Debate não aconteceu e os protagonistas foram os tribunais

Numa noite atribulada, tribunais brasileiros impuseram mudanças no debate, Flávio Bolsonaro retirou-se e Globo cancelou. Lula da Silva aproveitou para fazer campanha em podcast.
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Faltavam poucos minutos para as 20h (hora local, 00h em Lisboa), quando um alerta soou em Brasília. Um homem atirara uma mochila de uma paragem de autocarro perto da sede do Supremo Tribunal Federal (STF) e suspeitava-se que pudesse ser uma bomba. As autoridades foram ativadas e o trânsito nas imediações da Praça dos Três Poderes cortado. Investigações preliminares feitas, horas depois concluiu-se que a mochila continha apenas uma escova e uma pasta de dentes e outros itens pessoais.
A suspeita de uma bomba na capital brasileira nesta quinta-feira à noite foi ofuscada, contudo, pelos acontecimentos no Rio de Janeiro, mais precisamente nos estúdios da Globo. Era aí que devia ter decorrido o último debate televisivo antes da primeira volta das eleições presidenciais brasileiras. Faltava pouco mais de uma hora para o início e os candidatos já estavam no local, quando a emissora anunciou que decidira cancelar o debate. Em causa estava uma “interferência indevida na liberdade de imprensa”, segundo a estação televisiva, patente numa decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de obrigar a Globo a incluir o candidato Renan Santos no debate e outra de incluir o candidato Romeu Zema, elevando assim o número de convidados dos quatro inicialmente previstos para seis.
[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]
Ainda antes do anúncio, a noite já ia atribulada. Horas antes do debate, uma outra decisão judicial, desta vez do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de proibir a Globo de mostrar imagens do púlpito vazio de Lula, levara Flávio Bolsonaro a anunciar que não iria marcar presença no debate. O encontro perdia assim os dois candidatos que, segundo as sondagens, irão disputar a segunda volta. Isto porque a ausência de Lula da Silva já tinha sido confirmada na quarta-feira — o incumbente preferiu utilizar a noite desta quinta-feira para uma longa entrevista no Flow Podcast.
O “avacalhanço das eleições” e o “preconceito contra o Lulinha”. Como Bolsonaro e Lula reagiram às decisões dos tribunais
Sensivelmente à mesma hora em que o juiz Gilmar Mendes ordenava a participação de Renan Santos no debate, Flávio Bolsonaro anunciava nas redes sociais que não iria estar presente. “Flávio tem medo de mim”, concluiu imediatamente Renan Santos, que recorreu às redes sociais para deixar uma série de publicações incendiárias. A acusação não é vazia — afinal, os dois disputam o mesmo eleitorado, mais à direita, e Bolsonaro seria um alvo preferencial de Santos se o debate tivesse acontecido.
“Acabo de tomar a decisão de não ir ao debate da Globo em função da censura imposta ao evento pelo TSE. A imprensa tem de ser livre e as eleições limpas”, escreveu Flávio Bolsonaro nas redes sociais, duas horas antes do debate, justificando assim a sua ausência. “Censura do mais alto grau e sem vergonha”, enfatizou horas mais tarde.
▲ O púlpito onde os candidatos deveriam falar aos jornalistas após do debate, vazio
Bloomberg via Getty Images
Quando a decisão da Globo chegou, o candidato não se mostrou surpreendido, insistindo que não tinham sido reunidas condições para prosseguir com o debate. Bolsonaro foi rápido a encontrar um culpado nos juízes do STF e do TSE: “A toga está sendo usada por alguém que parece carrasco”, declarou mais tarde, em direto nas suas redes sociais. E, das críticas aos juízes, rapidamente chegou às críticas ao seu principal adversário: “Os ministros do STF, para variar amigos do Lula, estão a tomar decisões a favor do Lula. Os caras estão avacalhando as eleições”, acusou.
Mas o filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro tinha outras justificações. Em causa estava também a decisão do TSE conhecida esta quinta-feira em que a juíza Estela Aranha proibiu a Globo de transmitir imagens do púlpito vazio de Lula e os restantes candidatos de lhes dirigir questões, explicou. “O Lula não só não vai ao debate como usa os seus amigos no judiciário para impor a censura. É muito triste e revoltante”, declarou Flávio Bolsonaro, à hora planeada para o início do debate.
Já Lula não se pronunciou sobre as decisões dos juízes, mas, no Flow Podcast, mostrou o seu desagrado com a escolha inicial da Globo de colocar um púlpito vazio no seu lugar — como já havia feito na eleição de 2006 —, falando num duplo critério. “Colocou uma cadeira vazia, o que não fez ao Fernando Henrique Cardoso”, afirmou, referindo-se ao antigo Presidente, que faltou a vários debates televisivos nas campanhas de 1994 e 1998. “Colocou ao Lulinha, porque o preconceito é muito grande.”
