Saúde, casa própria e respeito: o que os brasileiros 70+ sonham para o país
Ter acesso à saúde de qualidade, conquistar a casa própria, receber uma aposentadoria digna e envelhecer sem enfrentar preconceito. Em meio à polarização política, são essas algumas das prioridades apontadas por brasileiros com 70 anos ou mais quando questionados sobre o país em que gostariam de viver.
As reivindicações aparecem na enquete "O Brasil que os 70+ sonham", conduzida pelo hub de dados Data8 para o Movimento Voto 70+, iniciativa apartidária da sociedade civil que busca ampliar a participação política dessa população.
O levantamento contabilizou 18.622 participações, entre respostas a questionários, depoimentos espontâneos e assinaturas de petições eletrônicas. Na análise temática, a desigualdade social concentrou 35% das referências classificadas, seguida pelo etarismo, discriminação motivada pela idade, e pelos direitos das pessoas idosas, com 25%. Corrupção e polarização política responderam por 20%.
Os resultados mostram que, embora as disputas políticas façam parte das preocupações dos participantes, demandas relacionadas às condições materiais de vida ocupam espaço relevante, especialmente nas manifestações espontâneas.
No formulário aberto, por exemplo, mais de 90% das 159 mensagens válidas não mencionaram diretamente políticos ou partidos. Os participantes concentraram suas respostas em necessidades como saúde, moradia, aposentadoria e respeito.
O levantamento ocorre em um contexto de mudanças na participação eleitoral dos brasileiros mais velhos. Segundo os dados fornecidos pelo movimento, a taxa de abstenção entre os eleitores com 70 anos ou mais caiu de 58,86% em 2022 para 49,19% no primeiro turno de 2026, uma redução de 9,67 pontos percentuais.
O que os mais velhos esperam do futuro?
Para reunir as percepções dos participantes, o Movimento Voto 70+ utilizou diferentes canais digitais, incluindo um bot, ferramenta automatizada de conversação, formulários e petições eletrônicas.
Do total de 18.622 participações contabilizadas, 3.535 correspondem a respostas a questionários fechados, 159 a depoimentos espontâneos e 14.928 a assinaturas de petições. Separadamente, o canal de conversação registrou 1.508 cadastros e 814 manifestações sobre o futuro desejado para o Brasil.
A análise quantitativa e qualitativa identificou preocupações com sustentabilidade, políticas públicas, combate à corrupção, mobilidade urbana e desigualdades sociais. Também apareceram reivindicações por autonomia e oportunidades de participação na vida coletiva.
Segundo Cléa Klouri, líder do Movimento Voto 70+ e uma das coordenadoras do mapeamento, os resultados evidenciam como o envelhecimento está relacionado ao acesso a direitos e às desigualdades sociais.
"São demandas que revelam como o envelhecimento ainda é atravessado por desigualdades e pelo sentimento de invisibilidade social. O levantamento mostra que essa geração tem muito a dizer sobre o futuro do país e quer participar das decisões que afetam não apenas a sua vida, mas também a das próximas gerações", afirma.
As palavras utilizadas pelos participantes também ajudam a compreender essas prioridades.
Nas 159 manifestações espontâneas, "saúde" e "casa" apareceram 19 vezes cada, enquanto "viajar" e "respeito" tiveram 11 registros. Igualdade e liberdade foram mencionadas dez vezes cada.
A combinação entre necessidades básicas e desejos pessoais indica que as expectativas sobre o envelhecimento não se restringem à sobrevivência financeira. Também envolvem autonomia, lazer e reconhecimento social.
"A combinação dessas palavras permite identificar dois campos semânticos. O primeiro está relacionado ao cuidado e à sobrevivência, reunindo saúde, moradia, aposentadoria e alimentação. O segundo envolve justiça e instituições, com referências à corrupção, à política, às leis e às disputas ideológicas", explica Adriana de Queiroz, uma das pesquisadoras responsáveis pelo mapeamento.
Polarização política aparece de formas diferentes nas respostas
Embora a desigualdade social tenha liderado as preocupações classificadas, a enquete também identificou diferenças no discurso político dos participantes.
Entre as manifestações associadas à esquerda, aparecem referências a direitos trabalhistas, feminismo e justiça social. Já nas respostas vinculadas à direita, o combate à corrupção e as críticas ao governo ganharam destaque.
Um terceiro grupo reúne participantes que manifestaram desconfiança em relação ao sistema político e questionaram a permanência dos mesmos representantes no poder.
Essas diferenças foram mais evidentes no canal de conversação automatizada, em que "Brasil", "sonho" e "saúde" apareceram entre as palavras mais frequentes.
No formulário aberto, por outro lado, prevaleceram referências às condições cotidianas de vida, com poucas menções diretas a políticos ou partidos.
A análise de sentimentos também mostrou contrastes entre os canais. No bot, 55% das manifestações foram classificadas como negativas ou indignadas, 30% como positivas ou esperançosas e 15% como mistas ou neutras.
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No formulário aberto, a relação se inverteu: aproximadamente 60% das respostas expressaram esperança, enquanto 25% foram consideradas neutras ou diretas e 15%, negativas ou indignadas.
Os resultados sugerem que o formato de coleta e o perfil de quem responde podem influenciar tanto os temas mencionados quanto o tom das manifestações.
Entre os depoimentos negativos, aparecem críticas à precariedade dos serviços públicos, à corrupção e ao sentimento de abandono social. Também foram identificados relatos de pessoas que percebem uma perda de espaço nas decisões familiares e na sociedade conforme envelhecem.
O levantamento também identificou diferenças entre as preocupações expressas por moradores de áreas urbanas e rurais.
Nas cidades, as reivindicações incluem mobilidade, acesso às tecnologias digitais e oportunidades de convivência. Nas áreas rurais, surgem dificuldades de acesso aos serviços públicos, burocracia e condições de subsistência.
As próprias formas de resposta também revelaram obstáculos à participação digital. Parte das mensagens apresentava dificuldades de digitação, frases incompletas e características de textos produzidos por reconhecimento de voz.
Para as pesquisadoras, esses registros apontam possíveis barreiras de letramento digital, isto é, dificuldades para utilizar ferramentas e serviços tecnológicos, que podem restringir a participação de pessoas mais velhas em consultas realizadas exclusivamente pela internet.
O recorte político ganha relevância diante da evolução do comparecimento eleitoral dessa população.
Entre as eleições de 2022 e 2026, a abstenção dos brasileiros com 70 anos ou mais passou de 58,86% para 49,19%, segundo os números apresentados pelo movimento.
| Taxa de abstenção eleitoral dos 70+* | |
| 2022 | 2026 |
| 58,86% | 49,19% |
*Queda de 9,67 pontos percentuais
Apesar da redução, quase metade dos eleitores dessa faixa etária continuou sem comparecer às urnas, de acordo com os percentuais apresentados.
Força dos 70+ nas urnas
O Movimento Voto 70+ atua justamente para ampliar a presença dessa população no processo democrático. Liderada pelo Data8, a iniciativa reúne empresas, instituições e organizações da sociedade civil para desenvolver pesquisas, campanhas e ações de mobilização eleitoral.
Entre suas frentes estão a identificação de barreiras ao exercício do voto e a produção de informações sobre o comportamento político dos brasileiros mais velhos.
Os resultados da enquete, por sua vez, mostram que a participação política desejada por parte dos respondentes vai além das eleições. Entre as reivindicações estão o reconhecimento da população idosa nas decisões coletivas, a preservação da autonomia e a ampliação do acesso a direitos sociais.
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