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Thursday, August 27, 2026

Após cativeiro russo, mãe faz operação para resgatar seu filho no front da Ucrânia

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Mãe de três filhos, ela estava sentada em um centro de reabilitação ucraniano, agarrada ao telefone, torcendo que ele tocasse, tentando juntar os cacos de sua família.

Liliia Prutian, 55, trabalhava como paramédica militar quando as tropas russas invadiram o país, em fevereiro de 2022. Ela foi capturada, sofreu abusos, foi acusada de terrorismo e permaneceu presa por dois anos e meio.

Após ser libertada, passou boa parte do tempo nesse centro de reabilitação, em uma floresta nos arredores de Kiev, comparecendo a entrevistas com autoridades, consultas médicas, sessões de terapia em grupo, aulas de equitação e esqui, massagens, aulas de ioga e uma cirurgia de reconstrução do tímpano direito.

Mas o que Prutian realmente queria era recuperar o filho mais novo, Dima Zahrebaiev, que não via havia três anos. Agora com 20 anos, ele vivia sozinho na casa da família, no vilarejo ocupado pela Rússia desde 2022. Temendo que ele fosse obrigado a servir no Exército russo, ela estava desesperada para resgatá-lo, embora a operação fosse complexa e perigosa.

Por fim, pouco antes das 19h de um domingo, o telefone tocou, e ela atendeu antes que o primeiro toque terminasse. Esforçando-se para manter a voz firme, mediu as palavras com cautela, sem saber quem poderia estar ouvindo.

"Dima, oi, como você está?", perguntou. "Está tudo bem?"

Euro Radar

Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris

A separação dos dois é a história de muitas famílias nos 20% do território ucraniano controlados por Moscou. Milhões de pessoas fugiram dessas áreas ocupadas, mas outros milhões ficaram, por não quererem ou não conseguirem partir.

Enquanto cidades eram reduzidas a escombros, famílias como a de Prutian foram divididas —uma fonte permanente de angústia e uma das razões pelas quais a Ucrânia resiste a ceder território nas eventuais negociações de paz.

O pai dos três filhos de Prutian morreu anos atrás. O mais velho servia no Exército ucraniano. O filho do meio entrou para o Exército russo, deixando Dima, de longe o caçula, entregue à própria sorte.

Ela planejou cuidadosamente a fuga de Dima, pagando cerca de US$ 115 (aproximadamente R$ 600) a um taxista para fazer chegar até ele de forma clandestina um passaporte ucraniano temporário. Também contratou outro motorista, que transportava pessoas dos territórios ocupados pela Rússia até Belarus e, por fim, de volta ao território controlado pelo governo ucraniano.

Em questão de dias, Dima deixaria a única casa que conhecera para encontrar a mãe em Kiev, cidade onde nunca estivera. Arrumou uma grande bolsa esportiva, dobrando dois dos vestidos favoritos da mãe —um rosa e outro azul—, além de algumas camisetas e blusas de frio. Enfiou também sua bola de futebol e seu boné.

Dima escondeu o passaporte temporário dentro da mochila. E esperou.

Prutian criou os filhos na casa de blocos de concreto que seus pais haviam construído em Blizhnie, um vilarejo de cerca de 750 habitantes na região de Donetsk, com silos de grãos, fazendas e construções baixas.

Em 2014, manifestantes derrubaram o presidente pró-Rússia da Ucrânia, Viktor Yanukovich, e Moscou retaliou deflagrando uma guerra no leste do país. O Kremlin apoiou milícias separatistas e enviou suas próprias forças às regiões de Donetsk e Lugansk, na área conhecida como Donbass.

Os empregos ficaram escassos. Prutian, que havia se formado em contabilidade, recebia auxílio do governo e ganhava o equivalente a cerca de US$ 140 (R$ 729) por mês trabalhando em um posto de gasolina.

Então, decidiu entrar para o Exército, onde o salário era de cerca de US$ 365 (R$ 1.901) mensais. Na época, alistar-se nas Forças Armadas ucranianas era uma declaração de patriotismo no Donbass, onde parte da população simpatizava com a Rússia, colocando vizinho contra vizinho, irmão contra irmão. Ainda assim, era muito raro uma mãe tomar essa decisão.

Prutian, porém, era firmemente ucraniana e precisava do dinheiro. Por isso, alistou-se no início de 2017 como contadora militar, ajudando a administrar as finanças de um batalhão. O trabalho exigia que ela deixasse sua casa.

