O problema de María Corina não é Delcy

O regresso de María Corina Machado à Venezuela levanta uma pergunta incómoda: basta
ter apoio popular para conquistar o poder? A história sugere que não. Na política, o apoio
social é um recurso fundamental, mas transformá-lo em poder efetivo exige organização,
estratégia e, acima de tudo, audácia.
Charles de Gaulle oferece um primeiro exemplo. Após a derrota da França em 1940, a
ocupação alemã e a colaboração do regime de Vichy com o ocupante, De Gaulle recusou-se
a aceitar que o seu país ficasse relegado ao papel de uma nação derrotada. Embora o
esforço militar decisivo para derrotar a Alemanha tenha cabido sobretudo à União
Soviética, aos Estados Unidos e ao Reino Unido, conseguiu reivindicar a continuidade do
Estado francês e contribuir para que a França se sentasse à mesa dos vencedores e
participasse na reorganização do pós-guerra. Não foi obra exclusiva de um homem, mas foi
também o resultado da ação de um dirigente que se recusou a aceitar como definitiva a
posição de fragilidade do seu país.
Lenine representa outra forma de audácia. Os bolcheviques não protagonizaram a
Revolução de Fevereiro de 1917, que derrubou o czar. No entanto, Lenine compreendeu
que a queda da monarquia não tinha resolvido a questão de quem exerceria o poder.
Através da organização, da estratégia política e do aproveitamento da crise do Governo
Provisório, os bolcheviques conseguiram transformar uma revolução que não tinham
iniciado numa oportunidade para conquistar o poder.
Os seus projetos políticos eram radicalmente diferentes, mas ambos os casos ilustram a
mesma lição: os dirigentes audazes não se limitam a reivindicar as suas aspirações, nem
ficam à espera que as circunstâncias lhes sejam favoráveis. Procuram transformá-las.
É aqui que surge o problema de María Corina Machado. O seu apoio popular constitui um
capital político considerável, mas não se traduz automaticamente em controlo institucional
nem em capacidade negocial. Delcy Rodríguez conserva o aparelho de Estado e,
paradoxalmente, mantém uma relação funcional com Washington que Machado não parece
ter conseguido transformar num apoio equivalente ao seu projeto político.
O regresso de Machado poderia ter sido uma oportunidade para alterar esta situação. No
entanto, se Delcy Rodríguez e os Estados Unidos conseguirem apresentá-lo como resultado
das negociações que conduzem, e não como uma iniciativa capaz de impor novas
condições, Machado corre o risco de ficar subordinada a uma dinâmica política controlada
por outros.
Não precisava de imitar De Gaulle nem Lenine. Precisava de demonstrar que era capaz de
tomar a iniciativa: avançar com uma proposta audaciosa, mobilizar apoiantes em torno de
objetivos claros ou, talvez, promover um referendo que obrigasse os restantes atores a
tomar posição. Nenhuma destas opções garantiria o sucesso, mas permitiria tentar
transformar o apoio popular numa capacidade efetiva de pressão.
A audácia não é temeridade, nem garante a vitória. Consiste em reconhecer uma
oportunidade e agir para alterar a correlação de forças antes que outros a eliminem.
A fortuna favorece os audazes. De Gaulle compreendeu-o quando a França parecia
condenada a ser uma potência derrotada; Lenine, quando percebeu que a revolução poderia
passar-lhe ao lado se os bolcheviques não agissem. Nenhum deles tinha o sucesso
garantido, mas ambos compreenderam que as oportunidades históricas não esperam
indefinidamente.
O comboio da história passa poucas vezes. María Corina regressou à Venezuela, mas
regressa com algo de novo para oferecer aos venezuelanos? A audácia não consiste apenas
em disputar o poder, mas também em ousar propor soluções para os problemas que outros
preferem evitar. Porque não basta apanhar o comboio da história: é preciso saber para onde
o levar. E essa oportunidade talvez não volte a surgir.
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