Porto. Convite a Pedro Duarte marca nono dia de protestos

Ao nono dia dos protestos, a PSP deixou cerca da 01h30 no Porto o mesmo aviso que um outro agente tinha feito em Lisboa, uma hora antes: os manifestantes estavam a incorrer no crime de desobediência, e além da hora limite, as tendas tinham que sair.
Após uma votação, os manifestantes decidiram que, mais uma noite, se manteriam no local. “Este movimento irá continuar”, prometeu a porta-voz Catarina Borges. Foi o remate de um domingo marcado pelas críticas, mas também pela decisão de convidar Pedro Duarte, presidente da Câmara Municipal do Porto, para ir até à Praça D. João I onde se ergue a Acampada.
O dia de domingo começou com uma assembleia de manifestantes sentados no chão, muito agasalhados e cobertos com mantas e sacos-cama. Ao contrário da última noite, as tendas já não estavam alinhadas de trás até meio da praça, tendo sido deslocadas para as margens. Perante o rumor de que estaria a caminho da praça uma equipa de limpeza da Câmara Municipal do Porto, o assunto gerou discussão na assembleia popular. Enquanto alguns consideravam que o acampamento, durante toda a noite e com dezenas de tendas, já tinha sido uma conquista suficiente, pelo que se justificaria tirar as tendas, permitir a limpeza e, depois, voltar a colocá-las; outros viam nessa ação uma perda de posição, considerando que poderiam ser os próprios manifestantes a fazer essa limpeza.
Levada a votos, a decisão foi não tirar as tendas, comprometendo-se os votantes a fazer um cordão humano para impedir a eventual passagem dos serviços de limpeza da câmara. Por isso, voltaram a colocar as tendas na disposição original. Contudo, os serviços de limpeza não apareceram.
Mas pouco tempo depois, a praça encheu-se de grupos organizados de manifestantes que iniciaram a limpeza, completa, do espaço. Além de jovens a usar vassouras, via-se uma equipa grande de pessoas com sacos a recolher beatas do chão e alguns passavam esfregonas pelo chão da praça.
Com um lenço keffiyeh na cabeça, luvas brancas de borracha e uma esfregona na mão, Diana esfregava vigorosamente o chão. “Há aqui manchas que não fomos nós”, desabafa. A jovem de 22 anos é uma das três pessoas que esta manhã se colocaram ao serviço do movimento Acampada. Antes, ajudou nos pequenos-almoços, agora ajuda na limpeza. “Nós também temos a responsabilidade de cuidar da praça onde estamos a acampar há alguns dias”, ressalva ao Observador.
Um desfile ao som do Brasil depois do almoço na cantina popular
Com o final da manhã, a Praça D. João I foi ficando mais vazia e foi servido o almoço na cantina popular que tem estado instalada todos os dias. Pouco depois das 15h, passou na praça portuense uma grande multidão que participava numa marcha de apoio a Lula da Silva, Presidente do Brasil e candidato à reeleição.
A uma semana da segunda volta das presidenciais brasileiras, um grupo de apoiantes do Partido dos Trabalhadores (PT) organizou uma marcha que começou junto ao Mercado do Bolhão a menos de 200 metros do local onde está o acampamento de protesto. O trajeto até à Reitoria da Universidade do Porto passou pela Praça D. João I, num momento de grande comunhão. A passagem desta marcha foi um dos raros momentos em que a polícia passou pela praça este domingo.
Em uníssono, os manifestantes e os participantes da marcha entoaram vários cânticos — “olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”; “somos todos antifascistas” ou “o povo unido jamais será vencido”. Os dois movimentos trocaram aplausos entre eles, até que a multidão de t-shirts vermelhas, bandeiras do Brasil, camisolas da ‘canarinha’ e autocolantes com a cara de Lula desapareceu de vista, rumo à Avenida dos Aliados.
As críticas e o convite a Pedro Duarte
Já o presidente da Câmara Municipal do Porto continuou a ser um dos maiores alvos dos manifestantes. A cara de Pedro Duarte podia ser vista, em caricaturas, em diferentes cartazes afixados nas paredes da praça. Um deles imita um anúncio imobiliário, sugerindo que o agente imobiliário (Pedro Duarte) colocou a própria cidade do Porto à venda.
Mas os protestos contra o autarca não se esgotam nas paredes. Entre as centenas de manifestantes que se juntam para ouvir uma atuação de Hip Hop na praça, João Barbosa distribui panfletos. Neles aparecem mensagens sobre o Porto de várias figuras, desde Ramalho Ortigão a Almeida Garrett. A negrito, na parte inferior do papel, surge a mensagem principal: “Pedro Duarte, demita-se.”
O presidente da Câmara disse ter convidado os manifestantes a reunir-se consigo, mas João Silveira afirmou que o autarca não contactou o movimento através dos canais públicos e que, por isso, não encara que tenha sido feito um convite oficial para uma reunião. Contudo, à CNN Portugal, garantiu estarem “abertos a negociações”.
“Temos de facto reivindicações concretas, ainda estamos a trabalhar num caderno reivindicativo concreto para a Câmara do Porto porque, como sabem, o nosso movimento tem palavras de ordem bem definidas mas para o Porto era preciso algo mais concreto. Ainda estamos a preparar isso”, explicou. “Voltamos a apelar a todos para virem aqui hoje, estamos a correr o risco de nova intervenção policial, mas achamos que a polícia não vai cometer esse erro. Não queremos que se transforme como em França, somos de facto pacíficos, estamos calmos e ordeiros tal como já dissemos inúmeras vezes.”
Mais tarde, numa assembleia popular durante a tarde, foi votada a resposta a dar a Pedro Duarte: um convite formal para que compareça na Praça D. João I, acompanhado por um moderador consensual.
Manifestantes dispostos a ficar até ao fim do ano
À tarde, a organização da Acampada do Porto anunciou ter feito um “pré-aviso” à Câmara Municipal do Porto para permanecer na Praça D. João I até 31 de dezembro de 2026. Maria João Calisto, porta-voz do movimento, confirmou o pedido: “Fizemos um pré-aviso para ficarmos aqui de 21 de outubro a 31 de dezembro de 2026. O nosso objetivo não é ficar até 31 de dezembro, é conseguir soluções e um entendimento.”
“É muito duro dormir aqui. As pessoas não decidiram vir para a Praça por não terem nada que fazer”, sustentou. “Fazemos um esforço hercúleo para estarmos aqui.”
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