Ela tinha 47 anos. Os dois filhos mais velhos já eram adultos. Dima tinha apenas 12.

Prutian contava com os filhos mais velhos, parentes e amigos para cuidar de Dima. Voltava para casa a cada duas ou três semanas, assava bolos de mel e fazia pizzas cobertas de carne. Justificava as próprias ausências dizendo a si mesma que estava fazendo o que um homem faria para garantir a sobrevivência da família. E, segundo ela, encontrou um senso de propósito no Exército.

Treinou como socorrista de combate e, em 2019, foi enviada para a linha de frente. Quando seu contrato terminou, voltou para casa por cinco meses, em 2020, para ficar com Dima. Depois, alistou-se novamente. Seu filho mais velho fez o mesmo.

Após a invasão russa em grande escala, a unidade de Liliia Prutian foi enviada para proteger Mariupol, uma cidade portuária estratégica. Os combates ali foram intensos, e a unidade continuou lutando. Apenas 16 dias depois do início da guerra, tropas russas cercaram Prutian e outros seis soldados ucranianos em um vilarejo ao norte da cidade. Sem munição, eles se renderam.

Três russos a separaram dos homens e a trancaram em uma casa, onde a interrogaram durante dias. Por que ela entrara para o Exército? Com quem servia? Depois, os soldados exigiram sexo, contou ela. Prutian tentou negociar. "Pelo menos que seja só um de vocês", recordou mais tarde ter dito.

Então, segundo ela, um soldado russo a estuprou.

O The New York Times não conseguiu verificar seu relato de forma independente, mas ele é compatível com os depoimentos de outras mulheres a organizações de direitos humanos sobre violência sexual no cativeiro. O Ministério da Defesa da Rússia não respondeu a um pedido de esclarecimentos sobre o caso dela, mas, de modo geral, nega que prisioneiros sejam vítimas de abusos.

Dias depois, ela foi trancada em uma cela no porão de um prédio na cidade de Donetsk. Mais de 20 mulheres foram amontoadas em um espaço projetado para dez pessoas, contou. À noite, precisavam dividir colchões; todas as manhãs, eram obrigadas a cantar o hino nacional russo; e passavam o dia inteiro em pé.

Se elas se sentassem, afirmou, os guardas as espancavam. A água era escassa, e o vaso sanitário deixou de funcionar. As mulheres guardavam as sobras da sopa para usar o líquido na descarga, contou.

Os ouvidos de Prutian, lesionados em combate, infeccionaram. Ela começou a perder a audição.

No verão de 2023, foi transferida para uma prisão no sul da Rússia e levada a julgamento sob acusações de terrorismo, em um caso acompanhado pela imprensa local.

Em uma das audiências, seu filho do meio apresentou um depoimento por escrito contra ela. Foi assim que Prutian soube que ele havia entrado para o Exército russo —e que sua família jamais voltaria a ser inteira. Com o tempo, ela conseguiu enviar cartas a Dima e ao filho mais velho.

Em setembro de 2024, Prutian ainda estava sendo julgada quando foi subitamente libertada em uma troca de prisioneiros. De volta ao território controlado pela Ucrânia, beijou as árvores e caminhou descalça pela grama. Acima de tudo, preocupava-se com Dima.

Em fevereiro de 2022, Blizhnie era apenas um pequeno obstáculo no avanço russo rumo ao litoral. Os soldados tomaram o vilarejo e se apoderaram dele. Bandeiras ucranianas foram descartadas ou estendidas no chão como capachos improvisados diante de supermercados. Em seu lugar, hastearam-se bandeiras da República Popular de Donetsk, o regime fantoche da Rússia.

As tropas ocuparam as casas dos moradores que haviam fugido e usaram Blizhnie como base para ataques contra Volnovakha, um importante centro de transportes nas proximidades.

No início, Dima, um franzino rapaz de 17 anos e cabelos escuros, tinha medo de sair de casa. Antes de ser capturada, sua mãe telefonava e enviava mensagens sempre que possível. Certa vez, ele contou que conseguia ver soldados russos perto das árvores frutíferas dela.

Então ela parou de responder. Durante meses, ele não soube se a mãe estava viva. Depois de passar um breve período com o irmão do meio —que sempre se opusera à decisão da mãe e do irmão mais velho de entrar para o Exército ucraniano—, Dima voltou para casa, novamente sozinho.

