Como a imprensa russa vê a eleição brasileira - e o que isso revela sobre a forma com que o governo Putin enxerga o Brasil

- Author, Daniel Gallas
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
Published
Tempo de leitura: 12 min
É assim que o Brasil vem sendo retratado em coberturas na imprensa russa — nas vésperas da eleição que será realizada em primeiro turno no próximo domingo (4/10).
Para o analista de Mídia da Rússia da BBC Monitoring, o jornalista Vitaly Shevchenko, a eleição brasileira vem ganhando pouco destaque na imprensa russa. Segundo ele, até o momento, o pleito não foi notícia em nenhum grande telejornal do país. A grande maioria dos russos se informa pela televisão.
A BBC Monitoring é uma divisão especializada da BBC que monitora, traduz e analisa mais de 3 mil veículos em mais de 150 países e 100 línguas. Shevchenko monitora a mídia russa e produz relatórios de análise.
Na avaliação de Shevchenko, o fato de a imprensa russa ser amplamente controlada pelo Kremlin e de haver pouca cobertura sobre a eleição brasileira indica que o governo russo não está interessado em se manifestar sobre o pleito.
"Eu imagino que existam departamentos nas entranhas do Ministério das Relações Exteriores, da inteligência externa ou algo do gênero, preparando relatórios sobre qual candidato traria mais benefícios à Rússia", disse Shevchenko à BBC News Brasil.
"A ausência de ampla repercussão na mídia sobre as eleições brasileiras sinaliza apenas uma coisa: o Kremlin não tem interesse em que o público, dentro e fora da Rússia, tome conhecimento da sua visão sobre o pleito."
"Mas isso não significa que eles não tenham opiniões."
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A cobertura da imprensa russa está voltada na sua maioria para o conflito na Ucrânia — e o fato de o Brasil ter pouco envolvimento com a guerra contribui para o pouco espaço dado ao pleito brasileiro na imprensa russa.
Mas o analista da BBC Monitoring afirma que, apesar disso, o Brasil ocupa uma posição dentro da política internacional de Vladimir Putin.
"O Brasil é importante por causa do Brics. E, há anos — talvez décadas —, Putin vem tentando promover a ideia de que a antiga ordem mundial, dominada pelo que a máquina de mídia do Kremlin gosta de chamar de 'anglo-saxões', chegou ao fim", diz Shevchenko.
"O que a está substituindo é o que eles gostam de chamar de Sul Global — alianças como o Brics, do qual o Brasil é membro."
Famil Ismailov, editor da BBC News Russia (o serviço de notícias em russo da BBC), diz que analistas russo vêem a corrida eleitoral brasileira como muito apertada e não indicam um favorito — mas que qualquer que seja o vencedor, provavelmente não haverá grandes mudanças nas relações entre Brasil e Rússia.
"O Brasil precisa dos fertilizantes e do diesel russos, e a Rússia precisa da carne, da soja e do café brasileiros. Não houve nenhum apoio visível a nenhum dos dois candidatos por parte das autoridades russas. Seja quem for o próximo presidente, o Kremlin parece estar satisfeito", diz Ismailov.

Crédito, Getty Images
Ainda assim, diferentes jornais — todos ligados de alguma forma ao Kremlin, já que a Rússia é um dos países com menor liberdade de imprensa do mundo (veja mais abaixo) — vêm noticiando alguns aspectos da eleição brasileira recentemente.
O jornal financeiro Vedomosti cita analistas que dizem que a Rússia "se sentirá confortável" interagindo tanto com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como Flávio Bolsonaro (PL) — os dois candidatos que lideram as intenções de voto, como mostra o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.
O jornal sugere, no entanto, que a Rússia estaria "um pouco mais confortável" com Lula, dado que Flávio Bolsonaro possui maior ligação com Washington e pode vir a afastar o Brasil dos Brics.
O jornal oficial do Kremlin, o Rossiyskaya Gazeta, afirma que as eleições estão bastante indefinidas e provavelmente serão decididas no segundo turno. Uma reportagem afirma que tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro foram afetados pelo escândalo do Banco Master — e que ambos representam propostas muito distintas para o futuro da economia brasileira.
