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Saturday, August 22, 2026

Cinemas ampliam uso de filmes mais curtos e antigos para alcançar a Cota de Tela

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Grandes redes de cinema do país estão concentrando sessões de filmes nacionais de curta duração, lançados originalmente há mais de dois meses, em horários em que há baixa procura, antes das 14h.

O caso se assemelha àquele da Cinemark, que há quatro meses exibia a animação "Zuzubalândia" mais de cem vezes ao dia para cumprir metas estabelecidas pela Cota de Tela, mecanismo que obriga exibidoras a reservar parte de sua grade a produções brasileiras.

Entre os títulos usados agora estão novamente filmes destinados ao público infantojuvenil, como "Authentic Games: No Império Desconectado", do youtuber Marco Túlio, já disponível no streaming. Sua estreia nas salas foi em maio, mas na última semana cinematográfica, entre os dias 13 e 19 de agosto, ele somava 21 sessões diárias nos cinemas da Cinépolis na Grande São Paulo, além de 3 na Cinesystem e 3 na Kinoplex.

A reportagem visitou algumas dessas sessões e constatou que elas estavam sem espectadores. Em alguns casos, os projetores não estavam ligados e as bilheterias não funcionavam. Funcionários das redes chegaram a dizer, após serem questionados sobre a baixa procura, que as sessões haviam sido programadas apenas para cumprir a Cota de Tela.

Procurada pela reportagem, a produtora Authentic Games afirma que a distribuição do longa é de responsabilidade da Imagem Filmes. Já a empresa afirma que a programação das salas é decidida pelas exibidoras.

A Kinoplex diz, por meio de sua assessoria de imprensa, que filmes infantis voltam à programação em horários compatíveis com o perfil de consumo desse público, e que a grade de programação é ajustada de acordo com a procura dos espectadores.

A Cinépolis, por sua vez, afirma que está reexibindo filmes nacionais lançados no primeiro semestre para abrir mais sessões a grandes lançamentos internacionais —em julho, entraram no circuito "A Odisseia" e "Homem-Aranha: Um Novo Dia". A Cota de Tela exige que redes com mais de 200 salas dediquem, no mínimo, 16% de suas sessões a produções brasileiras.

Valdinei Strapasson, gerente de programação da Cinesystem, diz que a rede ampliou o horário de funcionamento devido à demanda do público por blockbusters internacionais, e que os filmes brasileiros não são exibidos exclusivamente no horário da manhã. "A gente acredita no potencial da matinê como mais um caminho para ampliar o acesso à cultura e ao entretenimento. Por isso, mantemos promoções voltadas a quem vai ao cinema nesse período", afirma.

Nenhuma das redes explicou, porém, o porquê de lançamentos nacionais mais recentes não serem usados para isso, no lugar de outros mais antigos. Na semana entre 13 e 19 de agosto, por exemplo, "Futuro Futuro" e "A Fabulosa Máquina do Tempo", longas que rodaram festivais estrangeiros de prestígio, não tinham sessões programadas nessas redes.

Já a Cinemark, maior rede do país, segue com a estratégia, embora de maneira mais discreta do que quando exibia "Zuzubalândia" centenas de vezes ao dia. Procurada, a rede não se manifestou até a publicação desta matéria.

As exibições de "Authentic Games" se concentram nas manhãs de dias de semana, antes das 14h, período de baixo movimento nos cinemas. Com 71 minutos de duração, o filme tem apenas um minuto a mais do que o tempo definido pela Ancine, a Agência Nacional do Cinema, para classificar uma obra como longa-metragem e, portanto, se tornar elegível para cumprir a Cota de Tela.

Também foram programados, na mesma faixa horária, outros curtas de curta duração, como "Maurício de Sousa: O Filme", "O Diário de Pilar na Amazônia" e "O Gênio do Crime", lançados em outubro do ano passado, em janeiro e em maio deste ano, respectivamente. Todos já estão disponíveis no streaming —tradicionalmente, os filmes cumprem temporada de até 45 dias nas salas de cinema. Também aparecem "Cansei de Ser Nerd" e "Máfia de Pelúcia".

