Dez integrantes de torcida Bamor, do Bahia, são presos acusados de tortura na sede do grupo em Salvador
A investigação aponta que a cúpula da torcida realizava os atos de violência no subsolo do imóvel para obter confissões sobre supostos desvios internos de dinheiro. Mensagens de áudio enviadas pelo presidente ao grupo da diretoria revelam o planejamento das agressões: "Aí, amanhã a gente vai pegar ele daquele jeito vai ser uma cena triste", diz Matheus em uma das gravações, completando com instruções para levarem alicates para arrancar unhas e afirmando que o alvo teria a "mão esmagada".
Segundo as apurações do Ministério Público da Bahia (MP-BA), os espancamentos ocorriam na sala da diretoria e duravam horas. Uma das vítimas integrou a organizada por 18 anos, foi líder de arquibancada e cuidava do sistema de cadastro de associados. Ele relatou ter sido convocado sob acusação de ativar planos de sócios sem identificar repasses financeiros: "A gente sentou em mesa de reunião, foi aí que começaram a me bater com o martelo primeiro, depois pegaram a minha mão, atravessaram minha mão de faca, me deram quatro facadas na mão e pegaram um taco de beisebol, de madeira, que começaram a deferir golpes de taco em mim. Botaram um saco na minha cabeça pra me sufocar".
Ele declarou que cerca de dez membros da direção participaram da agressão por quatro horas e fizeram ameaças contra sua família.
Outra vítima, que prestava serviços de tecnologia para a torcida e também nega qualquer fraude, afirmou ter passado pela mesma dinâmica ao sugerir levar o caso à polícia. "E aí eu comecei a ser agredido com esse taco de beisebol, nas pernas, no braço, nas costas, e aí na sequência muito chute, muito pontapé. Nessa sala estava o presidente, o vice-presidente", conta, acrescentando que o presidente dava ordens para matá-lo. Durante o espancamento, ele foi obrigado a fornecer senhas bancárias e teve mais de R$ 5 mil retirados de sua conta.
Operação, apreensões e denúncia
Ao procurar a Polícia Civil no dia seguinte, o rapaz recebeu ligações de integrantes da organizada tentando conter a denúncia, mas rebateu classificando o ocorrido como tortura. "Essas vítimas foram convidadas a ali comparecer e foram submetidas a intenso sofrimento, orquestrado, orientado e coordenado pela direção daquela entidade", afirma o promotor Tiago Quadros, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
No fim de setembro, uma operação conjunta do MP-BA com as polícias Civil e Militar cumpriu 15 mandados de busca e apreensão e prendeu os dez investigados. Na sede, os policiais apreenderam martelos, alicate e um taco de beisebol, reconhecidos pelas vítimas.
Os investigados foram denunciados por organização criminosa, tortura, roubo, extorsão e ameaça. De acordo com o delegado Ernandes Júnior, diretor do Denarc, integrantes do grupo já acumulavam antecedentes por homicídio, tráfico de drogas, estelionato e violência doméstica.
A defesa de Matheus Pires e Luciano Venâncio declarou em nota "que seus clientes são inocentes" e que "todas as medidas judiciais já estão sendo adotadas".
Histórico de violência e punições
Os episódios ocorrem em meio a medidas para tentar conter confrontos entre torcedores na capital baiana. Desde 2017, os clássicos entre Bahia e Vitória são realizados com torcida única nos estádios, mas brigas generalizadas persistem nas ruas. No clássico de 23 de agosto, válido pela 24ª rodada do Campeonato Brasileiro, confrontos em vários bairros deixaram um torcedor do Bahia morto próximo ao Barradão e outro óbito sob apuração. Por conta disso, a Bamor e Imbatíveis, do Vitória, foram punidas com seis meses de proibição em eventos esportivos.
O Ministério Público ressalta a necessidade de responsabilizar judicialmente as práticas criminosas no ambiente esportivo. "Deveria ser uma entidade voltada a valorizar a diversão, a valorizar o esporte, a confraternização. Pratica no seu seio atos de violência dessa natureza", ressaltou o promotor Tiago Quadros.
Para a vítima que atuava no cadastro de sócios, a experiência deixou marcas profundas: "São atos que é difícil até de falar. Eles foram bastante claros que iriam me matar".
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