Já o jornal Izvestia, ligado a aliados do presidente Vladimir Putin, afirma que uma vitória de Lula poderia facilitar um projeto de aumentar as transações comerciais entre Brasil e Rússia nas moedas nacionais (real e rublo) — algo que potencialmente ajudaria Moscou a contornar sanções ocidentais.
Confira abaixo como a imprensa russa está cobrindo o pleito.
Ajuda do Brasil para contornar sanções
Uma longa reportagem no sábado (26/09) do jornal Izvestia — que é controlado por aliados do presidente Vladimir Putin — destaca a importância da eleição brasileira para os interesses econômicos russos, em um momento em que o país sofre sanções pesadas do Ocidente por causa da invasão da Ucrânia.
O Izvestia noticiou que o Brasil e Rússia querem expandir o seu comércio em suas moedas (real e rublo), hoje limitado a apenas 10% das transações. Segundo o Izvestia, quem manifestou interesse nessa expansão foi o embaixador brasileiro na Rússia, Sergio Rodrigues dos Santos.
"A ideia de expandir o comércio em moedas nacionais parece uma continuação lógica da atual política econômica da Rússia e do Brasil: ambos os lados querem tornar os pagamentos mais baratos, mais estáveis e menos dependentes da infraestrutura cambial externa", afirma a reportagem do Izvestia.
O objetivo seria favorecer as trocas de produtos agrícolas entre os dois países. A Rússia é o maior fornecedor de fertilizantes minerais ao Brasil.
Segundo a reportagem, a Rússia tem interesse de aumentar transações em rublos e reais para contornar sanções internacionais que o país sofre por causa da guerra na Ucrânia. E esse modelo já estaria em funcionamento entre a Rússia e outros países dos Brics, como China e Índia.
"A transição para moedas nacionais ajuda a Rússia a proteger seu comércio das sanções ocidentais: esses pagamentos são diretos e não podem ser bloqueados por bancos americanos ou europeus", diz a reportagem.
"O abandono do dólar e do euro permite que as transações contornem o sistema SWIFT e os bancos correspondentes americanos, eliminando o risco de congelamento de fundos. Esse modelo já está funcionando com grande sucesso com outros parceiros dos Brics: as liquidações com a China foram quase totalmente (99%) convertidas para rublos e yuans, enquanto a participação do dólar e do euro no comércio com a Índia diminuiu drasticamente."
O obstáculo para transações nas moedas nacionais é que os exportadores russos receberiam pagamentos em reais — e não teriam onde gastar a moeda brasileira.
"Esse problema pode ser resolvido utilizando os planos que a Rússia já elaborou com a Índia. A Rússia poderia investir seu excedente de reais diretamente no Brasil — por exemplo, em logística portuária local ou na agricultura. Outra opção é expandir as compras: o país é conhecido não apenas pela soja, mas também por sua avançada indústria de engenharia mecânica, incluindo a produção de aeronaves Embraer e autopeças", afirma o jornal russo.
"Por fim, a moeda brasileira acumulada poderia ser usada para pagar países terceiros (por exemplo, China ou Emirados Árabes Unidos), que têm grandes projetos na América Latina e necessitam de reais."

Crédito, Reprodução
O futuro desse projeto de uso de reais e rublos em transações depende também das eleições brasileiras, segundo o jornal russo.
"O atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, defende o fortalecimento dos BRICS, a cooperação com os países do Sul Global e a transição para moedas nacionais. Seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro, por outro lado, está focado na reaproximação com os Estados Unidos", afirma a reportagem.
O jornal destaca uma declaração dada por Flávio Bolsonaro em junho de que, se for eleito, vai reavaliar "no seu primeiro dia na cadeira de presidente" se o Brasil deve ficar nos BRICS — "um bloco que é muito ideológico, usado para provocar os EUA". No entanto, o programa de governo do candidato do PL não faz menção ao bloco.
"Uma possível mudança de poder em Brasília poderia congelar completamente as negociações sobre a transição para o rublo e o real", afirma o Izvestia.