Lula, porém, justificou a ausência pelo formato dos debates de primeira volta. “Eu acho que esses debates estão infrutíferos, não produzem nada e não dão sequência. E aí o pessoal fica fazendo gracinha. ‘Qual é a piada? Qual é a pegadinha?’ Quando você está num debate para a Presidência da República é uma coisa mais séria”, disse, assumindo que considera haver candidatos de “série A” e “série B”.
As decisões de última hora da Justiça que levaram a Globo a cancelar o debate
A ação da Justiça brasileira acabou por marcar a noite dos dois candidatos, que, longe dos estúdios da Globo, encontraram outras formas de transmitir a sua mensagem aos eleitores. Mas afinal, que decisões da Justiça foram estas?
A lei eleitoral brasileira prevê que os candidatos de partidos com pelo menos cinco deputados no Congresso Nacional devem ser obrigatoriamente convidados para os debates eleitorais. Em linha com esta regra, a Globo convidou para o debate desta quinta-feira quatro candidatos: Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), Augusto Curry, do Avante (centro) e Ronaldo Caiado, do PSD (centro).
▲ O candidato Romeu Zema foi incluído à última hora no debate por ordem do tribunal
Bloomberg via Getty Images
A ausência de Lula era antecipada há dias pela imprensa brasileira, que avançava que o Presidente queria evitar, enquanto único candidato da esquerda, ser alvo dos ataques concentrados dos restantes candidatos. Ao longo da semana, a proporção de forças contra o petista acentuou-se: primeiro com a decisão de terça-feira do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, de que Romeu Zema, do Novo (de direita), também tinha de participar no debate e depois com a decisão desta quinta-feira da juíza Estela Aranha, do TSE, de proibir a Globo de colocar em estúdio o púlpito vazio de Lula. A primeira decisão “alterou o entendimento do próprio TSE na contagem de parlamentares”, pode ler-se no comunicado da Globo em que anunciou o cancelamento.
O mesmo pedido para participar tinha sido feito por Renan Santos, do Missão (direita radical), mas foi rejeitado. Um outro partido, o Solidariedade, pediu ao Supremo Tribunal Federal para reapreciar o caso de Santos, defendendo o “pluralismo político e o direito do eleitor à informação”. A decisão do STF foi anunciada a duas horas de o debate começar, já Renan Santos se encaminhava para os estúdios da Globo para assistir ao debate: Santos devia participar. O juiz Gilmar Mendes deu razão ao argumento do partido relativamente ao pluralismo e ordenou que Santos fosse incluído no alinhamento. O Missão, como nota a Globo, tem apenas um deputado no Congresso.
▲ O juiz do Supremo Tribunal Gilmar Mendes considerou que outro candidato também devia ser incluído no debate
AFP via Getty Images
De forma quase unânime, a entrada em cena de última hora do STF foi criticada pelos analistas brasileiros. “Essa é uma decisão que mostra uma briga política. E isso está errado. O juiz não tem que julgar politicamente, o juiz tem que julgar de acordo com a lei e o Gilmar Mendes não julgou de acordo com a lei”, argumentou Alberto Rollo à BBC Brasil. “O Renan Santos não teria o direito de participar e o Gilmar está obrigando, está impondo”, elaborou o especialista em direito eleitoral.
O podcaster Lula que tentou navegar a polémica do Banco Master e a “live improvisada” de Bolsonaro para falar dos “amigos” do Presidente
Quando o streaming do Flow Podcast se ligou, por volta das 20h45 (00h45 em Lisboa), Lula da Silva apareceu no ecrã visivelmente satisfeito. Com o debate cancelado, o Presidente manteve o seu plano inicial e recebeu o streamer Igor 3K, do Flow Podcast — que em tempos afastou um dos seus fundadores por defender a criação de um partido nazi no Brasil —, numa sala do Palácio Planalto, deixando clara a escolha de passar ali a noite: “Gosto mais de você do que da Globo”, disse-lhe logo no início da conversa.
O atual Presidente confessou sentir mais gozo nos debates de segunda volta, “porque é um tête-à-tête”. E, no entanto, desvalorizou por completo o adversário Flávio Bolsonaro, com quem deverá protagonizar esse encontro televisivo na segunda volta, caso se confirmem as previsões das sondagens. Lula acusou Bolsonaro de não se comparar a figuras como Fernando Henrique Cardoso, por ser “uma pessoa desqualificada”. “Não tem passado, não tem presente, não tem futuro. Esse rapaz nunca trabalhou na vida”, atirou.
Lula fala sobre não participar do debate presidencial da Globo:
“Debates saudáveis são feitos com gente qualificada. Uma coisa é disputar com Fernando Henrique Cardoso, Alckmin… Outra coisa é disputar a Presidência da República com uma pessoa desqualificada, como Flávio… pic.twitter.com/y0Z0d6jr4h
— poponze (@poponze) October 2, 2026
As mais de duas horas de conversa com Igor Coelho, que foram seguidas por mais de um milhão e meio de pessoas, foram marcadas por três temas: o primeiro (e mais desconfortável para o Presidente), foi a polémica em torno do caso do Banco Master e a judicialização da política brasileira; os outros, bem mais benéficos para Lula, foram as críticas a Donald Trump e a sua caracterização como o candidato que defende os mais pobres no Brasil.