Dima, que tem diabetes tipo 1, era pequeno para sua idade, mas amadurecera mais rápido que os amigos. Deixou a escola após o nono ano e ingressou em uma escola técnica florestal próxima, onde estudava conserto de tratores.

Agora, as aulas haviam sido interrompidas. Não havia empregos. Os serviços de internet e telefonia eram exasperantemente lentos. Ao caminhar por Blizhnie, ele abaixava a cabeça quando passava por soldados russos.

Dima pedia ao irmão mais velho, que lutava pela Ucrânia, que lhe enviasse dinheiro —cerca de US$ 80 (R$ 417) por vez—, que precisava converter em rublos russos para comprar mantimentos. Preparava pratos simples: macarrão, mingau e ovo frito.

Em setembro de 2022, ficou gravemente doente devido a complicações do diabetes. O irmão do meio o levou ao principal hospital da região e o deixou lá. Deitado na unidade de terapia intensiva, Dima não fazia ideia de que sua mãe estava presa a menos de oito quilômetros de distância.

Foi mais ou menos nessa época, ao que tudo indica, que o irmão do meio escolheu definitivamente um lado, segundo a mãe e os irmãos. Casou-se com uma ucraniana pró-Rússia. Vendeu o carro da mãe. Parou de falar com os irmãos. Pouco depois, alistou-se no Exército russo.

Era o tipo de ruptura que vinha destruindo famílias por todos os territórios ocupados.

Ninguém visitou Dima no hospital. Sem um adulto que assumisse a responsabilidade por ele, permaneceu internado durante meses, até que um professor de sua escola o encontrou e assinou sua alta.

Era o inverno de 2023, um ano após a invasão. Mais da metade da população de Blizhnie havia fugido. Dima encontrou soldados russos morando em sua casa, mas voltou a se instalar ali mesmo assim, em um gesto solitário de protesto.

Os soldados logo partiram, deixando para trás rações militares intactas, chaleiras velhas e um fogão elétrico. Dima percebeu que muitas coisas de suas coisas haviam desaparecido: talheres, ouro, joias, um laptop e algumas roupas e calçados.

Ele voltou a estudar e conseguiu um emprego de meio período na construção civil. Aprendeu a fazer borsch e a fritar linguiças. Obteve um passaporte russo, necessário para pagar as contas de serviços públicos, receber alimentos enlatados de organizações humanitárias e frequentar a escola.

No fim de fevereiro de 2025, Dima iniciou sua viagem. Um táxi o levou até Volnovakha, onde se encontrou com um jipe e se juntou a outras pessoas que fugiam da ocupação. Uma passageira ia para Belarus; outra levava o filho para uma área não ocupada da Ucrânia.

Dima mentiu nos postos de controle da fronteira. Primeiro, entraram na Rússia —a única saída prática e relativamente segura da Ucrânia ocupada—, depois seguiram para Belarus e para a Polônia, antes de regressarem à Ucrânia, em uma viagem de 2.800 quilômetros. Dormiram dentro do veículo. Quando Dima finalmente chegou a Kiev e avistou a mãe na estação ferroviária, correu até ela e a abraçou com força.

Prutian beijou o filho, que vestia um casaco imundo e jeans desbotados. Viu que ele sorria, mas parecia pensativo. Ela se sentiu estranhamente entorpecida.

"Eu tinha medo de não sentir nada", explicou ela mais tarde. "Não posso dizer que senti alegria. Encontrá-lo foi como encontrar um estranho. Dizem que isso é normal depois do cativeiro."

Prutian estabeleceu um novo lar com Dima e o filho mais velho —agora dispensado do serviço militar— em Dnipro, cidade a cerca de 100 quilômetros a oeste da linha de frente.

Pessoas de sua terra natal disseram que o filho do meio havia sofrido um ferimento na cabeça em um ataque de drone. Ela não tentou descobrir mais detalhes.

Prutian sonha em voltar para o vilarejo onde viviam. Por enquanto, trabalha em uma função administrativa no Exército ucraniano. O trabalho a mantém longe de casa durante boa parte do tempo, mas também bem distante dos combates.

Ultimamente, Prutian começou a se sentir ela mesma novamente. Ainda assim, trata Dima como se ele fosse muito mais novo. Vive cuidando dele como uma mãe, limpando seu rosto e abraçando-o.

"Talvez eu me sinta culpada por não ter feito o suficiente quando não podia, mas não acho que esteja exagerando agora", disse ela. "Nunca é demais amar alguém."

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