Fim da escala 6x1 deve encurtar horário de funcionamento das lojas, diz CEO do Assaí
RESUMO +
A rede de atacarejo Assaí e outras varejistas discutem fechar lojas às 20h ou às 21h a partir de 2027 para enfrentar o fim da escala 6x1. A nova jornada garante dois dias de descanso semanal e reduz o limite de 44 para 42 horas em 16 de dezembro. O setor também avalia medidas para elevar a produtividade.
Supermercados fechando as portas às 20h ou às 21h, como na Europa, podem se tornar mais comuns no Brasil a partir de 2027. A redução do horário de funcionamento é a primeira das medidas que o Assaí e outras redes discutem para enfrentar o fim da escala 6x1.
"É muito provável que depois da virada do ano a gente vai ver o encurtamento nos horários de abertura, a exemplo de países que trabalham na jornada 5x2", afirmou Belmiro Gomes, CEO do Assaí, em entrevista coletiva sobre o balanço do terceiro trimestre.
A Emenda Constitucional 141, promulgada em 16 de outubro, garante dois dias de descanso por semana e reduz a jornada de 44 para 42 horas a partir de 16 de dezembro. O limite de 40 horas semanais entra em vigor 12 meses depois.
Mas a principal queixa do varejo é o calendário. A nova jornada começa a valer justamente no período de maior movimento do comércio, e algumas associações do setor recorreram à Justiça para adiar a data.
"Do mesmo jeito que talvez nos beneficiou a parada abrupta da bet, o tempo de transição do 6x1 é algo que vai penalizar o comércio. Por quê? Porque vai começar exatamente na semana antecedente ao Natal", disse Gomes.
Segundo o executivo, a mudança no horário das lojas está sendo negociada entre as associações do varejo para valer depois da virada do ano. Ele também prevê que o comércio perca trabalhadores para setores que operam em turnos, como a indústria e a distribuição.
A segunda frente é setorial e envolve a indústria. Em evento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) com mais de 800 fornecedores, o Assaí defendeu o uso de embalagens que funcionam como expositores.
Nesse modelo, comum nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, o repositor só abre a caixa e a coloca na prateleira. No Brasil, segundo Gomes, a reposição ainda é feita produto a produto.
A terceira frente parece um detalhe, que é o tamanho e a qualidade do código de barras. Em produtos com códigos pequenos ou mal impressos, a leitura no caixa e no self-checkout demora mais.
"Quando você soma alguns milissegundos ou centésimos de segundo em bilhões de itens registrados, então há uma frente grande do ponto de vista de produtividade", afirmou o CEO.
O self-checkout já faz parte da estratégia de eficiência do Assaí. Segundo o balanço, a expansão dos caixas de autoatendimento ajudou a conter a despesa por cliente atendido, que subiu 2,7% no trimestre, abaixo da inflação de 4,4%.
No fim, a nova jornada deve forçar o setor a discutir produtividade, um tema que, na visão do CEO, ficou em segundo plano porque o varejo alimentar nunca operou com falta de mão de obra.
As soluções, segundo Gomes, já existem em países com jornadas menores. "Não está nem inventando a roda, é pegar a roda que já existe na Europa, na Ásia, nos Estados Unidos e trazer pro Brasil", disse.
A companhia afirma que já tinha preparado uma lista de medidas para reduzir o impacto da mudança e segue estudando outras frentes, que não detalhou.
Para Gomes, o fim da escala 6x1 afeta todo o varejo, mas pesa menos no atacarejo, formato de menor custo e com menos serviços. Pelas estimativas do setor citadas por ele, a despesa com pessoal gira em torno de 5% das vendas no atacarejo, contra 10% a 12% nos supermercados.
"Muito provável que, mesmo com o aumento de quadro que seja necessário ser feito, o impacto em margem, sinceramente, a gente deve conseguir anular", disse.
O executivo compara a mudança com outros choques recentes de custo. "A gente já teve impactos de ordem tributária, de aumento de alíquota de ICMS, que eram muito maiores do ponto de vista de custo do que vai ser o fim da escala 6x1", afirmou.
O balanço do Assaí no terceiro trimestre
O Assaí tem cerca de 90 mil funcionários. No terceiro trimestre, as despesas com vendas, gerais e administrativas somaram R$ 2,2 bilhões, o equivalente a 11,6% da receita líquida.
Segundo a empresa, o aumento vem da necessidade de reforçar o atendimento, o abastecimento e a reposição nas lojas. O fluxo de clientes cresceu 2,1%, mas as vendas não acompanharam, porque o consumidor tem trocado marcas e produtos por opções mais baratas. A rede tem cerca de 90 mil funcionários.
Nas mesmas lojas, as vendas avançaram 0,1%, abaixo da inflação de alimentos do período, de 4,2%. A receita bruta somou R$ 21,3 bilhões, crescimento de 2,7%.
O lucro líquido contábil foi de R$ 427 milhões, alta de 119%, impulsionado por créditos tributários de PIS/Cofins. Sem esse efeito, o lucro recorrente somou R$ 248 milhões, alta de 55,2%. Os números estão na visão pré-IFRS16, que exclui os efeitos contábeis dos aluguéis das lojas.
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado, sem os créditos, ficou estável em R$ 1,1 bilhão, com margem de 5,7%. A alavancagem caiu para 2,15 vezes, ante 3,03 vezes um ano antes.
Depois do fechamento do trimestre, a rede registrou uma virada nas vendas. Em outubro, as vendas nas mesmas lojas cresceram 3,9%, movimento que a empresa associa à proibição das apostas online no país.
'Perguntas frequentes'
Por que supermercados podem fechar mais cedo a partir de 2027? +
A redução do horário de funcionamento é uma das medidas discutidas pelo Assaí e por outras redes para enfrentar o fim da escala 6x1. Segundo Belmiro Gomes, CEO do Assaí, as associações do varejo negociam a adoção de horários semelhantes aos de países com jornada 5x2.
Quando começa a redução da jornada de trabalho? +
A jornada máxima cai de 44 para 42 horas semanais em 16 de dezembro, com dois dias de descanso por semana. O limite de 40 horas entra em vigor 12 meses depois.
Quais medidas o Assaí estuda para aumentar a produtividade? +
O Assaí avalia reduzir o horário das lojas, adotar embalagens que também funcionem como expositores e melhorar o tamanho e a qualidade dos códigos de barras. A rede de atacarejo também amplia o uso de caixas de autoatendimento.
Como o self-checkout ajudou a reduzir despesas do Assaí? +
Segundo o balanço do Assaí, a expansão dos caixas de autoatendimento ajudou a conter a despesa por cliente atendido. O indicador subiu 2,7% no terceiro trimestre, abaixo da inflação de 4,4%.
Por que o fim da escala 6x1 pesa menos no atacarejo? +
Segundo estimativas do setor citadas por Belmiro Gomes, a despesa com pessoal equivale a cerca de 5% das vendas no atacarejo, ante 10% a 12% nos supermercados. O CEO do Assaí afirma que a empresa deve conseguir anular o impacto sobre a margem mesmo com eventual aumento do quadro de funcionários.
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