E de súbito um intervalo perfeito

1 Com uma cumplicidade tão “frendly”/activa com as diversas nacionalidades de “jovens” activistas nas nossas praças – são velhíssimos: que idade teria Trostsky se fosse vivo? – tem-se tornado cada vez mais fácil desmontar não as tendas mas quem as usa como utilíssimo instrumento.
Eloquente paradoxo: não sendo cego nem surdo e sendo bom da cabeça – condição que penso ser a de uma considerabilíssima parte do país – percebe-se bem diante do que se está. Com ágil solicitude a media* ocupa-se em nos explicar que de um lado estão as tendas do bem, do outro, a polícia do “mal”. Por isso mesmo, ela, media, manter-se-á sempre fiel à sua oferta grátis de écrans e microfones. Explico o grátis: acampamentos&assembleias populares poderão estar certos de uma garantia e de um mandamento mediatizados: a garantia de que nesta revolução importada só há um lado, o dos “jovens”, novíssima categoria. Há assim que glorificar incessantemente os acampanhadores: a lei? que se lixe a lei, a revolução vomita-a; as palavras proferidas fora do guião por quem está de boa fé nas (controladíssimas) assembleias? Despeja-se repulsa e ódio em cima dos odiados; presenças alheias à ideologia daqueles perímetros? Carrega-se sobre intrusos indignos dos altares revolucionários. Em suma: é-se violento.
Quanto ao mandamento, impõe-se por si: a polícia será sempre e até à eternidade, o inimigo a abater na ficção em curso, a polícia ali é sempre “má”. Só “investe”, “avança contra”, “carga sobre”, “usa da maior violência” que minutos depois está a ser “comentada” em três, quatro ou cinco ecrãs. Até o próprio Chefe de Estado confessou a sua “preocupação” com o que “viu e não gostou”. (E do resto, tem gostado?)
2 Houve alguns excessos? Houve e junto-lhe até algum desnorteio mas deixo a pergunta: em que outro país do mundo e não apenas da Europa é que uma polícia ficaria a “parlamentarizar” durante horas com insubmissos profissionais ou dirigentes de partidos, mesmo que partidos microscópicos? E só depois entrou em cena para cumprir a lei e desocupar um espaço público hostil a desocupar-se fora do prazo legal. Só na “guerra” do saudoso Raul Solnado mas felizmente essa era noutros palcos.
Não me admiraria se os protestos revolucionários em curso prosseguissem por tempo indeterminado. Em não havendo autoridade, nem quase ninguém parecendo particularmente habilitado a fazer política, este novo PREC passa a uma forma de vida.
3 Com o que não se contava era com a medrosa e tão wookista anuência das “autoridades” aos actuais cenários citadinos. Exemplifico com um episódio, logo manipulado à velocidade do som: um cavalheiro que eu não conhecia, Benjamim Pereira, dirigente de um organismo que também desconhecia – Instituto de Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) – teve de “reconhecer” (segundo que critério?) ter empregado palavras pelos vistos “proibidas” (por quem?). A principal era o substantivo “sacrifício”, repudiado de imediato: Portugal podia respirar fundo, os jovens nunca praticariam o substantivo, ele fora aliás expeditamente cancelado, o seu “autor” já reconhecera o erro (qual?) e até já pedira as (obrigatórias) desculpas. Fez mal: fora muito claro, tinha a racionalidade do seu lado e usara de bons modos. Preferiu (ou foi levado a isso?) autoarmadilhar-se na falta de coragem vigente e no temor de parecer “autoritário” perante as tendas. Mas que importância? Admoestado o prevaricador, a vida continuava, acampanhadores&acampamentos também. Sem sacrifício.
Esqueceram-se de que há sempre uma excepção que certifica todas as regras. No caso, esta: o sermos contemporâneos e compatriotas deste invertido estado das coisas e não gostarmos.
4 Como Deus não dorme houve um “intervalo” que parecia abençoado. Foi há dias num magnífico hall da Culturgest e tratava-se da apresentação de um livro de Fátima Campos Ferreira: uma longuíssima conversa sobre Siza Vieira, com o próprio arquitecto como actor e fio condutor de um fértil diálogo. Uma hora e meia depois, palco e plateia perceberam ter sido uma sessão memorável: uns, protagonizando-a, outros tendo-a vivido numa plateia embevecida. E que assim se manteve desde os primeiros acordes das palavras dos apresentadores – Paulo Macedo, Ana Pinho, David Lopes, Ana Rita Bessa.
Ouviu-se ainda uma viva conversa entre Fátima Campos Ferreira e Siza Vieira, este a partir da sua casa do Porto. Com imagem e som de grande qualidade, Siza estava entre nós, em directo e ao vivo: interessado, atentíssimo, interessantíssimo, tingindo as suas palavras de um humor que lhe é particular mas que como sucede com o bom vinho, apurou com a idade. Em excelente forma, enfim, apesar de um “pace maker” colocado cinco dias antes. António José Seguro encerrou este “intervalo” que foi perfeito no fundo, na forma e no seu significado: uma sentida homenagem e por uma vez, a um vivo: diante dele e para ele.
Talvez nos tivéssemos regozijado tanto por nos apercebermos que havia ali um Portugal a anos-luz daquele de que se ocupam e preocupam diariamente as televisões. Um país arredado delas – ou pelo menos pouco convocado por elas. Mas adubado e cuidado por gente que sabe o que diz e sabe o que faz e cumpre ambas as coisas bem. Usando da racionalidade, da cultura, da inteligência, do “metier”, das boas maneiras. E sem sombra de alarde, praticando a excelência nas áreas onde oficiam, e muitas vezes, fora delas.
Uma grande tarde. Viva a cidadania, assim interpretada.
* Quando falo de “media” não é – nunca poderia ser – de toda a media. Há excepções, há gente muito séria e muito boa. Sucede que infelizmente não é a que tenho visto ultimamente.
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