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Monday, September 14, 2026

Adversário do Flamengo, como o Independiente Del Valle revolucionou o futebol sul-americano

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Em 2006, o Independiente del Valle disputava os gramados modestos da terceira divisão do Equador. Duas décadas depois, o clube de Sangolquí é apontado por analistas internacionais como o projeto esportivo de maior sucesso e crescimento exponencial na América do Sul neste século.

Sem a torcida massiva de Barcelona de Guayaquil ou LDU, e sem os orçamentos bilionários dos clubes brasileiros, os Negriazules, como são chamados, construíram uma hegemonia sustentável baseada em três pilares fundamentais: infraestrutura de ponta, captação científica de talentos e responsabilidade financeira.

A virada de chave foi a gestão empresarial. A história do clube mudou radicalmente em 2007, quando um grupo de empresários liderado por Michel Deller adquiriu a instituição. Diferente do modelo associativo tradicional da maioria dos clubes sul-americanos, o Del Valle passou a ser gerido como uma empresa de alta performance.

Nos últimos anos, o clube construiu um centro de treinamento moderno e o Estádio Banco Guayaquil, focou totalmente na venda sustentável de atletas para reinvestimento no próprio clube, e profissionalizou seus departamentos, com tomadas de decisão baseadas em dados e processos, blindando o departamento futebolístico de pressões políticas.

“O Independiente del Valle é um exemplo muito interessante porque conseguiu construir um modelo em que as decisões esportivas estão conectadas a uma visão institucional de longo prazo. Existe investimento em formação, infraestrutura, metodologia e identificação de talentos, mas principalmente continuidade. O clube forma jogadores, desenvolve, utiliza no profissional, negocia e consegue reinvestir parte desses recursos no próprio processo. Isso cria um ciclo sustentável e reduz a dependência de receitas extraordinárias ou de investimentos incompatíveis com a realidade da instituição”, afirma Rui Costa, diretor executivo de futebol, com passagens por São Paulo, Grêmio, Atlético-MG, Chapecoense e Athletico-PR.

Sucesso nas categorias de base

O coração do sucesso do Independiente Del Valle está na sua categoria de base, conhecida como IdV Academy. O clube não busca apenas formar jogadores, mas adota um modelo holístico de desenvolvimento. Por exemplo, mantém uma escola própria dentro do CT, garantindo que 100% dos jovens atletas estudem; possui uma estrutura completa de saúde mental e física para os jovens de regiões vulneráveis do Equador, e segue uma metodologia europeia na ontratação de profissionais estrangeiros (especialmente espanhóis) para unificar o estilo de jogo desde o sub-12 até o profissional.

“Esse domínio reflete uma assimetria financeira e estrutural cada vez maior. No Brasil, o profissionalismo e a chegada das SAFs e de novas receitas geraram um patamar econômico distante do restante, já a Argentina compensa seus problemas econômicos com uma fábrica inesgotável de talentos. A expansão dos torneios a partir de 2017 premiou a profundidade dos elencos, ou seja, quem arrecada mais investe melhor e chega mais longe. Para os outros países, encurtar essa distância vai exigir reestruturação de gestão e novos modelos de investimento", comenta Pedro Weber, especialista em negócios do esporte e CEO da NextPlay, empresa da Chenus Holdings que está em processo de aquisição do Paraná Clube.

Os resultados dessa engrenagem são bilionários. Jogadores como Moises Caicedo (comprado pelo Chelsea por mais de 100 milhões de libras), Piero Hincapié (pilar do Bayer Leverkusen) e o fenômeno Kendry Páes foram moldados inteiramente nesta estrutura, gerando receitas que financiam o topo da pirâmide.

Boa gestão com resultados

Dentro de campo, o reflexo desta boa gestão foi automático. O crescimento institucional foi acompanhado por uma avalanche de resultados expressivos no cenário profissional, fazendo com que a equipe deixasse de ser uma surpresa para se tornar um competidor temido no continente: foi vice-campeão da Libertadores em 2016, eliminando River Plate e Boca Juniors, Bicampeão da Copa Sul-Americana (2019 e 2022), campeão da Recopa Sul-Americana sobre o Flamengo, em pleno Maracanã (2023), dois títulos do Campeonato Equatoriano, 1 Copa do Equador e 2 Supercopa do Equador. Também foram 17 participações na 1ª divisão, sem nunca cair, e 12 participações na Libertadores.

“O clube construiu uma estrutura para formação, desenvolvimento de talentos, com disciplina financeira e reinvestimento das receitas geradas pelos próprios atletas. É um modelo que mostra como planejamento e consistência podem criar um ciclo sustentável, em que a formação de jogadores de base alimenta tanto o clube desportivamente como o mercado, os prêmios e as vendas ao mercado financiam a estrutura e essa estrutura volta a gerar competitividade esportiva e mais ganhos financeiros,” avalia Moises Assayag, especialista em finanças no futebol e sócio-diretor da Channel Associados.

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