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Friday, October 2, 2026

Por que a nova onda de protestos estudantis assusta o governo francês

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    • Author, Hugh Schofield
    • Role, Da BBC News em Paris
  • Published

  • Tempo de leitura: 6 min

É um conselho sábio que todos os líderes franceses fazem questão de seguir: jovens nas ruas são sinônimo de problemas.

Desde os protestos estudantis de maio de 1968 — descritos de forma memorável pelo presidente Charles De Gaulle como "chienlit" (literalmente "defecação na cama", ou seja, caos) – todos os governos têm medo da juventude francesa revoltada.

Por quê? Porque os movimentos juvenis são imprevisíveis e amorfos, muitas vezes sem uma estrutura clara com a qual se possa negociar. Porque quando eles protestam, outros grupos se juntam a eles.

Além disso, como são jovens, o público tende a simpatizar com eles. E porque, se a polícia errar e provocar ferimentos ou algo pior, as consequências são incalculáveis. E as eleições presidenciais estão a poucos meses de distância.

Por todas essas razões, quando a juventude revoltada está nas barricadas, os governos agem com muita cautela.

Neste momento, os adolescentes franceses estão nas barricadas e, embora não estejam visivelmente revoltados (o clima é mais de excitação), certamente estão deixando o governo do presidente Emmanuel Macron "apavorado", segundo descrição do jornal Le Monde.

Um movimento que começou há quase duas semanas na área de baixa renda de Seine-Saint-Denis, no norte de Paris, espalhou-se por todo o país nos últimos dias.

Na quinta-feira (1/10) – o ponto mais crítico até agora – centenas de liceus (escolas onde jovens de 15 a 18 anos concluem seus estudos) estavam sendo bloqueados. Na sexta-feira, a situação havia melhorado, mas cerca de 400 liceus permaneceram fechados para proteger funcionários e alunos. As universidades estão começando a seguir o exemplo.

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A violência eclodiu. Na quinta-feira, o salão principal de um liceu em Nantes foi destruído por um incêndio. Incêndios menores, numerosos demais para mencionar, foram provocados nos portões de entrada de escolas em todo o país. O prejuízo estimado é de milhões de euros.

Segundo o Ministro da Educação, Édouard Geffray, 65 membros do corpo docente, incluindo 40 diretores de escolas, ficaram feridos.

"A maioria dos funcionários feridos afirmou que as pessoas com quem se depararam... não eram seus próprios alunos", disse ele.

Um estudante ateia fogo a latas de lixo durante um protesto estudantil com bloqueios perto da Place de la Nation, em Paris, em 2 de outubro de 2026. Desde o final de setembro, estudantes têm realizado protestos em frente a escolas devido a queixas que vão desde horários, tamanho das turmas e falta de professores até salas de aula superaquecidas durante as ondas de calor deste ano. Os protestos começaram na região de Île-de-France, em torno de Paris, mas agora se espalharam para outras cidades do país.

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, Os protestos se espalharam por toda a França, e alguns estudantes universitários agora estão se juntando a eles

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Além disso, o governo afirma que cerca de 300 policiais e bombeiros receberam atendimento médico devido aos ferimentos, e aproximadamente 2 mil pessoas – principalmente menores de idade – foram detidas. Por sua vez, grupos estudantis relatam ter uma longa lista de pessoas feridas pela polícia. Dois adolescentes sofreram graves lesões oculares e um perdeu vários dentes.

O problema já seria bastante complexo se se resumisse apenas a atender às reivindicações dos manifestantes. Mas existe outra dimensão – política e social – que torna esta crise estudantil muito mais perigosa do que no passado.

As reivindicações existem, ainda que permaneçam vagas. Elas dizem respeito à falta de dinheiro e à necessidade de mais professores, turmas menores e melhores instalações.

Em relação a esses assuntos, muitos na França concordariam com os adolescentes. Certamente, usar protestos para exigir verbas do governo é um hábito tão arraigado no país que até mesmo os governos o consideram legítimo. E, de fato, a situação no sistema educacional está piorando, devido à escassez de recursos.

