O que Aleijadinho e a Inconfidência ensinam a quem decide o futuro de uma empresa
Em 1789, parte da elite de Vila Rica, atual Ouro Preto, articulava um plano para romper com a Coroa portuguesa. Na mesa havia poetas, militares, padres e proprietários.
A conspiração caiu antes de sair do papel, denunciada por um dos próprios integrantes em troca do perdão de suas dívidas.
Mais de dois séculos depois, a cidade mineira virou sala de aula para quem toma decisões de alto risco no Brasil. O SEER, Programa Avançado para CEOs, Conselheiros e Acionistas da Saint Paul Escola de Negócios, leva a turma a Ouro Preto como parte de uma formação dedicada à decisão em ambientes complexos.
O momento ajuda a explicar a escolha. Na edição mais recente da pesquisa global da PwC, apenas 30% dos CEOs disseram estar confiantes no crescimento de receita para os 12 meses seguintes, contra 38% em 2025 e 56% em 2022. Foram ouvidos 4.454 CEOs em 95 países e territórios.
O SEER, da Saint Paul Escola de Negócios, reúne CEOs, conselheiros e acionistas em 124 horas dedicadas à decisão em ambientes complexos, com imersão em Ouro Preto. Conheça a proposta do programa
Uma decisão coletiva traída por dentro
A Inconfidência Mineira é, antes de tudo, um caso de decisão colegiada. Um grupo com interesses aparentemente alinhados, informações sensíveis circulando e a necessidade de confiança absoluta entre os membros.
O que derrubou o movimento foi o conflito de interesse. Joaquim Silvério dos Reis, devedor da Coroa, viu na delação uma saída para a própria situação financeira. O interesse individual se sobrepôs ao do grupo, um risco que qualquer conselho de administração conhece.
O desfecho também diz muito sobre a distribuição de responsabilidade. Entre os condenados, os de maior posição social tiveram as penas de morte convertidas em degredo. Tiradentes, alferes e o de patente mais baixa entre os líderes, foi o único executado, em 1792.
O barroco feito com o que havia
Se a Inconfidência mostra os riscos da decisão em grupo, Aleijadinho mostra o valor de ler o contexto. Filho de um arquiteto português e de uma mulher escravizada, Antônio Francisco Lisboa tornou-se o principal nome da arte colonial brasileira e assina obras como a Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto.
Seu trabalho partiu de uma referência importada, o barroco europeu, e a reinterpretou com materiais e mão de obra locais, como a pedra-sabão mineira. O resultado foi uma linguagem própria, que não copiava a Europa nem ignorava suas influências.
Parte relevante dessa obra foi produzida depois que uma doença comprometeu seus movimentos. A restrição não interrompeu a produção.
Para executivos que lidam diariamente com modelos de gestão importados, a pergunta é direta: o que se perde quando uma estratégia global é aplicada sem tradução para a realidade brasileira?
O Brasil como laboratório
A escolha da cidade tem lastro histórico. Fundada no fim do século 17, Ouro Preto foi o epicentro da corrida do ouro e da era de ouro do Brasil no século 18. O esgotamento das minas no século 19 fez a cidade perder importância, o que acabou preservando seus edifícios. Em 1980, tornou-se o primeiro bem cultural brasileiro inscrito como Patrimônio Mundial pela Unesco.
A tese central da imersão é que a cultura brasileira, considerada por muitos pensadores uma das mais pós-modernas do mundo, oferece ferramentas para liderar no caos. Características lidas por décadas como defeitos nacionais passam a ser tratadas como ativos para quem decide.
Com turmas reduzidas e ingresso mediante entrevista com a diretora Maria Silvia Costa, o SEER é voltado a quem responde por decisões de conselho. Saiba mais sobre o processo de admissão
O argumento encontra eco na academia. O sociólogo francês Michel Maffesoli, professor emérito da Sorbonne, defende há anos que o Brasil é o laboratório da pós-modernidade, uma sociedade marcada pela tendência de as pessoas estarem sempre juntas.
O formato também segue uma tendência das principais escolas do mundo. Segundo a Harvard Business Impact, colocar líderes em contextos reais, em vez de começar pela instrução abstrata, acelera o engajamento, a retenção do conteúdo e a confiança.
O preço de decidir mal
O desafio que o programa enfrenta é concreto. Em pesquisa global da McKinsey, só 20% dos executivos afirmaram que suas organizações se destacam na tomada de decisão.
A consultoria estimou o custo: cerca de 530 mil dias de trabalho de gestores potencialmente desperdiçados por ano em uma empresa típica da Fortune 500, o equivalente a US$ 250 milhões em salários. Entre as causas, falta de debate real, excesso de dependência do consenso e sobrecarga de informação.
São falhas de comportamento, não de técnica. E foram exatamente elas que Vila Rica viveu em 1789.
Filosofia, arte e IA na mesma grade
Ouro Preto é a terceira etapa de uma jornada de 124 horas. O programa começa pelas perspectivas do humano e sua percepção do mundo, com filosofia aplicada à alta liderança, a tensão ética entre modernidade e pós-modernidade e um experimento que usa a arte como expressão da subjetividade.
Na sequência, vêm a tomada de decisão individual e colegiada, com apoio de neurociência, governança e inteligência artificial, a imersão em Minas Gerais e um módulo final sobre o ser humano no passado, no presente e no futuro.
A proposta do programa é deslocar a alta liderança de um modelo puramente racional e orientado à execução para uma compreensão mais ampla da decisão, que inclua dimensões emocionais, simbólicas e contextuais.
Em Ouro Preto, a história oferece aos conselheiros algo raro: a chance de estudar decisões cujo desfecho já se conhece.
Para executivos que buscam ampliar a forma como leem contexto, pessoas e risco, a Saint Paul estruturou o SEER, programa avançado para a alta liderança. Veja a jornada completa do programa
O que é o SEER, da Saint Paul?
O SEER é o Programa Avançado para CEOs, Conselheiros e Acionistas da Saint Paul Escola de Negócios. A formação é dedicada à tomada de decisão em ambientes complexos e conecta estratégia, contexto e diferentes perspectivas de liderança.
Para quem o SEER é indicado?
O programa é voltado a CEOs, conselheiros, acionistas e líderes que atuam em contextos de alta complexidade. O nível é avançado, para C-levels e conselheiros.
Como funciona a imersão em Ouro Preto?
A imersão em Ouro Preto é o terceiro módulo do programa. A proposta é usar a história e a cultura brasileira como lente para a liderança, tratando como ativos características que por muito tempo foram vistas como defeitos nacionais.
Quais temas o SEER aborda?
O programa tem quatro módulos: perspectivas do humano e sua percepção do mundo, tomada de decisão individual e colegiada, imersão em Ouro Preto e ser humano no passado, presente e futuro. A grade integra filosofia, arte, neurociência, governança e inteligência artificial.
Como funcionam as aulas do SEER
São 124 horas de formação, com aulas mensais às quintas e sextas-feiras, das 8h às 18h. As aulas são presenciais na unidade Consolação, em São Paulo, com transmissão ao vivo online.
Como é o processo de admissão no SEER?
A seleção começa pela aplicação com currículo e LinkedIn, seguida de avaliação curricular pelo comitê acadêmico da Saint Paul. Depois vem uma conversa individual com a diretora do programa, Maria Silvia Costa, que ocupou posições de alta liderança no Santander e no BankBoston. É preciso ter ensino superior completo e inglês para compreensão oral, escrita e interação.
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