"Mesmo que o Brasil reduza seu interesse no BRICS após as eleições, a tendência de desdolarização do bloco global continuará. Rússia, China e Índia, que respondem pela maior parte do comércio intrabloco, permanecem os principais motores econômicos desse processo."
Vorcaro: 'trunfo e problema' para Lula e Flávio Bolsonaro
O jornal Rossiyskaya Gazeta — jornal oficial do Kremlin — destacou que as eleições estão bastante acirradas no Brasil e que ainda não se sabe "para onde afinal penderá o pêndulo do humor do eleitorado brasileiro".
"Os dados mais recentes das pesquisas de opinião mostram uma situação praticamente de empate técnico entre os candidatos", diz o jornal russo.
A reportagem destaca que até recentemente Lula vinha liderando as pesquisas de opinião, sobretudo após a divulgação do escândalo Dark Horse em maio, que afetou a intenção de voto em Flávio Bolsonaro.
"Parecia que tudo corria da melhor forma possível para Lula", diz o Rossiyskaya Gazeta. Mas então, segundo o jornal, os desdobramentos do escândalo do Banco Master passaram a afetar também o presidente — primeiro com a citação do líder do governo no Senado, Jacques Wagner, e depois com as menções ao ministro do STF Alexandre de Moraes no caso.
O jornal compara o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, a Ostap Bender, um trapaceiro fictício de livros da era soviética, famoso por golpes elaborados e por seu carisma.
"No fim, ele [Vorcaro] acabou se tornando simultaneamente um trunfo e um problema tanto para Lula quanto para Bolsonaro. De qualquer modo, até o momento, Flávio alcançou o adversário e, segundo algumas pesquisas, até o ultrapassou em um provável segundo turno, cuja realização parece cada vez mais provável."

Crédito, Reprodução/PF
O Rossiyskaya Gazeta afirma que Lula e Flávio Bolsonaro propõem modelos econômicos bastante distintos à população.
Sobre Lula, o jornal diz que ele "aposta na manutenção do atual arcabouço fiscal combinada com o aumento dos investimentos públicos, projetos de infraestrutura, política industrial, programas sociais e novos aumentos do salário mínimo".
"Para conquistar votos adicionais, em setembro ele adotou uma medida social de grande impacto: anunciou a elevação do valor mínimo do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691 por mês, um aumento de aproximadamente 15%. Além disso, o presidente apoia o fim da jornada de seis dias de trabalho com apenas um dia de descanso, defendendo uma semana de trabalho mais curta."
Sobre Flávio Bolsonaro, o Rossiyskaya Gazeta diz que ele "propõe reduzir os gastos com a máquina pública, criar um novo teto de gastos mais restritivo e retomar a privatização de empresas estatais".
"O candidato defende a diminuição da carga tributária, especialmente sobre o setor de energia, e promete endurecer significativamente o combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas", diz o texto.
Uma longa reportagem do jornal Vedomosti publicada em julho afirma que "a eleição presidencial brasileira está se tornando um ponto de convergência para os interesses de outros países" e que a Rússia "está um pouco mais confortável com o atual presidente do país".
O Vedomosti foi fundado nos anos 1990 por grupos de mídia ocidentais — incluindo participação do grupo Dow Jones, que publica o americano Wall Street Journal — e já foi uma das publicações independentes mais influentes sobre economia russa, mas em 2020 acabou vendido a aliados de Vladimir Putin.
A reportagem ouve analistas de consultorias políticas. Um dos analistas afirma que "qualquer um dos dois candidatos que se torne presidente, a Rússia se sentirá confortável interagindo com ele". Já outro aponta que, caso Bolsonaro vença, "devemos esperar um endurecimento da retórica em relação à Rússia e à China".
"Ao que tudo indica, embora Flávio Bolsonaro mantenha relações econômicas com Moscou e Pequim, retórica e ideologicamente ele se inclinará cada vez mais para Washington do que seu pai", afirma a reportagem do Vedomosti.
"Nesse contexto, Flávio Bolsonaro poderá aumentar a pressão sobre os instrumentos tradicionais de soft power da China, como os Institutos Confúcio no Brasil. Além disso, Flávio Bolsonaro será menos ativo na cooperação com o Brics — uma continuação lógica da abordagem de seu pai."

