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Sunday, October 25, 2026

Votos do Nordeste demoram mais para chegar ao TSE? Tudo sobre a apuração

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    • Author, Vinícius de S. Mendes
    • Reporting from, da BBC News Brasil em São Paulo (SP)
  • Published

  • Tempo de leitura: 9 min

Até às 19h30 do domingo de 26 de outubro de 2014, com perto de 90% das urnas apuradas, o então senador Aécio Neves (PSDB) parecia estar muito perto de ser eleito presidente do Brasil.

Ele entrou na apuração daquele segundo turno com 67,7% dos votos e, uma hora depois do início da contagem feita pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por volta das 18h20, somava significativos 6,7 milhões de votos a mais do que Dilma Rousseff (PT).

Segundo o tribunal, a "virada" da contabilização em favor da presidente à época aconteceu exatamente às 19h32, quando ela assumiu a liderança com 50,05% dos votos e deixou o senador para trás, com pouco mais de 49%.

Dilma foi declarada eleita, oficialmente, pouco antes das 21h daquela noite, com 51,64% do eleitorado — Aécio ficou com 48,36%.

Até ali, a diferença de cerca de 3,4 milhões de votos era a mais apertada da história republicana brasileira.

Essa história tem até uma fotografia: a que viralizou nas redes sociais em que Aécio aparece de cara fechada, ao lado de líderes partidários, familiares e apoiadores — como o apresentador Luciano Huck — em frente à televisão que, no instante da imagem, transmitia exatamente a mudança das posições entre eles.

"Aquela apuração foi especialmente desigual em termos das regiões", observa Rodrigo Mahlmeister, cientista político e pesquisador da Universidade Duke, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

No primeiro turno, semanas atrás, o modelo preditivo que ele desenvolveu extrapolando padrões dos resultados das primeiras urnas apuradas adiantou o resultado do pleito presidencial em mais de duas horas.

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Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a explicação principal é a transmissão desordenada dos dados de votação para o TSE.

Historicamente, Estados e municípios do Sul e do Sudeste do país são os primeiros a entregá-los ao tribunal — tanto porque são regiões com menos dificuldades para transportar os resultados até as chamadas juntas apuradoras (desde 2020, os cartórios eleitorais mas próximos às seções), como, quando eles chegam nesses locais, os sistemas já estão interligados à base do órgão, em Brasília (DF).

A explicação técnica do tribunal divide esse processo em três fases: a primeira é a apuração, quando as urnas, já fechadas, emitem o Boletim de Urna (BU), uma espécie de "nota fiscal" dos eleitores que votaram.

A segunda é a transmissão, quando cada Boletim de Urna é arquivado em uma mídia física que é enviada imediatamente ao cartório eleitoral após o fechamento da seção.

Por fim, há a totalização, quando o TSE soma os dados de todos esses boletins e faz a divulgação ao país.

O gargalo, dizem fontes ligadas ao tribunal, está sempre na fase da transmissão.

Aécio Neves aparece ao lado de lideranças do partido, amigos e familiares durante a apuração de 2014

Crédito, Reprodução

Legenda da foto, Em 2014, Aécio Neves (PSDB) vencia a eleição até perto de 90% das urnas apuradas, mas viu a então presidente Dilma Rousseff (PT) superá-lo na reta final da apuração, com os votos do Nordeste, e ser reeleita

Geralmente, as seções do Sul e do Sudeste são as primeiras a chegar às mãos do TSE, justamente porque possuem melhores infraestruturas. Na capital federal, o órgão começa a divulgar os dados, já depois das 17h, a partir deles.

Há, por isso, uma tendência de que candidatos à direita larguem na frente quando os resultados passam a sair.

É que essas duas regiões têm sido, pelo menos desde a redemocratização, redutos de votos das direitas. Em 2014, Aécio venceu no Sul com 58,9% dos votos e, no Sudeste, com 56,1%, por exemplo. No pleito seguinte, Jair Bolsonaro ganhou com expressão em ambas (68,2% e 65,3%), feitos que foram repetidos em 2022.

Assim, "se tem uma certeza, é que Flávio Bolsonaro vai começar na frente no domingo", diz Mahlmeister.

