanos. Como disse e muito bem, Trump confunde-se com o Partido Republicano. Há muita gente que cresceu dentro do partido à sombra de Donald Trump e essa força irá continuar. Eu estou convencido de que o Partido Republicano de antes de Donald Trump não irá regressar, portanto, o Partido Republicano mudou muito, as suas posições mudaram muito, e essa evolução até ideológica do partido irá continuar a ter força. Repare-se que Eu há bocado falei em Ron DeSantis, mas Ron DeSantis foi uma figura que cresceu no trumpismo, que não pertence àquele Partido Republicano pré-Trump e, portanto, mesmo se ele for uma das figuras do futuro, será uma figura muito diferente daquilo que foi o Partido Republicano de antes. J.D. Vance, obviamente, que se calhar é a pessoa mais prejudicada, pelo menos em termos teóricos, por esse resultado, também é uma figura muito diferente daquele Partido Republicano de antes. Marco Rubio, que é se calhar aquela figura mais próxima do mainstream republicano pré-Trump.

Tem essa ligação.

Tem uma ligação muito forte, é o secretário de Estado, tem validado todas as teses do Donald Trump e não lhe será fácil, mesmo eventualmente que ele fizesse o mesmo que fez a Hillary Clinton, e que se demita de secretário de Estado, mas no fundo desligar-se de tudo o que foi o trumpismo.

Nuno, vamos falar agora do Partido Democrata, que sai com uma nova energia desta noite eleitoral, com vitórias importantes, com conquistas em estados onde não vencia há muito tempo. E de fato, isso dá vários sinais, não só dessa rejeição das políticas do Donald Trump, como de eleitores que de repente podem estar mais inclinados a votar no Partido Democrata. Isto pode mostrar não só que o centro sempre existiu nos Estados Unidos da América, como de repente esse centro pode estar agora apto novamente a votar no Partido Democrata. Mas o Partido Democrata não tem propriamente uma liderança concreta nesta altura. Vê alguma figura a surgir para essa liderança e a apresentar-se para essa corrida eleitoral de 2028?

Eu acho que o fato de o Partido Democrata não ter neste momento uma liderança pode ser uma vantagem precisamente para o ciclo de 2028, porque de fato teremos umas primárias completamente em aberto. Ao contrário das últimas eleições, dos últimos anos, onde havia sempre uma ou duas figuras que eram considerados os favoritos.

Mesmo que Kamala entre nessa corrida?

Eu penso que com o atual cenário, Kamala Harris não terá grandes hipóteses de vencer uma primária bastante disputada. Obviamente, ela tem notoriedade, já foi candidata presidencial uma vez e a avançar, o que não é certo, será sempre uma candidata a levar em conta. Agora, o que nós temos é, de fato, uma série de candidatos e de figuras dentro do partido, e como disse muito bem, do centro político, que poderão emergir como sérios candidatos em 2028. Nós sabemos também que o Partido Democrata tem uma base mais à esquerda muito forte. Alguns dos seus candidatos esta noite terão vencido, como o candidato do Michigan, que será o primeiro senador muçulmano e que é uma figura desta ala mais à esquerda.

Ainda não está encerrado, mas tudo aponta para uma vitória.

Sim, aparentemente irá vencer. O que nós vimos nesta noite foi candidatos centristas vencerem em larga escala. O candidato de Georgia, Jon Ossoff, que venceu num estado difícil para o Partido Democrata e venceu com uma grande margem, e que é uma figura centrista e tem sido apontado por muitos como potencial candidato. Outra figura, o governador da Pensilvânia, a Pensilvânia é um swing state, mas que o Josh Shapiro foi reeleito esta noite por uma larga margem, e que é uma daquelas figuras que muitos apontam como um candidato no papel perfeito, e só não é perfeito, porque também neste momento dentro do Partido Democrata, ele é judeu e há também uma grande animosidade contra Israel e contra todos aqueles que têm alguma ligação a Israel e, portanto, isso dificultará a sua candidatura. Mas há uma série de figuras mais centristas que não deixarão de avançar e terão grandes possibilidades, em primeiro lugar, de vencer as primárias e depois de disputar a presidência. E certamente também haverá figuras da ala mais à esquerda, que esta noite também terão obtido mais vitórias que a que eu já referi, se o caso do candidato do Michigan vencer, e que também será reforçada. Nós depois teremos que analisar muito bem os resultados, sobretudo na Câmara dos Representantes, pois são muitas eleições, mas certamente terão sido eleitos mais candidatos desta ala mais à esquerda do partido e que irá engrossar também o seu peso dentro do Partido Democrata, até aquele grupo que se chamam os Democratas Socialists of America, ala mais à esquerda, representada se calhar pela grande figura de Alexandria Ocasio-Cortez, que ela própria estará a pensar em candidatar-se à Presidência dos Estados Unidos em 2028. Essa ala mais à esquerda também não deixará de ter um candidato, como teve nas últimas eleições, Bernie Sanders. Obviamente que se o Partido Democrata nas primárias optar por candidato mais à esquerda, isso poderá dificultar a sua eleição em 2028. Teremos certamente uma disputa interna entre estas duas alas, isso irá existir. Mas eu voltando ao meu argumento inicial, o facto de não haver um candidato óbvio, em primeiro lugar, dará a oportunidade a alguns destes nomes e outros que certamente também avançarão para se destacarem do resto.

Mesmo para terminar, Nuno Gouveia, e já olhando para os dois partidos agora como um todo, há cenários mais extremados ou mais ao centro nos dois partidos. E portanto, vamos ter essa luta eleitoral nos dois partidos. Acha que neste momento, nos Estados Unidos da América, depois de anos a falarmos de política polarizada, o terreno está mais favorável para candidatos ao centro ou para candidatos mais ao extremo?

O que nós vimos hoje nestas eleições é que, de fato, os candidatos centristas tiveram melhores resultados do que os candidatos mais radicais. Mas os tempos de hoje, de fato, têm favorecido candidatos mais radicais, então em eleições nacionais muito polarizadas, isso pode suceder. Em eleições internas, onde o eleitorado no fundo escolhe o seu candidato, muitas vezes a radicalização também vence. Eu, portanto, não estaria assim tão confortável em dizer que irá vencer o candidato mais radical ou mais centrista. Agora, parece-me claro que os grandes vencedores das eleições de hoje foram os candidatos centristas do Partido Democrata.

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