Crédito, Reprodução Instagram/Eduardo Bolsonaro
Brasil frustra nova Doutrina Monroe, diz jornal comunista
Um dos jornais que dedicou espaço maior à eleição brasileira foi o Pravda, lendária publicação que já foi a mais importante do país na era da União Soviética. O jornal ainda existe e é ligado ao Partido Comunista da Rússia — no entanto, é pouco lido e sem influência no país, segundo analistas de mídia.
O Pravda afirma que "o Brasil está frustrando os objetivos dos EUA de implementar integralmente a nova versão da Doutrina Monroe".
"As eleições de outubro estão sendo usadas para restaurar a complacência política. Ameaças, chantagens e manipulação estão sendo empregadas", diz o jornal.
"Muita coisa foi feita desde o retorno dos republicanos [à Casa Branca]. Fantoches da Casa Branca chegaram ao poder no Chile, na Colômbia, no Peru e em Honduras. Trump, cinicamente (e, infelizmente, não sem razão), chama a Venezuela de 'o 51º estado dos EUA'. Cuba definha sob o peso de um bloqueio, sem apoio externo efetivo."
"No entanto, os planos mais ousados de Washington não se realizarão enquanto o Brasil permanecer fora de sua influência. O país, que representa um terço da população da América Latina e 43% do território da região, segue uma política independente. Isso basta para colocá-lo na lista de inimigos dos EUA."
O Pravda diz que o governo de Lula "não precisa recorrer a discursos de ódio e mentiras" e que "em menos de quatro anos, mais de 28 milhões de pessoas saíram da pobreza".
Já sobre o candidato do PL, a publicação comunista diz que "todas as forças da reação, tanto interna quanto internacional, estão sendo mobilizadas na luta pela vitória de Flávio Bolsonaro" e que "a direita tem pouco a mostrar em termos de resultados".
"Sua plataforma se baseia em clichês sobre o combate ao crime", afirma o Pravda.
Rússia e liberdade de imprensa
A Rússia é o 9º pior colocado em um ranking de 180 países sobre liberdade de imprensa no mundo, publicado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
O país está a frente de países como Afeganistão, Arábia Saudita, Irã, China e Coreia do Norte — mas atrás de Cuba, Venezuela e Iraque. Nesse ranking, que é liderado pela Noruega, o Brasil ocupa a 52ª posição e os EUA, a 64ª.
A RSF destaca que a liberdade de imprensa se deteriorou na Rússia depois da invasão da Ucrânia em 2022 — com quase a totalidade dos órgãos independentes hoje banidos, bloqueados ou declarados "agentes estrangeiros" (o que impõe restrições burocráticas a empresas) ou "organizações indesejadas" (o que criminaliza os veículos).
Todos os canais de TV independentes de propriedade privada são banidos, com exceção dos canais de entretenimento a cabo.
Muitos veículos de mídia ocidentais — como BBC, Euronews e France 24 e BBC — não estão mais acessíveis no país.
O órgão regulador de mídia russa, Roskomnadzor, censurou a maioria dos sites de notícias independentes: os mais populares, como Meduza e TV Rain, foram declarados "organizações indesejáveis". Segundo a RSF, quem cita esses veículos pode ser processado no país.
"Os demais veículos de mídia pertencem ao Estado ou a aliados do Kremlin. Seus funcionários devem seguir ordens do gabinete presidencial sobre assuntos a serem evitados e praticar uma rigorosa autocensura. As estações de rádio estão na mesma situação", afirma relatório da RSF.
Jornalistas têm sido cada vez mais indiciados por "extremismo" ou por "compactuar com o terrorismo", segundo a organização. A RSF diz que o governo russo usa penas severas, multas, detenções de curta duração e até mesmo tortura para intimidar jornalistas.
A organização afirma que nem mesmo jornalistas russos no exílio estão seguros.
"Diante de riscos adicionais surgidos desde o início da guerra na Ucrânia, muitos jornalistas que trabalham para veículos de mídia independentes optaram pelo exílio. As autoridades mantêm a pressão ao 'visitar' familiares ou ao condená-los à revelia", afirma a RSF.
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