Quanto ao caso que rachou o Supremo Tribunal Federal (STF) ao meio e que caiu como uma bomba na campanha, Lula destacou as ligações de Flávio Bolsonaro ao antigo presidente do Banco Master (“tem essa relação amorosa com Vorcaro”) e defendeu-se das acusações de que beneficia do apoio político do juiz Flávio Dino, que pediu escusa do caso à última hora, impedindo a investigação do juiz Alexandre de Moraes.
Pouco mencionando o nome de Moraes e alertando que o caso se alastra a mais pessoas (“Tem gente que viajou no avião, recebeu não sei quanto de dinheiro, recebeu um resort. Então porque vamos julgar só um? Vamos julgar todo mundo”), o atual Presidente assegurou que não haverá “proteção do Presidente da República ao ministro [juiz] da Suprema Corte” e que é necessário investigar “doa a quem doer”. E disse lamentar a imagem que se está a colar ao Tribunal: “O que está acontecendo está levando a Suprema Corte a perder credibilidade na sociedade”.
▲ Lula da Silva no Flow Podcast
YouTube/ Flow Podcast
Já em território mais confortável, Lula da Silva aproveitou várias vezes para transmitir a ideia de que faz frente ao Presidente norte-americano — “O Trump tem de saber que ele toma conta dos EUA. Quem toma conta do Brasil sou eu” — e assumiu-se como o candidato que protege os mais pobres contra uma elite associada ao bolsonarismo. “Eu já acabei com a fome duas vezes nesse país”, decretou. A narrativa foi rematada com um grande monólogo já perto do final, onde Lula sublinhou saber o que é viver “num barraco” e “passar fome” e que já teve de levantar o soalho com a casa alagada, “vendo rato nadando, barata, merda boiando”.
Apesar de assumir a certa altura que o seu Governo “não é de esquerda” — dando a entender que podia sê-lo ainda mais — Lula da Silva não hesitou em caracterizar os adversários do bolsonarismo como “esses fascistas” e assumiu-se como o único político no cenário brasileiro capaz de os travar. “Enquanto eu estiver vivo, vou trabalhar para que o fascismo não volte para esse país”, prometeu. E arriscou um prognóstico que, tendo em conta o que dizem as sondagens, pode soar a excesso de confiança: “Eu sinceramente acho que vou ganhar as eleições no primeiro turno. Acho que vão ser decididas domingo.”
Do outro lado, ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro ensaiava o contra-ataque. Em vez de falar nos estúdios da Globo, o senador falou aos eleitores a partir de um direto nas redes sociais, onde incluiu um púlpito vazio com o nome de Lula, como provocação.
▲ Live de Flávio Bolsonaro
YouTube/ TV Celular Flavio Bolsonaro
“É uma live improvisada”, foi repetindo o candidato do PL ao longo das horas seguintes, em tom de desculpa, à medida que os problemas técnicos se foram somando: a participação do deputado Nikolas Ferreira por videochamada caiu a meio, outros dois candidatos convidados entraram na transmissão sem som e obrigaram a encontrar um par de headphones para que Bolsonaro os conseguisse ouvir.
É com você que eu quero debater, Lula.
Estamos ao vivo: https://t.co/QqDN2QVZgA pic.twitter.com/jlN3iUBNDo
— Flávio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) October 2, 2026
Nikolas Ferreira foi um dos participantes mais contundentes ao longo da transmissão e tentou enquadrar tudo o que aconteceu ao longo da noite como algo positivo para o seu candidato: “Acabaram de eleger Flávio. Se não é censura, eles não ganham. Se não é no tapetão [ganhar na secretaria], eles não ganham. Se o Flávio já ia ganhar, agora vai ganhar a rodo”, afirmou.
Acompanhado dos vários candidatos do PL a senadores e governadores, Flávio Bolsonaro foi repetindo as promessas de vitória à primeira volta, as lamentações sobre a “censura judiciária” e os apelos ao “voto da revolta” — e aos comentários e partilhas do mais de meio milhão de pessoas que assistiam à transmissão. À sua frente, durante as várias horas da live, permaneceu um grande dossier que, disse, continha os temas “importantes para o Brasil” e que pretendia levar a debate — ao longo da transmissão, contudo, o dossier permaneceu fechado.
O centro das intervenções acabou por ser a independência do poder político e da imprensa face à Justiça. Entre as críticas à “cobardia” de Lula, que acusou de fugir ao debate, e à “censura” da Justiça, houve ainda espaço para falar do pai Jair Bolsonaro, “o maior líder político que o Brasil tem hoje”. “Em algum momento, ele vai assistir a esta live e eu tenho a certeza que ele vai estar muito orgulhoso”, declarou, num piscar de olho pouco subtil à herança política que carrega.
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