Esta semana, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu publicou sua proposta de orçamento para o próximo ano. O lema é "Mais cortes – e desta vez é sério!".

Resta saber se ele conseguirá ou não retirar 54 bilhões de euros dos gastos públicos, como promete.

Mas é óbvio que a era da generosidade pública para apaziguar a agitação social na França está agora no fim. Os estudantes que exigem uma enfermeira escolar extra ou isolamento térmico no refeitório provavelmente ficarão decepcionados.

Mas essa é a menor das preocupações.

O temor muito maior é que esses protestos estudantis estejam sendo manipulados pela extrema esquerda – e que a violência dos últimos dias seja um prenúncio do que aguarda uma sociedade perigosamente polarizada no ano das eleições que se aproxima.

Para a direita e o centro, não há dúvida de que por trás dos problemas estudantis está a mão astuta do partido França Insubmissa (LFI) e de seu popular candidato à presidência, Jean-Luc Mélenchon.

Líderes da LFI têm aparecido regularmente ao lado dos estudantes – principalmente no subúrbio parisiense de Saint-Denis, cujo prefeito, Bally Bagayoko, foi criticado por dizer que "a violência às vezes pode ser legítima".

Jean-Luc Mélenchon, do partido de extrema-esquerda França Insubmissa, é visto com Bally Bagayoko (à esquerda), prefeito de Saint-Denis, durante um protesto em 29 de setembro de 2026 em Paris, França. Membros dos sindicatos do setor público francês, incluindo professores, bombeiros, profissionais de saúde e funcionários do governo, estão em greve nesta terça-feira para pressionar o governo antes da divulgação da proposta de orçamento para 2027, que, segundo relatos, inclui cortes e planos para congelar o salário-base dos servidores públicos pelo quarto ano consecutivo.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Bally Bagayoko (à esquerda) e o candidato presidencial Jean-Luc Mélenchon manifestaram apoio ao direito dos estudantes de protestar

Um relatório interno preparado para o departamento de polícia de Paris, que vazou para a mídia, analisou o movimento em Seine-Saint-Denis. A conclusão foi de que os estudantes estavam sendo "incitados por elementos de extrema esquerda de grêmios estudantis... e grupos políticos como... a LFI".

O comunicado afirmava que as tensões "poderiam fazer parte de uma estratégia para inflamar os ânimos... com o objetivo de impor suas ideias antes das eleições nacionais".

Para sustentar sua conclusão, os autores do relatório citaram a presença de manifestantes que não são eles próprios estudantes do ensino médio, a imprecisão das reivindicações, o hasteamento de bandeiras palestinas e argelinas e o uso de táticas – como a convocação de protestos suplementares em delegacias de polícia – que fazem parte do manual da esquerda radical.

A LFI nega veementemente ter feito algo além de oferecer seu apoio natural a um movimento que considera legítimo. Na quinta-feira, Mélenchon pediu aos estudantes que evitassem a violência, "que só serve aos interesses de nossos inimigos".

Mas seus oponentes acreditam que o veterano de 75 anos – que tem boas chances de chegar ao segundo turno das eleições presidenciais em maio, provavelmente contra a candidata de extrema-direita Marine Le Pen – sabe exatamente o que está fazendo.

As pesquisas mostram que ele tem um apoio massivo – cerca de 40% – entre os jovens de 18 a 24 anos na França, e que esse apoio se concentra nos subúrbios populosos e com alta imigração das cidades.

Mas os jovens também são os que mais se abstêm nas eleições francesas, então a estratégia – à medida que as eleições se aproximam – será a de dar lembretes constantes a essa parcela da população de que a LFI está ao seu lado e que o seu voto pode contar.

Se isso será suficiente para garantir a vitória de Mélenchon é outra questão. Ele certamente deve levar a sério as pesquisas, que mostram uma derrota esmagadora para Le Pen em um segundo turno.

Se isso acontecer, a França estará em um território muito instável – e os protestos dos jovens nos últimos dias terão sido, de fato, um presságio disso.

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