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Monday, September 28, 2026

World News Day 2026 alerta para o desafio de reconhecer jornalismo confiável na era da IA

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Campanha internacional destaca transparência, apuração, correções e sustentabilidade da imprensa diante do avanço da IA e da desinformação

O World News Day 2026 está chamando atenção nesta segunda-feira (28), para uma questão cada vez mais importante: como saber em que informação confiar quando notícias, opiniões, propaganda política, vídeos manipulados e conteúdos produzidos por inteligência artificial chegam ao público pelos mesmos canais e, muitas vezes, com aparência semelhante.

Neste ano, a campanha tem como mensagem:

“Conheça os fatos. Entenda o que importa. Escolha jornalismo confiável.”

O World News Day foi criado em 2018 pela Canadian Journalism Foundation (CJF) para aproximar o público do jornalismo e ampliar a compreensão sobre a importância da informação apurada e verificada.

Atualmente, é organizado pela CJF, pelo World Editors Forum, da WAN-IFRA, e pelo Project Kontinuum.

Veículos e profissionais de vários países usam o período do World News Day para publicar reportagens, artigos, vídeos e outros conteúdos sobre questões importantes para o presente e o futuro do jornalismo.

Segundo os organizadores, em 2025 mais de mil veículos, de 108 países e em 17 idiomas, participaram da campanha. Em 2026, as atividades ocorrem entre 25 de setembro e 2 de outubro, tendo o dia 28 como data principal.

A escolha de 28 de setembro não é casual. A data coincide com o Dia Internacional do Acesso Universal à Informação, das Nações Unidas.

Segundo os organizadores, as duas iniciativas partem de uma ideia comum: o direito à informação depende também de haver quem procure, confira e torne públicos os fatos.

O tema chega num momento em que também mudam as formas de consumir notícias.

O Digital News Report 2026 mostrou que 10% do público global já usa chatbots para acessar notícias, embora apenas 20% afirmem confiar nas respostas fornecidas por essas ferramentas.

De onde veio essa informação?

No texto principal da campanha deste ano, Branko Brkic, fundador do Project Kontinuum e um dos organizadores do World News Day, salienta que a informação confiável não surge pronta.

Ele lembra que antes da publicação de uma notícia há tarefas como ler documentos, encontrar fontes, conferir alegações, proteger testemunhas  e fazer perguntas.

Brkic também destaca a responsabilidade de assumir o que foi publicado e corrigir publicamente uma informação quando houver erro.

“Velocidade algorítmica não é o mesmo que verdade.”

Brkic usa a frase ao tratar de um cenário em que sistemas de inteligência artificial conseguem apresentar respostas em segundos.

Para ele, rapidez e segurança na forma de apresentar uma informação não significam que ela seja verdadeira.

O autor também ressalta que a campanha não pede ao público que confie automaticamente em qualquer veículo.

Segundo Brkic, o leitor deve observar se uma reportagem explica de onde vieram suas informações, separa notícia de opinião, admite quando algo ainda não é conhecido e corrige publicamente os erros.

Na avaliação dele, uma redação confiável não é aquela que nunca erra, mas aquela cujo processo de correção pode ser acompanhado pelo público.

Informação e jornalismo não são a mesma coisa

Brkic também faz uma distinção entre simplesmente fornecer um dado e produzir jornalismo.

Um número sobre uma enchente, uma linha de um orçamento ou o resultado de uma votação dizem que alguma coisa aconteceu. Segundo ele, cabe ao jornalismo investigar por que aconteceu, quem foi afetado e quais podem ser as consequências.

Essa diferença ganha importância à medida que cresce a quantidade de material produzido automaticamente.

Um estudo do Pew Research Center divulgado neste ano estimou que mais de um terço das páginas em inglês publicadas na internet desde a chegada do ChatGPT apresentava sinais significativos de uso de inteligência artificial na redação ou edição.

Stig Ørskov, CEO da WAN-IFRA, aborda uma questão semelhante em outro artigo publicado para o World News Day.

“A IA não produz informação confiável; ela a herda.”

Segundo Ørskov, antes que uma ferramenta possa resumir uma investigação, alguém precisa descobrir que existe uma história, procurar informações, verificá-las e publicá-las.

Ele usa como exemplo reportagens sobre a FIFA que revelaram um projeto de mudança na administração de direitos comerciais e operacionais das competições.

Ørskov argumenta que um sistema de IA não poderia ter revelado o caso porque, antes do trabalho dos jornalistas, não havia uma reportagem publicada para ser resumida.

Marcelo Rech: jornalismo também precisa ser economicamente viável

O brasileiro Marcelo Rech, jornalista e presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), está entre os autores convidados pelo World News Day deste ano.

