Facções, tarifa zero e data centers: o que marcou o último debate entre Ciro e Elmano no Ceará
Fortaleza, Ceará — A segurança pública dominou o último debate entre Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT) antes do primeiro turno da eleição para o Governo do Ceará. Na noite de terça-feira, 29, na TV Verdes Mares, os candidatos confrontaram estratégias para combater as facções criminosas, discutiram a presença policial no estado e usaram o tema para questionar a capacidade e o histórico político um do outro.
Ciro apresentou a segurança como um dos principais argumentos para uma mudança no comando estadual e defendeu reorganizar o combate ao crime em torno de inteligência e investigação das lideranças das facções. Elmano sustentou que sua gestão já ampliou a estrutura de segurança e prometeu reforçar tanto o policiamento quanto o uso de tecnologia e inteligência.
A violência contra as mulheres também entrou no confronto sobre segurança. Elmano defendeu ampliar estruturas de proteção e atendimento às vítimas, enquanto Ciro criticou a cobertura das Delegacias da Mulher no estado. Os dois divergiram sobre a evolução da violência de gênero no Ceará.
Emprego e desenvolvimento econômico formaram outro eixo importante da noite. Os candidatos também discutiram educação, obras públicas e orçamento. Em paralelo, alianças eleitorais e acusações sobre a administração estadual atravessaram diferentes blocos e elevaram o tom do confronto.
Segurança concentra os principais embates
O candidato do PSDB insistiu que o modelo da segurança pública precisa ser alterado e criticou a presença da Polícia Civil em municípios do interior. Entre as propostas, defendeu garantir a presença de delegado nos municípios e investir em uma estrutura de inteligência capaz de identificar as lideranças das organizações criminosas.
A estratégia descrita por Ciro visa combinar informações obtidas nas comunidades, com proteção de quem as fornece, inteligência profissional, tecnologia e investigação financeira. O candidato argumentou que o objetivo seria chegar aos chefes das facções e não concentrar as operações apenas nos integrantes de escalões inferiores.
Elmano respondeu que inteligência e tecnologia não podem substituir a presença das forças de segurança. "Nós temos que ter a tecnologia e mais polícia na rua. É a combinação dos dois", afirmou.
O governador defendeu ampliar o efetivo policial, reforçar estruturas de inteligência, aprofundar o combate à lavagem de dinheiro e expandir mecanismos de resposta rápida a ameaças do crime organizado.
Ciro negou que sua proposta seja substituir policiais por equipamentos tecnológicos, e disse que a mudança estaria no método de investigação e na prioridade dada às lideranças das facções.
Facções levam disputa para o campo político
A discussão sobre segurança rapidamente se misturou às alianças da eleição. Ciro fez acusações sobre supostas relações entre integrantes ou aliados do campo governista e pessoas investigadas por envolvimento com organizações criminosas.
Elmano rejeitou as associações e argumentou que investigações devem ser respeitadas antes de responsabilizar terceiros. O governador, por outro lado, procurou associar a candidatura de Ciro a grupos políticos ligados ao bolsonarismo e retomou episódios anteriores da política de segurança do Ceará.
Nas considerações finais, os dois voltaram a esse contraste. Elmano apresentou sua candidatura como parte de um grupo político que reúne aliados estaduais e nacionais, como Lula, Cid Gomes (PSB) e Luizianne (Rede). Ciro se colocou como candidato de oposição e pediu apoio para uma mudança no comando do estado.
Educação vira disputa sobre gestão e futuro da escola
A educação foi outro tema sorteado para confronto direto e levou os candidatos a discutir tanto o histórico da área no Ceará quanto os caminhos para os próximos anos. O governador buscou apresentar os resultados da educação como fruto de uma trajetória que atravessou diferentes administrações e destacou o papel de professores e gestores.
Ciro reconheceu os avanços acumulados pela educação cearense ao longo de diferentes governos, mas afirmou que vê sinais recentes de perda de desempenho. Também acusou o governo de politizar estruturas regionais da área. Elmano negou a acusação e disse que os processos de seleção e gestão da rede permanecem baseados em critérios profissionais.
Na parte propositiva, os dois defenderam ampliar a jornada escolar e aproximar o ensino médio da formação profissional, mas apresentaram ênfases distintas. "Eu pretendo implantar o 'Cria', que é introduzir a cultura digital em todo o nível médio do Ceará", disse Ciro.
O projeto apresentado pelo tucano prevê formação de estudantes em áreas ligadas à cultura digital, inteligência artificial (IA), criação de conteúdo e desenvolvimento de aplicativos.
