Viriato: o herói lusitano: história e mito – parte 2

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Seja bem-vindo à História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secadura e Jorge Adolfo Marques, em Viseu, é que nos vai continuar a falar. Estamos a percorrer a saga do Viriato, que já sabemos que não é um mito, existiu mesmo em carne e osso. Até que ponto esta vida e esta ligação dele a Viseu é mais ou menos estratificada, provada e documentada? É isso que vamos continuar a saber. Jorge, bem-vindo. Vamos então ao episódio de hoje sobre Viriato. Vamos a isso.
Olá, João Paulo. Espero que hoje continuemos sem muitos atropelos, porque ontem tive aqui um pequeno momento de tosse, mas foram os pós do Viriato.
Exato.
E eu vou retomar precisamente onde ficamos ontem. No frei Bernardo Brito, que na sua "Monarquia Lusitana" associou os portugueses de então aos lusitanos, fazendo um paralelismo. Por quê? Porque os lusitanos estavam dominados ou em luta com os romanos. E o que temos na vida, no tempo do frei Bernardo? Temos os castelhanos a dominar em Portugal. E, portanto, há este paralelismo. O Brás Garcia de Marchesfaranhas, que escreveu a tal obra "Viriato Trágico", a determinada altura, diz assim: "Escreverei suas façanhas o mais larga e verdadeiramente que puder, pera que vendo os portugueses que hoje vivem em tão claro espelho a diferença, que há de suas obras às dos antigos". Quer dizer, ele faz aqui esta ligação aos antigos. Ora, Viriato vai ocupar um papel importante na chamada literatura de resistência. De resistência, como eu disse, aos castelhanos. E, portanto, há aqui este consolidar dessa ideia, dessa ligação a Viseu. E a verdade é que temos, por exemplo, dois autores aqui da cidade, o doutor Manuel Botelho Ribeiro Pereira, que aliás, já fizemos referência à propósito de seus diálogos morais e políticos de 1632, também se inspirou na "Monarquia Lusitana" do frei Bernardo Brito. E frei Bernardo Brito que vai colocar o Viriato a lutar contra os romanos que estavam ali na cava. Portanto, a cava era um quartel romano atacado pelos lusitanos. Repare-se, há aqui uma inversão. A cava de Viriato, nesta altura, não era de Viriato, era cava, mas dos romanos.
Dos romanos, que Viriato atacou. Pronto, já percebi.
Exatamente. E então, também um outro autor, João de Pavia, numa obra também em verso, a "Descrição da Cidade de Viseu", ele também faz uma descrição da cava. Diz ele: "Lá bem no erguido cume d'alta serra, que nome teve Hermínio antigamente, onde do português famoso a guerra foi sustentada contra a Ausónia gente". Ausónia são os romanos. Portanto, Hermínios, Montes Hermínios. Depois há muitos autores, ao longo do século XVI e do século XVII, que vão falando sobre a cava. E então, eu faço aqui um pequeno parêntesis para trazer aqui à discussão: então a cava é de quem? Quem é que fez a cava? Talvez seja um aspecto interessante nós aqui fazermos referência.
Que é tão famosa.
Desde o frei Bernardo Brito, que a cava era considerada romana. E que o Viriato tinha atacado a cava. Houve muitos historiadores, ao longo do século XIX e do século XX, até há bem pouco tempo, que classificaram a cava como um quartel, uma fortificação romana. Olha, há um livrinho do professor Jorge Alarcão, que é a "Cidade Romana de Viseu", foi publicado até pela Câmara Municipal de Viseu, que faz um resumo de todas essas teorias sobre a cava de Viriato. Mais recentemente, surgiu a ideia de que a cava teria sido construída pelos muçulmanos, portanto, por Almançor. Quando ele por aqui passou, no ano de 997. Repare-se, não é romana, não tem nada a ver, muito menos com o Viriato. Se calhar foi o Almançor, quando foi pra Santiago de Compostela. Bom, mas a verdade é que não se comprovou nada. E depois o próprio professor Jorge Alarcão, mais recentemente, avança a hipótese de que é uma construção asturiano-leonesa, portanto, do tempo da Reconquista. E nós já aqui falámos no tempo da Reconquista esta semana, e que teria sido construída durante esse período, e que eventualmente teria sido Ordonho II, filho de Afonso III das Astúrias, quem teria mandado construir a cava ali no século X. Na verdade, outras possibilidades foram sendo tidas em consideração, e em particular uma bem mais recente, que coloca a cava como uma construção que terá sido mandada fazer, aquele espaço, provavelmente ou pelo rei Ramiro, que esteve aqui em Viseu, que vai ser o Ramiro II, de Leão, depois do ano de 931, ou até no período anterior, o tal Ordono II. O que é certo é que, mesmo para outros autores também, para além do professor Alarcão, Manuel Real e Catarina Tente, também defendem que terá sido o Ramiro II a construir aquele grande espaço, aquele grande octógono, para ser uma cidade áulica. Isto é interessante por quê? Porque a cava sempre foi um grande enigma na história, na arqueologia, em todos aqueles que pensaram a história romana e do período romano. E Viseu sempre foi uma cidade muito ligada a Viriato, por esta história do frei Bernardo de Brito e depois do Brás Garcia de Mascarenhas. O que importa dizer é que ao longo dos séculos, particularmente no século XIX, houve muitos autores que foram consolidando essa ideia do Viriato, o primeiro herói nacional.
