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Tuesday, September 29, 2026

Do frango ao foguete, como Joesley virou fabricante de armas

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São Paulo Após uma crise agônica que levou à mais longa greve da história brasileira, a Avibras começa um novo capítulo de sua história de 65 anos a partir de outubro, quando os irmãos Joesley e Wesley Batista assumem o controle da principal fabricante de armas do país.

A chegada dos maiores produtores de proteína animal ao intrincado mundo das vendas militares reflete a rede de influência e contatos dos Batista, particularmente Joesley, à frente da empreitada.

Foguete é lançado de sistema de artilharia múltipla em campo verde sob céu azul com nuvens de fumaça e poeira ao redor dos veículos militares camuflados.
Disparo de mísseis do sistema de artilharia Astros-2020, modelo mais recente do Astros-2 da Avibras - Divulgação/Exército Brasileiro

O negócio pegou muitos no restrito mercado de surpresa, dada a falta de familiaridade dos Batista com o setor. Como eles foram do frango ao foguete?

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Para tentar iluminar ao menos alguns aspectos da pergunta, a Folha conversou com pessoas próximas ao negócio, integrantes do governo, de empresas e das Forças Armadas. Pelos relatos disponíveis, Joesley não quis enganar ninguém sobre a experiência.

"O que é essa Avibras?", questionou o empresário ao ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, no começo deste ano. O pernambucano não perdeu a piada e disse que não, o "avi" não tinha a ver com "aves".

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O "avi" se relaciona à origem da fabricante, criada para ser uma empresa de aviação e produtos aeroespaciais por engenheiros do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) de São José dos Campos (SP), em 1961.

Oito anos depois, o mesmo centro de excelência pariu a Embraer, que virou sinônimo de avião brasileiro. A Avibras seguiu focada em sistemas de defesa, como mísseis, mas manteve o nome em sua sede, na vizinha Jacareí.

Para Múcio, a abordagem de Joesley foi o "deus ex machina", a solução improvável, de um enredo encalacrado. Quando foi chamado pelo então presidente eleito Lula (PT) para o ministério, em dezembro de 2022, o político recebeu de cara duas missões.

Uma, mais óbvia, foi a de pacificar as Forças Armadas, que, como se sabe hoje, estavam em meio a uma agitação golpista promovida por Jair Bolsonaro (PL). A segunda, resolver a questão da Avibras.

Em março daquele ano, a empresa havia entrado com pedido de recuperação judicial. Em 9 de setembro, seus cerca de 1.400 trabalhadores entraram em greve, organizados pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, hostil à CUT e ao PT.

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O buraco em que a Avibras se metera era multifatorial. Sua gestão havia registrado o último grande sucesso de exportação em 2012, quando vendeu seu carro-chefe, o sistema de artilharia por saturação de mísseis Astros-2, para a Indonésia.

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O Exército, grande cliente nacional, mantinha um baixo nível de investimento, e novos negócios externos, com Arábia Saudita e Filipinas, não se materializaram.

A crise culminou com o fracasso da venda de sistemas Astros e do MTC (Míssil Tático de Cruzeiro), arma em que os militares brasileiros investiram estimados R$ 1,5 bilhão para que a Avibras fabricasse, ao Qatar.

O país árabe chegou a assinar um contrato de US$ 820 milhões (R$ 5,2 bilhões em valores corrigidos) com a Avibras em 2018, mas ele acabou vetado principalmente pela pressão de Israel sobre o governo Bolsonaro, próximo do Estado judeu, segundo integrantes da gestão do ex-presidente.

Aos poucos foi sendo construída uma saída típica para a crise: a divisão da Avibras em uma nova empresa saneada e uma massa falida com uma dívida estimada em mais de R$ 600 milhões, R$ 230 milhões em débitos trabalhistas.

Um dos principais credores era a empresa indonésia PDS, envolvida no negócio de 2012. Em agosto de 2024, o fundo de investimento Brasil Crédito comprou seu débito, estimado em cerca de R$ 220 milhões, já trabalhando no plano de recuperação judicial alternativo que seria aprovado em maio de 2025. O processo chegou a ser questionado por credores como o banco Safra, mas foi em frente.

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A longa história dos Batista com a Indonésia, que vai da disputa com a Paper Excellence à atração de US$ 2,5 bilhões do fundo soberano do país no mês passado, trouxe a Avibras aos ouvidos de Joesley.

Ele disse ter tido o negócio recomendado por conhecidos no país asiático, onde investe também em energia. Para Múcio, um problema estava resolvido: Lula havia vetado qualquer solução que envolvesse estrangeiros.

Cinco homens em traje formal e casual posam em frente a fundo verde com símbolo amarelo. Um homem de chapéu bege segura caixa de acrílico com modelo de foguete branco, enquanto outro homem de terno preto ajuda a segurar a caixa.
Observado por Múcio e Alckmin, Lula segura modelo do MTC ao lado de Sami Hassuani na reabertura da Avibras - Nelson Almeida - 24.jul.26/AFP

Isso melou a venda quase fechada em 2024 para a DefendTex australiana e demoveu os emiratis do Grupo Edge, que entrou com força no Brasil. A Norinco chinesa, interessada, também ficou de fora.