Já no Nordeste e no Norte, muitas seções precisam superar desafios logísticos e digitais até conseguirem transmitir suas informações ao tribunal. Por isso, os votos dessas duas regiões geralmente entram no cômputo quando a apuração já está adiantada, às vezes em pelo menos 30%.

"Tem seções ali que estão a 50 km, 60 km de distância do local onde eles serão transmitidos ao TSE", conta o cientista político Marco Antonio Faganello, pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV-CEPESP). "Alguns trechos têm muito trânsito, outros têm trajetos de barco para superar. Muitos lugares são remotos".

Não só isso. Na hora de fechar a urna, o presidente da mesa da seção eleitoral deve fazer uma cópia dos dados do Boletim de Urna, para evitar que, caso a mídia transmitida ao TSE seja extraviada, os votos sejam perdidos totalmente. É quando ocorrem falhas técnicas que atrasam o envio dos resultados ao tribunal.

Essa desordem se reproduz mesmo na escala das cidades, porque enquanto algumas seções em áreas urbanas conseguem enviar os dados rapidamente — por estarem próximas dos cartórios —, outras precisam lidar tanto com esses dilemas quanto com problemas específicos, como falhas ou eleitores que deixam para votar na última hora e atrasam o fechamento das urnas.

"Seções localizadas em regiões periféricas das cidade têm esse problema, por exemplo", afirma Faganello.

"É por isso que a porcentagem de votos que um candidato abre no início da apuração não significa nada", adverte Mahlmeister.

De fato, na eleição de 2018, a dinâmica foi completamente diferente à anterior: por apenas dez minutos, o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), encabeçou a contagem dos votos daquele segundo turno, chegando a somar 85% contra 14% de Jair Bolsonaro (PSL).

Porém, por volta das 17h10, o então deputado federal já tinha ultrapassado o petista, com 50,8%, e não perdeu mais a dianteira até o fim.

Ele foi eleito com 55,13% do eleitorado contra 44,87% de Haddad.

A cena de 2014 se repetiu, na verdade — de forma mais apertada —, em 2022, quando Bolsonaro entrou naquela apuração com 60% dos votos, enquanto o ex-presidente Lula (PT) somava 43%. A mudança nas posições dos candidatos aconteceu pouco depois das 18h40, com já 67,6% das urnas apuradas.

Naquele instante, o petista passou Bolsonaro com 50,01%. Ele foi declarado eleito, uma hora depois, com 50,9%, (uma diferença de 2,1 milhões de votos, a menor da história).

Tanto em 2014 quanto em 2022, as "viradas" na totalização aconteceram quando votações do Norte e, sobretudo, do Nordeste, entraram no circuito. Dilma Rousseff, por exemplo, venceu naquele pleito em ambas as regiões (56,5% e 71,6%, respectivamente). Lula, no último pleito, fez 69,3% no Nordeste, mas perdeu no Norte.

Se há alguma ordem, na verdade, está nos votos do Distrito Federal, que tendem a chegar primeiro ao TSE. No primeiro turno, curiosamente, Lula despontou à frente logo quando as primeiríssimas urnas foram abertas, mas Flávio o ultrapassou com 0,4% da apuração, e liderou até o fim.

Ambas as curvas, porém — que chegaram a ter uma diferença de 11 pontos percentuais para o senador do PL com 35% da apuração —, foram se aproximando depois de 60% da contagem já feita.

Mas há problemas na divulgação também. No primeiro turno, por exemplo, uma falha técnica fez com que quem estivesse acompanhando o site do TSE pelos recortes de municípios e Estados conseguisse acessar os dados nacionais com mais agilidade do que quem acessava a página com os números para presidente, por exemplo. "Foi uma assincronia do próprio sistema", explica Mahlmeister.

O entrave mais significativo, porém, ocorreu em 2014, quando a totalização dos votos se tornou pública apenas quando 90% das urnas já tinham sido apuradas.

À época, a campanha de Aécio Neves e a liderança do PSBD pediram uma auditoria das urnas ao TSE, alegando que havia desconfiança do partido sobre a lisura do resultado. O pedido se tornou um embate político que, depois, foi usado por Jair Bolsonaro, já no seu mandato, para reforçar dúvidas sobre o funcionamento do sistema.