Em seu artigo para a campanha, Rech relaciona problemas enfrentados há décadas pela imprensa na América Latina, como violência, perseguição e intimidação, a dificuldades mais recentes provocadas por mudanças nos algoritmos e pelo uso de conteúdo jornalístico para alimentar modelos de inteligência artificial.

Segundo Rech, conteúdos produzidos com trabalho de apuração são usados por empresas de IA “com quase nenhum reconhecimento”.

Ele defende que a discussão sobre liberdade de imprensa seja acompanhada de outra: a capacidade financeira dos veículos de continuar produzindo jornalismo.

“Além de livre, a imprensa também precisa ser robusta, economicamente saudável e viável no longo prazo.”

Rech afirma que empresas de tecnologia gastam grandes quantias com profissionais, programas, chips, energia e centros de dados, mas dependem também da informação produzida pelas redações.

Para ele, informação verificada, equilibrada e plural deve ser tratada como um ativo de valor e seus produtores precisam ser remunerados.

A questão já aparece em disputas entre empresas jornalísticas e plataformas.

No Reino Unido, por exemplo, a autoridade de concorrência determinou neste ano que o Google crie mecanismos para que veículos possam recusar o uso de seus conteúdos em recursos de IA sem desaparecer das buscas tradicionais.

Na avaliação de Rech, o enfraquecimento das redações também acabaria atingindo as próprias ferramentas de inteligência artificial, porque reduziria a quantidade de informação verificada disponível para esses sistemas.

IA pode resumir uma notícia, mas alguém teve de apurá-la

Phil Chetwynd, diretor global de notícias da AFP, também trata diretamente da relação entre inteligência artificial e produção de notícias em artigo publicado para o World News Day.

Chetwynd reconhece que ferramentas como ChatGPT, Claude, Gemini e Grok conseguem reunir rapidamente informações publicadas por veículos de diferentes partes do mundo.

Mas argumenta que esse material só está disponível porque alguém o produziu primeiro.

Para ilustrar o custo desse trabalho, ele cita a cobertura da AFP de uma grande enchente provocada por um colapso glacial na região entre Nepal e Tibete.

Segundo Chetwynd, a agência enviou 11 jornalistas para áreas remotas do Nepal e da Índia, enquanto outros profissionais trabalhavam na verificação das informações sobre mortos e desaparecidos.

O diretor da AFP usa o exemplo para argumentar que chegar aos fatos exige tempo, dinheiro, conhecimento do local, fontes e profissionais em campo.

Segundo Chetwynd, a AFP também mantém mais de 100 jornalistas dedicados à verificação de informações e à identificação de conteúdos falsos ou manipulados.

O problema não se limita a respostas incorretas fornecidas por ferramentas de IA.

Uma investigação divulgada pela própria Anthropic neste mês, por exemplo, mostrou o uso do Claude para produzir sites de desinformação, criar textos e reescrever reportagens verdadeiras de acordo com o público que se pretendia atingir.

Como saber em que informação confiar?

A mensagem apresentada pelo World News Day de 2026 propõe que o público observe alguns sinais antes de confiar numa informação ou compartilhá-la.

Um deles é a origem. Segundo Brkic, o leitor deve procurar saber se a reportagem mostra de onde vieram seus dados e se apresenta fontes, documentos ou outras evidências para sustentar o que está sendo publicado.

Outro é a separação entre notícia e opinião. O autor recomenda observar se o veículo deixa clara a diferença entre fatos apurados e avaliações ou comentários.

Brkic também considera importante que jornalistas e veículos reconheçam quando uma informação ainda não foi confirmada, em vez de apresentar como certeza aquilo que ainda não pode ser comprovado.

E há a correção. Segundo o texto oficial da campanha, cometer um erro não torna automaticamente uma redação não confiável; o que deve ser observado é se ela reconhece e corrige publicamente a informação.

Onde está a notícia?

A discussão sobre confiança ganhou importância também porque o público encontra notícias cada vez mais fora dos sites dos veículos.

O relatório anual do Instituto Reuters sobre consumo de notícias apontou neste ano queda da confiança no noticiário e aumento do uso de redes sociais, vídeos e ferramentas de IA para buscar informação.

Para Brkic, o World News Day não pretende dizer ao público que aceite uma informação simplesmente porque ela foi publicada por uma empresa jornalística. O organizador afirma que a confiança precisa ser conquistada e renovada a cada reportagem.

A mensagem deste ano é que, diante de uma informação apresentada rapidamente e com aparência de certeza, vale perguntar o que aconteceu antes de ela chegar à tela: quem encontrou os fatos, de onde vieram, como foram conferidos e quem assume a responsabilidade pelo que está sendo publicado.

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