Exato.
E essa construção, desde Almeida Garrett, depois Alexandre Herculano, até o próprio Camilo Castelo Branco, quer dizer, uma série de autores, e outros sem a dimensão destes que eu citei agora, mas de tal maneira que Viseu assume como a terra, a pátria de Viriato. Consolida-se. De tal maneira que há um jornal que é fundado em Viseu, cujo título é "O Viriato" no século XIX. É um jornal regenerador, do Partido Regenerador, e que é um jornal muito importante na cidade. Mas o Viriato vai estar presente, à semelhança de muitos outros guerreiros desses povos pré-romanos, desses povos que foram dominados pelos romanos, desde o Vercingetórix na Gália.
Exatamente. Esse nome soa muito à Asterix, às histórias.
O Vercingetórix, exato. Até Armínio, que era também um guerreiro da Europa Central, Decébalo, também da Europa Central e região balcânica. Todos eles têm esta característica: são heróis, que depois vão ser derrotados pelos romanos, mas são heróis nacionais e que vão entrar na mitologia dos países, muito resultado dos escritores românticos. Primeiro, dos escritores que recuperam a antiguidade clássica no século XVI, século XVII. Depois, os românticos. E que foi o que aconteceu conosco também. Viseu, então, é a cidade de Viriato. Temos o Teatro Viriato. Temos vários poetas de dimensão não tão grande quanto Camões e outros, que vão escrever sobre Viriato e que o ligam muito à cidade de Viseu. Na Câmara Municipal de Viseu, Viriato é a primeira personalidade dos ilustres beirões e que se encontra pintado no teto.
Falamos outro dia do teto.
E que já fizemos referência a ele.
Exatamente.
E depois há um aspecto muito importante em toda esta história desta construção de quem é Viriato e da ligação dele a Viseu e à Serra da Estrela, que é o grande historiador Adolphe Schulten, que vai publicar uma obra que é intitulada "Viriato" e que vai ser publicada em Espanha em 1920, e depois vai ser traduzida e publicada em Portugal em 27. E que vai ser uma obra de referência para várias gerações de autores, que colocam o Viriato no chefe dos lusitanos, nos Montes Irmínios. Essa ligação de proximidade com os Montes Irmínios, Serra da Estrela, vai ficar muito enraizada, sobretudo no período nacionalista, durante o Estado Novo, em que é inaugurada uma estátua, precisamente em 1940, o ano da comemoração dos centenários. 1140, 1640, 1940.
40, com a inscrição do Monte Pilas, por exemplo.
No Terreiro da Feira, onde é a Feira de São Mateus, a Feira Franca, ao lado da cava, vai ser inaugurada uma estátua comemorativa e evocativa de Viriato com os seus guerreiros. E é nesse local, é nessa praça, é nesse terreiro, que todos os anos, a mocidade portuguesa e a legião portuguesa fazem alguns desfiles em frente àquele que era um símbolo de nacionalismo. Temos que ter em conta para quem interpretava assim. Um símbolo de nacionalismo, um símbolo de herói, defensor da nação. O Viriato, da nação, mas temos que ter em conta que era a nação lusitana.
Exato.
Que não era propriamente a portuguesa. Na Guerra Civil de Espanha, os voluntários portugueses que vão participar nas tropas, combater ao lado dos falangistas, são os Viriatos. Portanto, há toda uma construção ao longo dos tempos que consolida essa ligação a Viseu e consolida a ligação de Viriato a esse herói primordial da nação portuguesa e que continua muito próxima desta ideia inicial, que é o herói, o guerreiro, o pastor, o homem que queria a liberdade, que não queria ser subjugado, dominado, mas que acabou traído pelos seus companheiros.
É verdade. Vamos saber mais sobre isso amanhã, neste último capítulo, nesta última saga, imagino, nesta última parte da saga. Jorge, então marcamos encontro amanhã. Por hoje é tudo.
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