A estratégia não infringe as regras estabelecidas pela Ancine, mas explora uma brecha na Cota de Tela, criticada por vários nomes do setor. Em nota, a agência diz que não há irregularidade na estratégia, já que a lei incentiva, mas não obriga as redes a programar títulos nacionais em horários nobres, no fim da tarde e à noite.

A Ancine admite, porém, que a brecha pode despir a política de seu objetivo de fomento e formação de público. O tema será analisado na Avaliação de Resultado Regulatório prevista para este ano e que pode levar a mudanças na lei em 2027.

Neste ano, foram programadas, ao todo, 37.504 sessões de "Authentic Games" nos cinemas de todo o país, segundo dados da Ancine. Elas foram vistas por 65.410 pessoas, numa média de 1,74 espectador por exibição. A nível de comparação, "Futuro Futuro", de Davi Pretto, teve uma média de 12,1 espectadores por sessão, mesmo com o número reduzido de salas.

Uma unidade da Cinépolis em São Bernardo do Campo programou, no período de visitas da reportagem, seis sessões simultâneas de "Authentic Games", todas ao meio-dia. Ao constatarem a venda de um único ingresso, os funcionários correram para ligar o projetor de uma das salas. As outras continuaram com a tela apagada.

Dez minutos antes de a sessão começar, a lona na fachada do cinema estava parcialmente baixa e as luzes do saguão, apagadas. Funcionários afirmaram à reportagem que o filme é programado no começo do dia para alcançar as metas da Cota de Tela sem atrapalhar a programação tida como "nobre", dominada por blockbusters hollywoodianos, mais tarde.

Algo semelhante aconteceu em sessão de "O Gênio do Crime", às 11h, em unidade da Cinesystem. O projetor da sala estava desligado e funcionários que limpavam o local ficaram confusos ao saber que havia uma sessão programada naquele horário. Só depois de algum tempo o projetor foi ligado.

Dos 18 filmes nacionais que estrearam entre 2 de julho e 19 de agosto, sete têm sessões nas maiores redes do país, concentradas antes das 14h. Todos os outros longas são independentes e, em sua maioria, são obras documentais, gênero fértil no audiovisual brasileiro.

Distribuidoras de pequeno e médio porte ouvidas pela reportagem afirmam que as grandes redes de cinema raramente incluem seus filmes na programação. "Os cinemas de shopping não se interessam", diz Daniel Queiroz, fundador da Embaúba Filmes, que distribuiu "Marte Um", de Gabriel Martins, há quatro anos.

O longa só foi incluído na programação das grandes redes após ser escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil no Oscar, mais de duas semanas após sua estreia no circuito, ele lembra.

É difícil dizer por que as grandes redes optam por reciclar filmes que já estrearam. Para Leticia Santinon, fundadora da Cajuína Audiovisual, distribuidora de "Futuro Futuro", a reexibição de filmes nacionais infantis pela manhã, como ocorre com "Authentic Games", permite que as redes cumpram a Cota de Tela sem precisar negociar com as distribuidoras de filmes independentes os horários mais disputados.

"Como o filme já estreou, o que vier é lucro. A distribuidora não vai se opor, e eles não precisam justificar por que não estão exibindo o filme em um horário tradicional", diz. Segundo ela, sessões matinais de divulgação discreta dificultam ainda mais o acesso do cinema independente ao público.

Para Queiroz, a estratégia é fruto da despreocupação em incentivar o público a consumir filmes brasileiros, mas faz uma ponderação. "[Os exibidores] não são vilões. Sabemos que existe uma questão de demanda de mercado, e esses títulos costumam performar menos do que os filmes internacionais."

"Não há trabalho [de formação de público] sendo feito para atrair o espectador. O desempenho dos nossos filmes permanece idêntico a como era quando não tínhamos Cota de Tela", acrescenta ainda Ibirá Machado, fundador da Descoloniza Filmes, que distribui "A Fabulosa Máquina do Tempo".

Para ele, a política seria mais efetiva se os exibidores recebessem incentivos financeiros para programar filmes independentes autorais, como ocorre na França, combinados a campanhas mais robustas de formação de público.

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