Já Elmano concentrou sua proposta na transformação das escolas de tempo integral em unidades profissionalizantes. "O passo mais importante agora é nós fazermos todas as escolas que eu estou concluindo em tempo integral, elas passarem a ser profissionalizantes."
O governador também defendeu ampliar o contato dos estudantes da rede pública com tecnologia, formação especializada e programas de intercâmbio, e defendeu aumentar o acesso dos estudantes da rede estadual ao programa de incentivo financeiro-educacional Pé-de-Meia, do Governo Federal.
Emprego opõe dois modelos de desenvolvimento
A geração de emprego ocupou uma parte extensa do debate e levou os candidatos a apresentar visões diferentes sobre como desenvolver a economia cearense. Elmano defendeu uma estratégia baseada na combinação de investimento público, parceria com empresas privadas, infraestrutura, energias renováveis, tecnologia e grandes empreendimentos.
Ele citou projetos ligados à ferrovia Transnordestina, à indústria automotiva e à instalação de data centers como parte desse modelo. Para o governador, a atração de investimentos tecnológicos deve ser acompanhada pela formação profissional de estudantes das escolas públicas, criando mão de obra para atividades ligadas à IA e à economia digital.
Ciro questionou a capacidade de grandes projetos tecnológicos produzirem empregos em escala suficiente e defendeu uma política industrial regionalizada. Na proposta do tucano, o governo deveria identificar as vocações econômicas de cada região e investir em infraestrutura, logística e agregação de valor à produção local.
Ciro deu ênfase particular à indústria por considerar que ela pode oferecer empregos mais qualificados e melhor remunerados. Ele destacou, ainda, sua participação no desenvolvimento inicial do projeto da Transnordestina e sugeriu intervenções para ampliar a integração da ferrovia com polos econômicos do estado.
Elmano apresentou a conclusão da obra como parte da estratégia de atração de empresas e fortalecimento da logística cearense.
Sobre os data centers, o governador também os apresentou como elementos de um ecossistema de tecnologia e inovação. Ciro disse considerar os projetos positivos em si, mas questionou sua capacidade de gerar grande quantidade de empregos permanentes e alertou para a necessidade de avaliar demandas futuras de energia e água.
O candidato do PSDB também relacionou seu projeto de desenvolvimento à infraestrutura hídrica e defendeu a conclusão de obras voltadas ao abastecimento e à distribuição de água no estado enquanto atuava como governador do Ceará, entre 1991 e 1994.
Ciro apresenta Travessia; Elmano quer gratuidade no transporte
O debate também trouxe propostas voltadas diretamente à renda e ao cotidiano das famílias. Ciro apresentou o programa 'Travessia', que teria como foco famílias em situação de maior vulnerabilidade. A ideia é realizar visitas domiciliares para identificar os obstáculos enfrentados por cada núcleo familiar e elaborar respostas específicas.
"Casa por casa será feito o diagnóstico e um projeto para cada família sair disso", afirmou o tucano, que também defendeu um programa de renegociação de dívidas para pessoas com dificuldades de acesso ao crédito.
Elmano destacou o 'Ceará Sem Fome' e outras políticas sociais de sua administração antes de anunciar uma proposta para o transporte público da capital, batizada de 'Vai de Graça', que visa garantir gratuidade no transporte coletivo de Fortaleza aos fins de semana, em parceria com a Prefeitura, abrangendo diferentes modais.
"No fim de semana, todo fim de semana, a partir do ano que vem, eu vou implantar, com o prefeito Evandro Leitão, um Vai de Graça para você pegar o ônibus de graça", disse.
Ciro reagiu com ceticismo ao anúncio e questionou a execução de promessas anteriores na área de transporte. Elmano respondeu defendendo as políticas já existentes e apresentou o novo programa como uma ampliação dessas iniciativas.
Gastos públicos levam a novo confronto
No último tema sorteado, orçamento e gastos públicos, o debate voltou a assumir tom de acusação e defesa. Os dois discutiram a utilização da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) em reparos de pavimentação.
Ciro questionou o uso da companhia em serviços de asfalto e afirmou que esse tipo de atuação não deveria fazer parte de sua função. Elmano respondeu que, quando intervenções da própria Cagece danificam uma rua, cabe à empresa restaurar o pavimento.
A discussão serviu ainda para os candidatos apresentarem versões diferentes sobre a condução das contas estaduais. Elmano afirmou que o estado mantém equilíbrio financeiro e capacidade de investimento, já Ciro criticou a política fiscal e os gastos do governo.
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