Não deu match: dona do Bumble é vendida por US$ 1,3 bi e deixará a bolsa
Mais uma empresa de tecnologia está a caminho de deixar a bolsa americana. Um dia depois de a Getty Images anunciar um plano para voltar ao capital fechado, chegou a vez do Bumble. O aplicativo de relacionamentos acertou nesta terça-feira, 13, sua venda para a Ithaca Holdings por US$ 1,3 bilhão.
A Ithaca pagará US$ 6,05 por ação da Bumble, e o preço representa um prêmio de, aproximadamente, 138% em relação ao fechamento da sexta-feira, 9. As ações já haviam disparado quase 50% na segunda-feira, 12, e chegaram a avançar mais 57% hoje, perto de US$ 6.
Apesar do prêmio elevado para quem ainda estava posicionado no papel, a operação encerra um capítulo pouco feliz da Bumble no mercado de capitais. A companhia chegou à Nasdaq em fevereiro de 2021, no auge da valorização das empresas de tecnologia, e chegou a ser avaliada em cerca de US$ 14 bilhões.
Pouco mais de cinco anos depois, será vendida por menos de um décimo daquele valor. Essa queda ajuda a dimensionar como o mercado de aplicativos de relacionamento mudou.
A Bumble precisou lidar com a perda de usuários pagantes, receitas em retração e, sobretudo, o cansaço de consumidores mais jovens com o modelo de deslizar perfis que ajudou a transformar Tinder e outros aplicativos em fenômenos globais.
De queridinha da bolsa a uma venda bilionária
Fundada em 2014 por Whitney Wolfe Herd, que havia participado da criação do Tinder, o Bumble nasceu com uma proposta que buscava diferenciá-lo do restante do mercado. Em encontros heterossexuais, cabia às mulheres iniciar a conversa.
O conceito virou parte central da identidade da marca e ajudou a empresa a crescer até a abertura de capital. Nos últimos anos, porém, a fórmula começou a mostrar sinais de desgaste.
A companhia passou a apostar mais intensamente em inteligência artificial (IA). Entre as iniciativas está uma assistente capaz de ajudar usuários na construção de perfis e na busca por potenciais parceiros.
A própria Wolfe Herd reconheceu neste ano que o setor precisava mudar. Em entrevista à Axios, ela afirmou que havia chegado o momento de criar um novo modelo de interação e descreveu usuários como cansados da experiência tradicional dos aplicativos.
Em agosto, a Bumble abandonou a exigência de que apenas mulheres dessem o primeiro passo nas conversas heterossexuais. A empresa passou a permitir que qualquer pessoa de um par inicie o contato e ampliou de 24 para 72 horas o prazo para responder a uma conexão.
Números mostram a dimensão do problema
No 2º trimestre, a receita do Bumble caiu 15,2% em relação a igual período do ano anterior, para US$ 210,5 milhões. A receita do aplicativo recuou 14,7%, para US$ 171,7 milhões. A companhia terminou o período com 3,2 milhões de usuários pagantes, uma redução de 16,4% em um ano.
A empresa ainda registrou prejuízo líquido de US$ 127,9 milhões no trimestre, embora o número tenha sido afetado por uma baixa contábil de US$ 169,3 milhões. Mesmo em meio à deterioração dos números, Wolfe Herd vinha defendendo uma reconstrução mais profunda do produto.
A companhia vinha reformulando seus algoritmos de combinação, criando novas formas de iniciar conversas e desenvolvendo experiências para encontros em grupo. A estratégia era transformar uma base menor de usuários em uma comunidade mais engajada.
Quem está comprando o Bumble
A compradora Ithaca Holdings é uma empresa criada em 2026 por Ravi Gupta e John Hegeman. A proposta da companhia é comprar empresas públicas ou privadas e acelerar o uso de novas tecnologias, incluindo IA.
Gupta é, ainda, sócio da Sequoia Capital e Hegeman foi diretor de receita da Meta. Eles assumirão conjuntamente o comando executivo da Bumble. Wolfe Herd também continuará envolvida com a empresa.
A sede permanecerá em Austin, no Texas, e o Bumble manterá seus principais escritórios em Londres e Nova York.
Match Group enfrenta o mesmo cansaço dos usuários
A saída da Bumble da Nasdaq não significa o desaparecimento das empresas de aplicativos de relacionamento da bolsa. A principal companhia listada do setor continua sendo o Match Group, dono do Tinder, Hinge, Match, OkCupid e Plenty of Fish, entre outras plataformas.
O grupo tinha 13,3 milhões de usuários pagantes no fim do segundo trimestre de 2026 e acumulava cerca de US$ 3,5 bilhões em receita nos 12 meses anteriores. O Tinder permanecia como o aplicativo de relacionamentos mais baixado do mundo segundo dados da Sensor Tower divulgados pela companhia.
Mas a Match também tenta resolver o problema que atingiu a Bumble. A empresa reconhece que precisa tornar seus aplicativos mais atraentes para gerações mais jovens e vem reformulando especialmente o Tinder, com novos formatos de interação e recursos.
Grindr mostra que nem todo aplicativo vive a mesma crise
Já o desempenho do Grindr ajuda a mostrar que a dificuldade da Bumble não pode ser atribuída apenas ao desaparecimento do interesse por aplicativos de relacionamento.
O aplicativo de relacionamentos, voltado à comunidade LGBTQIAPN+, também está listado nos Estados Unidos, sob o código GRND na Bolsa de Nova York, mas apresenta uma trajetória financeira bastante diferente.
A receita da Grindr cresceu 33% no segundo trimestre de 2026 e chegou a US$ 138 milhões. A empresa registrou lucro líquido de US$ 18 milhões e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, em inglês) ajustado de US$ 58 milhões, com margem de 42%.
O desempenho levou a administração a elevar sua projeção de receita para US$ 540 milhões em 2026. A companhia tinha cerca de 15 milhões de usuários ativos mensais ao fim de 2025 e 1,4 milhão de usuários pagantes no segundo trimestre deste ano.
Assim como suas concorrentes, a Grindr também colocou a IA no centro de sua estratégia, e trabalha para se transformar em uma organização "nativa em IA", com a tecnologia sendo incorporada à experiência do usuário e ao desenvolvimento de novos produtos.
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