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Friday, November 6, 2026

O couto do Rio de Asnos do Mosteiro de Lorvão

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Olá, seja muito bem-vindo. Já sabe, esta é a história das histórias. Eu sou João Paulo Secadura, em Viseu. O Jorge Adolfo Marques, historiador e professor, vai nos hoje falar um bocadinho mais e obrigar-nos a dar mais uns passeios como ele gosta de fazer. Vamos falar do Couto de Rio de Asnos, do Mosteiro de Lorvão, ali na região de Coimbra. Vamos a isso. Olá, Jorge. Bem-vindo.

Olá, João. Deixa-me fazer-te uma correção.

Diz.

Efetivamente, Lorvão em Coimbra, mas nós vamos aqui pra mais perto.

Então, pro Couto.

Este couto, que foi do Mosteiro de Lorvão, efetivamente, é aqui juntinho à cidade de Viseu.

Mas pertence a Coutos, não é? Exato.

Exatamente. E, portanto, o mosteiro tinha aqui propriedades. Aliás, o Mosteiro de Lorvão tinha propriedades em muitas regiões, porque eram bens que eram doados.

Legados, exato.

Como, por exemplo, por uma senhora que em 957, no ano 957, portanto, não é 1957, é 957, portanto, antes do ano 1000.

No tempo da Conquista Muçulmana, nessa altura.

Exato. Uma senhora chamada Enderquina Paula doou uma série de bens. Doou uma vila chamada Aguada, Aqualaba, está assim em latim, mas é Aguada, que fica ali em Águeda, no Conselho de Águeda. Doou, portanto, essa vila com a sua Igreja de São Martinho, o Mosteiro de Marnel, que era em Lamas do Vouga, também em Águeda, e ainda várias vilae nas imediações de Viseu.

Então doou a quem? A quem é que isto era doado?

Ao Mosteiro de Lorvão.

Ah, ok. Já existia nesse tempo?

Não, espera, deixa-me aqui fazer uma pequena correção.

Diz.

Ela doou-os a um mosteiro que hoje não existe, que era o Mosteiro de Esperandei, que era aqui muito próximo de Viseu, precisamente aqui, muito próximo de Viseu, numa povoaçãozinha chamada Mosteirinho. Chama-se Mosteirinho porque tinha lá esse mosteiro. Portanto, esta Enderquina Paula doou esses bens àquele mosteiro, que estavam aqui no território de Viseu. Mas o que é que aconteceu? Quatro anos mais tarde, em 961, esta mesma senhora fez um novo testamento, nessa ocasião, ao Mosteiro de Lorvão, daí a minha pequena correção, que não é bem correção, para sua salvação, pra salvação da sua alma, não é, e também dos seus filhos, desses bens que doara a esse mosteirinho, para além desses bens, ainda outras duas povoações, onde também existia um outro pequenino mosteiro. Doou também uma vila chamada Santa Eulália e uma que se chamava Sabugosa, que hoje pertence a Tamela, e uma de Lourosa e Ferronh. A quem? Precisamente ao Lorvão. Portanto, esta senhora fez duas doações. Em 957, àquele mosteirinho.

Sim.

E depois, quatro anos depois, pegou nesses bens todos e acrescentou mais alguns, aqui na mesma região, não é?

Sim.

E doou-os ao Mosteiro de Lorvão. Portanto, é uma doação para salvação da sua alma. Como aconteceu.

Muito generosa.

Muito generosa. E por isso é que os mosteiros tinham bens espalhados por um território vasto.

Várias regiões. Sim.

Esta senhora, quer dizer, estamos aqui a falar da Enderquina Paula, mas quem era esta senhora? Bom, nós sabemos como é que a conhecemos, através da documentação medieval.

Sim.

Sabemos que ela viveu em meados do século X, durante os reinados dos reis asturiano ou leoneses, Ramiro II, Ordonho III, Sancho II. Portanto, são reis asturianos e leoneses.

Ainda nem havia Portugal.

Pré-nacionalidade.

Exatamente.

Onde é que ela viveu? Na zona do Baixo Vouga, onde herdara bens dos pais. O pai seria Mendo Mendes e a mãe Ermesenda Gondesendes. Portanto, ela herdou-os naquela região, e não só. Por isso é que fiz referência há pouco à zona de Águeda. Os avós maternos também eram figuras importantes. Ela era bisneta de um tal Hermenegildo Guterres, que foi presor e conde de Coimbra quando Coimbra foi reconquistada aos mouros em 978.

Incrível. E provavelmente décimo avô do futuro ex-secretário-geral das Nações Unidas.

Exato.

Nomes importantes.

Portanto, ela tem uns antepassados extremamente importantes.

Sim.

Portanto, é uma senhora descendente da nobreza condal, que dominou a Beira e Coimbra nos séculos IX e no século X, e a quem o Mosteiro do Lorvão deve a posse do território que hoje corresponde aos Coutos de Viseu. Os Coutos de Viseu é uma união de freguesias, de duas freguesias, Couto de Cima E Couto de Baixo. São duas freguesias que se uniram nesta reforma administrativa que decorreu há uns anos. Couto de Cima, o padroeiro é São Martinho, Couto de Baixo é Santa Eulália. Já fizemos há pouco referência à Santa Eulália. Porém, nessa altura dessas doações, ainda não era um couto. Foi no condado, já portucalense, e em particular com Dom Afonso Henriques, que tal se concretizou. Quer dizer, foi só nessa altura que tal se concretizou. Em 1133, mais precisamente em 20 de março de 1133, Dom Afonso Henriques passou uma carta de couto ao Mosteiro do Lorvão, dessas tais vilas, vilai, de Esperandei, onde havia o tal mosteirinho. Sabugosa, Treixedo, Midões. Dom Afonso Henriques é que vai dar essa carta de couto. Dom Afonso Henriques concedeu essa carta de couto, dessas vilas, com todos os seus lugares anexos, não só na terra de Viseu e Midões, na terra de Seia. Para quê? Para salvação da sua alma, do Dom Afonso Henriques, e dos seus pais, Dom Henrique e Dona Teresa. E para que o abade Daniel, enquanto fosse vivo, o recordasse nas suas orações, quer na missa, quer no mosteiro, e que, finalmente, com o intuito de pagar a ajuda, que o mesmo abade lhe concedera quando lhe deu 120 morabitinos em ouro. Quer dizer, há aqui todo um negócio. Que é o negócio de dar uma benesse, porque ele lhe tinha emprestado qualquer coisa. E também, atenção, não é só: "Tens que rezar por mim, porque eu quero ir para o paraíso, quero ser salvo".

A salvação da alma.

É muito interessante toda esta história que começa com a tal dona Inderquina Palma.

Inderquina Palma.

Inderquina Palma.

Incrível o nome. Sim, muito bem.

É uma grande figura da nobreza asturiano-leonesa e condal desse período pré-nacional.

Muito bem, ficamos então com mais este nome estranho, esta Inderquina Palma, esta senhora que há mais de mil anos enriqueceu tanto o Mosteiro de Lorvão. Muito bem, estamos com mais uma homenagem feita e amanhã vamos falar de património. Jorge, por hoje é tudo. Um grande abraço. Até amanhã.

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