Oficialmente, o tribunal diz que a mudança das posições dos candidatos nos resultados parciais daquele segundo turno aconteceu "devido aos fusos horários do país".

"As votações das regiões Sul e Sudeste foram totalizadas antes das regiões Nordeste e Norte. Nestas últimas, houve maior votação para a candidata Dilma Rousseff. Com o andamento da totalização, a vantagem inicial do candidato Aécio Neves foi, desse modo, gradativamente diminuindo, conforme os Boletins de Urna (BUs) das regiões Norte e Nordeste do país foram sendo enviados e processados."

"Tivessem os BUs das regiões Norte e Nordeste sido processados antes dos BUs das regiões Sul e Sudeste, não teria havido inversão alguma", diz outro trecho do relatório divulgado à época.

Vale lembrar que, em 2021, Aécio admitiu que não via mais indícios de fraude naquele processo.

Flávio Bolsonaro e Lula durante debate da TV Band, na semana passada

Crédito, AFP

Legenda da foto, Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) disputam voto a voto no segundo turno: enquanto o primeiro tem mais votos no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, o petista disputa o eleitorado do Norte e tem boa parte do Nordeste

Futuro presidente até às 20h

No domingo (25/10), a apuração do TSE começará logo após o fechamento das urnas, às 17h. Os primeiros dados deverão ser divulgados em tempo real pelo órgão já a partir das 17h10 (a BBC News Brasil fará a transmissão ao vivo e terá uma live no YouTube com análises ao longo da contagem).

Segundo os especialistas, o órgão vem aprimorando seus modelos de transmissão das mídias com os votos a cada eleição.

Em 1998, na primeira corrida presidencial com urna eletrônica, a totalização durou cinco dias, e Fernando Henrique Cardoso (PSDB) só foi declarado eleito na sexta-feira após o pleito de domingo, um 4 de outubro.

No segundo turno de 2002, por sua vez, as urnas foram totalmente apuradas 25 horas depois da eleição. Apesar disso, o resultado — a primeira vitória em eleição presidencial de Lula — já era conhecido desde às 20h30 do próprio dia do pleito, por causa das chances nulas de virada de José Serra (PSDB) na quantidade de seções apuradas.

Em 2022, para se ter uma ideia, o próprio TSE declarou a vitória de Lula às 20h09 da noite do domingo de eleição.

Parte disso se explica por uma mudança implementada pelo TSE a partir das eleições municipais de 2020: a transmissão de parte dos dados das seções diretamente ao tribunal, em Brasília. Até 2010, todos os boletins migravam obrigatoriamente às juntas apuradoras, localizadas nos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) locais, que os conectavam ao sistema na capital. A cada pleito, porém, tem subido o número de seções já conectadas ao TSE.

Não há um prazo, mas se espera que, em algum momento, isso funcione para todas as seções. À medida que isso for acontecendo, o resultado sairá cada vez mais cedo.

O modelo tem sido elogiado pelos analistas. "Vamos saber os resultados cada vez mais cedo, sem perder a segurança dos dados", observa Faganello.

A projeção de Mahlmeister, da Universidade Duke, é que, no segundo turno, as curvas entre os dois candidatos na corrida presidencial de 2026 não se cruzem, como no primeiro. O provável, diz, é que Flávio lidere do começo ao fim.

"Porém, em caso de virada, se ela ocorrer depois dos 50% das urnas já contadas, elas não voltarão a se cruzar de novo", continua ele. Ou seja, se os votos de Lula forem suficientes para elegê-lo, isso vai acontecer depois que metade das seções já tiverem sido contabilizadas, e ele não terá mais chance de perder.

Embora os números da apuração já sejam suficientes para apontar o vencedor antes da contagem de 100% das urnas, a eleição só termina, de fato, com a oficialização do TSE por meio do seu presidente — hoje o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF).

De qualquer forma, seguindo eleições passadas — mesmo sem todos os dados consolidados, por causa dos resquícios das seções eleitorais no exterior, que fazem a totalização demorar dias — o Brasil deverá conhecer seu próximo presidente até meados das 20h deste domingo.

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