Eleitor baiano que votou em Ciro Gomes agora apoia Augusto Cury
Em uma rua tranquila no bairro de Patamares, em Salvador, escadas levam a uma casa arborizada que serve de escritório para diferentes empresas. Ali, funciona uma produtora de vídeo, um salão de beleza e o escritório de advocacia do qual Lucas Cintra, 35, é um dos sócios.
O trabalho como advogado, contudo, ficou em segundo plano na vida de Lucas, que é solteiro e gosta de futebol —torce pelo Bahia. Ele decidiu empreender e abriu uma consultoria imobiliária, seguindo uma tradição familiar de negócios nessa área.
Lucas cresceu cercado por homens e mulheres que se dedicaram aos negócios. Seus avós vieram de Amargosa, interior da Bahia, para atuar no comércio de Salvador. Mas sua principal referência é o tio, que ascendeu como um self-made man no mercado de imóveis.
Essa trajetória da família se reflete em suas escolhas políticas. Depois de apoiar Ciro Gomes em 2018 e 2022, anulando o voto no segundo turno nas duas ocasiões, ele agora apoia o psiquiatra, escritor e empresário Augusto Cury (Avante) na disputa pela Presidência.
"É um cara que soube construir a vida no setor privado e teve sucesso. É um vendedor de livros na sua forma mais simples. Você pode questionar que é uma literatura de autoajuda, que não é interessante, eu concordo. Mas é alguém que toca em pontos importantes sobre saúde pública e saúde mental", avalia.
Lucas vem de uma trajetória de idas e vindas com a política institucional. Em 2015, quando ainda era estudante de direito, atuou no movimento estudantil e se filiou ao PSB. Assumiu o comando da juventude do partido em Salvador e passou meses tentando organizar reuniões e mobilizar outros jovens.
A experiência o deixou frustrado. Ele afirma que queria discutir os problemas da cidade, mas encontrou uma política mais voltada para cargos e votos: "Era uma conversa muito eleitoral e menos cidadã".
Nos anos seguintes, identificou-se com as candidaturas de Ciro Gomes à Presidência pelo PDT, mas não manteve relação formal com o partido. Gostava das ideias de Ciro para o país ao mesmo tempo em que rejeitava os dois lados da polarização entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL).
A escolha por Augusto Cury neste ano seguiu um caminho semelhante, de veto aos nomes de Lula e do senador Flávio Bolsonaro (PL). Mas, ao contrário da convicção com que votou em Ciro, desta vez diz não ter uma identificação integral com as ideias do candidato.
Lucas conheceu o trabalho de Cury há cerca de dez anos, quando leu "O Vendedor de Sonhos". Confessa que não gostou: "É um livro bem água com açúcar, sem graça mesmo".
Quando soube que o escritor havia entrado na disputa presidencial, achou que seria apenas um balão de ensaio. Mas passou a acompanhá-lo nas redes sociais por ver nele uma pessoa bem-intencionada e com um tom de conciliação.
"Eu nunca vi Augusto Cury ser síndico de prédio, nunca vi ele sendo testado, isso é um fato. Mas Bolsonaro também era assim, não era? O próprio Lula também", afirma.
Além dos projetos para a saúde, chamou sua atenção a proposta de Cury de reformar o STF (Supremo Tribunal Federal), com a criação de mandatos fixos para os ministros e mudanças no sistema de indicação para a corte.
Lucas diz ser favorável ao impeachment de ministros do STF que tenham cometido crimes, pauta que deve influenciar seu voto para o Senado. Na Bahia, vai escolher o ex-ministro João Roma (PL) e o senador Angelo Coronel (Republicanos), comprometidos com essa agenda.
Ao analisar os principais candidatos à Presidência, atribui a Lula uma habilidade que considera fundamental para um político: a capacidade de entender o eleitor e construir alianças. Mas critica a permanência do petista na política por tantos anos e diz que Lula deveria ter deixado a vida pública.
Também rejeita a ideia de sucessão política baseada em laços familiares, caso dos Bolsonaro. E reprova o radicalismo do ex-presidente , sua condução da crise da pandemia e as interferências em instituições como a Polícia Federal.
Eleições Hoje
Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados
Nos últimos anos, a política voltou à sua vida por outra porta, quando foi convidado a participar da Associação dos Moradores do Itaigara, bairro de classe média alta onde mora. Com o tempo, passou a fazer parte da diretoria, ajudou a organizar o estatuto e as pautas da entidade.
A associação nasceu de uma mobilização de moradores para resolver o problema de um terreno abandonado na vizinhança. Os moradores se juntaram para retirar mato e lixo e passaram a pressionar a prefeitura. O terreno acabou destinado à construção da praça Miriam Fraga.
Para ele, a experiência se aproximou da forma de participação política que procurava quando se filiou a um partido. Hoje, a associação conversa com vereadores e deputados para levar demandas do bairro ao poder público.
"Essa micropolítica pode muitas vezes ser tediosa, sem nenhum glamour. Mas eu me interesso muito porque é uma política que faz, que dialoga diretamente com as pessoas do bairro. Não é um trampolim para político."
Ao olhar para o cenário da eleição presidencial, considera difícil que Cury consiga romper a polarização entre Lula e Flávio. Mas, ao contrário das duas últimas eleições, não deve anular o voto no segundo turno desta vez.
"Se fosse hoje, viu? Se fosse hoje, mas pode mudar. No segundo, eu tendo a votar com a oposição. A história recente mostra que Lula não traz soluções que a gente precisa ter agora", afirma.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.