O pós eleições "será muito tenso", diz cantor Luca Argel

O músico brasileiro Luca Argel, residente em Portugal, considera que as eleições brasileiras de domingo decorrem num contexto de forte polarização política, defendendo que o espaço para o diálogo se reduziu drasticamente.
“Não me lembro de outro momento histórico do Brasil em que o paralelo com o nosso passado esteja mais explícito”, afirma Luca Argel, em entrevista à Lusa, por escrito, explicando que acompanha “diariamente” a política brasileira, apesar da distância, sinalizando 2013, ano das manifestações conhecidas como Jornadas de junho, como o seu despertar político.
Para o músico, a politização da sua geração intensificou-se a partir desse período e, posteriormente, com o processo de destituição de Dilma Rousseff, em 2016, a que se refere como um “golpe”, deixando uma “fratura” que, considera, permanece na sociedade brasileira.
“O que me parece mais desesperador é que estamos numa fase em que o espaço para o diálogo se reduziu ao mínimo, ou está virtualmente inviabilizado”, afirma.
Segundo Luca Argel, “factos concretos, raciocínio lógico e bons argumentos já não viram votos”, situação que compara com o processo político em curso em Portugal.
O músico, que recusa considerar irreversível a atual situação, aponta a necessidade de uma maior regulação das redes sociais como uma das condições para recuperar um debate político menos polarizado, defendendo uma “regulamentação rigorosa” dos algoritmos, que acusa de fomentar e monetizar a ausência de debate construtivo.
Autor do álbum “Samba de Guerrilha“, editado em 2021, Luca Argel considera que este trabalho permanece particularmente atual perante o contexto político brasileiro: “talvez esteja ainda mais atual do que estava à época”.
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“A mentalidade colonialista, extrativista e escravagista, que imperou no país desde sempre, está escarrapachada, exposta sem disfarces”, afirma, considerando que a situação atual envolve também o modelo de exploração dos recursos naturais brasileiros.
Na sua leitura, a pressão sobre esses recursos já não provém apenas da Europa, como no passado colonial, mas também dos Estados Unidos, e o Brasil corre o risco de voltar a ser reduzido a “um repositório de riquezas naturais a ser privatizado e dilapidado”, e de “força de trabalho a ser explorada até à exaustão”, em benefício exclusivo de uma potência estrangeira.
É neste contexto que enquadra as próximas eleições, que no seu entender representam “uma ameaça global”.
“Como maior país da América do Sul, o Brasil é a joia da coroa do projeto imperialista” norte-americano, afirma, acrescentando que uma eventual vitória desse projeto nas urnas brasileiras, “via um boneco de ventríloquo de Trump” [Flávio Bolsonaro], “pode ter consequências internacionais que a gente nem sequer consegue dimensionar neste momento”.
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elaborou um relatório, divulgado em setembro pela Folha de S.Paulo, em que apontava risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras deste ano, alertando para uma tendência de “escalada da pressão” norte-americana sobre o Brasil.
Luca Argel diz também não acreditar que uma eventual derrota eleitoral desse projeto signifique necessariamente o fim da contestação aos resultados.
“Eu não tenho a ilusão de que eles irão respeitar os resultados e abdicar de (mais uma vez) tentar um golpe. O dia seguinte a essas eleições será muito tenso, independentemente do resultado“, disse.
Sobre o legado do bolsonarismo, o músico considera que este não se resume a uma visão política sobre o país, mas à criação de “uma identidade coletiva capaz de arregimentar a insatisfação e o ódio de uma enorme fatia da população”.
Parte dessa insatisfação, afirma, tem dimensões de classe, raça, género e religião, mas também existe uma rejeição das instituições e de um “sistema” que, na sua opinião, tem falhado na resposta a problemas históricos, sobretudo a violência.
Para Luca Argel, a permanência dessa identidade política também se explica pela continuidade da influência bolsonarista nas instituições e pela presença de estruturas de desinformação, pelo que não considera que a atual situação resulte simplesmente de uma “memória curta” dos eleitores.
“A campanha eleitoral de 2022 parece nunca ter terminado, ela foi se esticando até às eleições seguintes“, afirma, associando essa continuidade ao cansaço da população e ao menor interesse pelas campanhas eleitorais face aos últimos anos.
Residente em Portugal, o músico não considera, por outro lado, que a emigração altere necessariamente a relação dos brasileiros com a política do país de origem.
Na sua experiência, viver fora do Brasil pode ampliar os termos de comparação e permitir compreender melhor as especificidades do país, mas “a formação (ou transformação) da visão política” precisa de acontecer “in loco”.
“Não se dá à distância”, conclui.
Cantor e compositor, Luca Argel nasceu no Rio de Janeiro, no Brasil, e vive em Portugal desde 2023, tendo adquirido a nacionalidade portuguesa. O seu trabalho tem explorado a relação entre música, história e política brasileira, nomeadamente através de “Samba de Guerrilha”.
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