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Thursday, September 24, 2026

GaloLake: como sistema de dados do Atlético pode mudar o futebol brasileiro

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O “Galo Doido Informa” exibiu o número de crianças, de pessoas com mais de 60 anos, de mulheres, da origem dos presentes (cidades e estados) e até mesmo a quantidade de torcedores de “primeira viagem” (estreantes) que ocupavam a casa do Galo naquele dia.

A cena chamou atenção e revelou um alto grau de sofisticação da sistematização de dados - para além da transparência inédita - que o Atlético-MG vem desenvolvendo desde a estreia da Arena MRV, em 27 de agosto de 2023, mas que só agora torna público.

Por trás, uma engenhosa ferramenta tecnológica: a GaloLake, uma plataforma que compila e cruza informações dos dados cadastrais do GaloID, o sistema de registro dos torcedores que, dentre outras finalidades, serve como base para o ingresso por reconhecimento facial - que virou lei no Brasil há três anos.

A partir do relatório gerado sobre os ingressos adquiridos para a partida, o programa realiza automaticamente a leitura dos dados e gera relatórios detalhados sobre as mais variadas características do público presente.

Através do sistema da GaloLake, o Atlético passou a reunir dados de diferentes sistemas do clube - ingressos, catracas, Galo Na Veia (sócio-torcedor), pagamentos, loja on-line, wi-fi, canais digitais -, reunindo mais de 550 tabelas e aproximadamente 1,8 bilhão de registros.

Esses dados são sistematizados e distribuídos para os diferentes setores da administração do estádio e da SAF, permitindo uma leitura mais completa dos resultados dos projetos executados ou, mais importante, onde é preciso elaborar novas ideias.

Como operar

Para se ter uma ideia da profundidade dos dados, a GaloLake consegue hoje alcançar até mesmo os padrões de consumo de bebidas, alimentos e do uso do estacionamento da Arena MRV.

Nos 86 jogos realizados até a data do terceiro aniversário do estádio (27 de agosto), o clube sabia ter vendido 2.880.970 latas de cerveja, 272.008 chopps, 678.846 refrigerantes e 678.007 copos d'água. Dentre os alimentos, registram-se mais de 190 mil porções de feijão tropeiro, 74 mil hambúrgueres e 40 mil cachorros-quentes.

O domínio sobre essas informações - que embora pareçam de menor importância - serve para o clube identificar potencialidades e fragilidades da gestão do seu estádio. Isso, claro, relacionando com o dado concreto de uma média de 31.218 torcedores por partida.

Considerando os itens mais relevantes (ao olhar do blog), uma média de 33,5 mil latas de cerveja por jogo, por exemplo, pode ser entendido como um número aquém do padrão mineiro, muito prejudicado pela lei estadual que obriga a interrupção da comercialização de bebidas no intervalo das partidas. Ou se, talvez, o problema esteja na velocidade do serviço dos bares.

Por outro lado, muito se diz da diferença da qualidade do feijão tropeiro com relação ao que se ofertava no antigo Mineirão (pré-reforma), o que explicaria a venda de apenas 2,2 mil porções por partida. Aqui também pesa o costume brasileiro de realizar a prévia das partidas em bares e outros estabelecimentos nos arredores dos estádios, algo que a Arena MRV, por sinal, é muito bem servida, segundo relatos de frequentadores.

A mesma lógica se aplica à compreensão do contingente de torcedores de alta, média ou baixa frequência na Arena MRV. Hoje, o clube compreende ter cerca de 5 mil torcedores que não perdem uma única partida - independentemente do horário, situação esportiva ou adversário.

Em contrapartida, registra que, todos os jogos, cerca de 5 a 6 mil torcedores estão entrando no novo estádio pela primeira vez. A marca de 11 mil contra a Chape foi fora da curva, de acordo com o clube, potencializada pelo dia da semana (sábado), horário realizado (às 16h), fase do time e ingressos a R$ 29,90 (preço acessível para os padrões brasileiros).

Os números geram desafios, mas especialmente grandes oportunidades. No início do mês de agosto, o Galo comemorou a marca de 200 mil sócios-torcedores, o líder no ranking brasileiro. Nas últimas semanas, outros novos 70 mil torcedores se associaram, na esteira da classificação para as semifinais da Sul-Americana e da Copa do Brasil (sobre o maior rival).

Ou seja, se bem trabalhados, os números compilados no sistema da GaloLake permitem ao clube elaborar políticas com base em dados concretos: elaborar correções, fazer projeções, dar ênfase em certos quesitos e desmobilizar ideias boas só no papel.

Modelo para outros clubes e riscos

No âmbito do Observatório Social do Futebol, o autor do blog desenvolve de forma ainda incipiente o projeto de pesquisa “Custo do Torcer” junto a outros pesquisadores e pesquisadoras*. O maior desafio dessa empreitada tem sido lidar com uma grande opacidade dos dados oferecidos pelos clubes.

É certo que os clubes buscam controlar essas informações por razões diversas, especialmente de ordem comercial. Ao mesmo tempo, é compreensível que sejam reticentes com as obrigações da Lei Geral de Proteção de Dados, vigente desde 2018 (embora também usem isso apenas como justificativa).

O Atlético-MG, com a abertura controlada dos dados compilados pela GaloLake, aponta um caminho possível. Indubitavelmente, hoje existe um contingente considerável de torcedores que se interessam por assuntos dessa ordem, especialmente quando isso permite avaliar e escrutinar a qualidade da gestão do clube.

Em tempos de naturalização de preços exorbitantes sendo cobrados dos torcedores para a entrada nos estádios, em políticas desajustadas que muitas vezes causa redução do público, esses dados podem proporcionar importantes debates para garantir uma maior continuidade e presença.

A valorização do torcedor mais assíduo pode ser conciliada com a necessidade de garantir o acesso do torcedor que, por uma razão ou outra, não pode estar presente em todas as ocasiões. Uma boa base de dados, com permissão ao debate dentro da comunidade, pode produzir soluções muito melhores do que aquelas de olhar puramente mercadológico sobre a relação entre o torcedor e o clube.

Um exemplo disso é o controverso sistema de rankeamento (ou rating) adotado por alguns clubes, que parte de uma premissa de valorização da assiduidade, mas que por vezes gera efeitos adversos elitizantes. Equilibrar essa balança é uma tarefa árdua, que deve ocorrer nos escritórios do clube, mas também deve passar pela experiência real de quem pisa na arquibancada.

Seria muito proveitoso se os demais clubes brasileiros atentassem para a importância dessa ferramenta. Para tanto, aliada à tecnologia e à estatística, também é preciso ter vontade política: tratar o torcedor como membro do clube, não como mero conjunto de consumidores alcançáveis por estratégias comerciais genéricas oriundas de outros segmentos econômicos.

Esplanada da Arena MRV; Atlético-MG — Foto: Daniela Veiga / Atlético-MG

*O projeto de pesquisa “Custo do Torcer”, do Observatório Social do Futebol, é desenvolvido pelo autor do blog (PPGCom/Uerj), Nathalia Maia (PPGD/Uerj), Maíra de Oliveira (PPGCIS/PUC-RJ), João Vitor Sudário (PosGeo/UFF), Júnio Matheus (PPGIEL/UFMG) e Gabriel Bocchi (PPGAS/UFSCar).

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