Para observadores do mercado, é um filme antigo de promoção de campeões nacionais que acabou em fracasso no caso da antiga Odebrecht Defesa. Mas os tempos são outros.

Alguns notam que a decisão de investimento de Joesley, que não comenta o assunto, pode ter sido estimulada por seus contatos no governo Donald Trump, cientes das potencialidades do mercado em tempos de turbulência geopolítica.

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Os Batista, de forma cautelosa, lideraram um aporte estimado em R$ 300 milhões no Brasil Crédito, que, por sua vez, investiu os recursos na Avibras. Na outra ponta um acordo trabalhista foi celebrado na Avibras, envolvendo 850 demissões de remanescentes e 450 readmissões.

Múcio fez sua parte, reintegrando a Avibras ao posto de empresa estratégica de defesa, categoria que dá vantagens competitivas em financiamentos estatais. Em maio, a fábrica foi reaberta, tendo como presidente Sami Hassuani, que havia dirigido a empresa no período áureo de 2008 a 2016.

Muito respeitado nos meios militares, o engenheiro Sami, como é conhecido por sua formação no ITA, era visto como homem ideal para tocar a nova fase da empresa. Em julho, ele ciceroneou Lula na inauguração oficial.

Hassuani não quis conceder entrevista, mas em declarações anteriores estipulou uma meta de chegar a 2028 com mil funcionários e faturamento de R$ 500 milhões, focado em exportação. Além dos produtos maduros, como o Astros-2 e o MTC, há apostas em um novo míssil balístico, drones e outros sistemas.

Em meados deste ano, Joesley decidiu que iria assumir a gestão da empresa, comprando o controle do Brasil Crédito. Quando ainda estava fora do controle da empresa, Joesley já tinha feito sondagens acerca do futuro da Avibras, então é provável que o plano de Hassuani seja revisado.

A aquisição do controle, cujos detalhes não foram revelados, foi fechada em 21 de agosto pela Globe Investimentos, o family office dos Batista. Assim, a nova Avibras não integra a J&F, holding dos irmãos. O Cade aprovou a compra no dia 14 passado, e a transição na empresa começa na próxima semana.

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O empresário convidou para assumir o conselho de administração da nova empresa Bruno Dantas, de saída da presidência do TCU (Tribunal de Contas da União) e da corte, onde dividiu o plenário durante seis anos com Múcio.

Dantas é um experiente operador de Brasília e tem um trunfo: havia presidido por dois anos e meio a Intosai, conhecida como a "ONU dos TCUs" mundiais, revisando entre outras coisas manuais regulatórios de negócios de defesa —que, invariavelmente, envolvem governos.

Dantas, assim como Joesley, não tinha nenhuma experiência com o mercado de defesa. Assim, o plano é que Hassuani seja convidado a permanecer como CEO da nova Avibras, com Dantas trabalhando na estruturação de novas exportações.

O ex-presidente do TCU não quis falar antes de assumir o novo posto, mas é sabido que na mira estão países que buscam diversificar o portfólio de fornecedores. Já operam o Astros-2, por exemplo, a Arábia Saudita, a Malásia e a Indonésia. A Índia, onde os Batista vendem frango congelado, é um cliente potencial nesse perfil.

O DNA da Avibras sempre teve o gene exportador como dominante: a empresa ganhou fama global nos anos 1980 ao armar o Iraque de Saddam Hussein. É consensual a avaliação de que a próxima década verá um dos maiores processos de rearmamento da história, cortesia das guerras de Trump e Vladimir Putin.

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A nova etapa da empresa respeita também outro gene da companhia: o de ser um negócio privado desde seu nascimento, algo raro num setor em que a interligação com o Estado é enorme.

No Brasil, apesar de certa desconfiança inicial, os militares celebraram o acordo até por falta de recursos. Os R$ 300 milhões para impulsionar os projetos de mísseis da Avibras, anunciados no começo deste ano, já foram contingenciados em agosto.

Carregando post do X (Twitter)

Segundo um general ligado à área, a prioridade do Exército é ver o investimento feito no MTC se materializar, e para isso a Avibras precisa estar aberta. Na semana retrasada, um novo teste da campanha de certificação do míssil foi realizado com sucesso no Rio. O Brasil também opera 44 lançadores Astros-2 que precisam de manutenção.

Por fim, há o fator eleitoral. Na hipótese de Lula permanecer no cargo, há a promessa de um renovado investimento em defesa, o que parece difícil dado o cenário fiscal. Já a eventual vitória do principal rival do petista, Flávio Bolsonaro (PL), recolocaria o fator da influência externa no setor, restando saber para favorecer quem.

Folha Mercado

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Raio-X | Avibrás

  • Fundação: 1961
  • Sede: Jacareí (82 km de São Paulo)
  • Funcionários: cerca de 1.400 (pré-crise)
    Principais concorrentes: Lockheed Martin (EUA), Elbit (Israel), Hanhwa (Coreia do Sul) e Siatt (Brasil/Emirados Árabes Unidos)
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