Literatura erótica na Bienal do Livro incendeia polêmica com personagens sensuais
O erotismo vem ocupando os estandes, a programação e as conversas da Bienal do Livro de São Paulo. Nesta edição, homens mascarados e modelos que personificam personagens puseram os chamados "dark romances" no centro de uma discussão inflamada nas redes sociais.
Desde o domingo (6), imagens gravadas no estande da editora Fruto Proibido circulam nas redes com homens usando máscaras de Ghostface —personagem da franquia "Pânico"— em interações de conotação sexual com visitantes, em sua maioria mulheres jovens.
A Folha conversou com um desses mascarados. Matheus de Andrade, de 22 anos, usava uma máscara de aparência desgastada e aparece em registros segurando visitantes no colo e simulando enforcá-las. Ele reforça, no entanto, não ser o Ghostface que beijou visitantes.
Andrade diz usar a máscara por hobby e afirma que foi ao evento por conta própria, sem convite de nenhuma editora. "Devido a essa repercussão que saiu do controle sobre o Ghostface de máscara branca, estão me confundindo com ele e me atacando, por isso não retornei ao evento", diz.
A identidade do outro mascarado não foi confirmada pela reportagem. A Fruto Proibido diz não ter contratado o ator.
Os Ghostfaces não foram os únicos mascarados no evento. Um grupo de quatro homens circulou pela Bienal usando máscaras estilizadas de caveiras em referência a "Devil's Night", série da escritora americana Penelope Douglas. A autora não participa da Bienal, mas sua editora, The Gift Box, está no evento.
Segundo Solange Arten, gerente de marketing e relacionamento da editora, esses homens não têm nenhuma relação com a empresa e só foram autorizados a entrar no estande depois de tirarem as máscaras. Eles usavam crachás com os nomes dos personagens que representavam e a identificação de "influenciador".
The Gift Box, definida como uma editora para maiores de 18 anos, mantém uma política mais restritiva para menores. Crianças e adolescentes desacompanhados não podem entrar no estande e há um segurança na porta para controlar o acesso.
Já na Qualis, editora voltada a literatura jovem adulta, mas que também publica romances eróticos, a equipe é orientada a intervir quando identifica um menor interessado em um livro inadequado para sua faixa etária. A editora Simone Fraga diz que já recusou vendas para crianças.
Na Unicorn Books, que publica autoras de romances eróticos que se destacam na Amazon, os cuidados começam pela exposição dos livros. Os exemplares são mantidos lacrados e as vendas são proibidas para menores de 14 anos.
O editor-assistente da casa, Pedro Gonçalves, diz que o episódio da Fruto Proibido repercute em todo o mercado. "Para a comunidade do romance adulto é mais danoso do que bom, porque generaliza. E isso faz com que a galera mais conservadora volte a pegar no nosso pé."
Na Ler Editorial, títulos infantis ficam separados do que a editora classifica como "romances femininos". A sócia-fundadora Cátia Mourão chama atenção para a necessidade de diferenciar literatura erótica de pornografia. Para ela, o episódio na Fruto Proibido prejudica o longo trabalho para construir essa distinção. "Literatura erótica tem o seu valor, e a gente trabalha para que o público entenda isso", afirma.
Todas as empresas ouvidas pela reportagem dizem que suas medidas de classificação e controle etário foram definidas internamente, sem orientação ou exigência da Bienal do Livro. O evento, no entanto, notificou a Fruto Proibido após o episódio do Ghostface.
Os estandes com livros de conteúdo adulto estão espalhados pelo Distrito Anhembi, com boa parte se concentrando num corredor ao fundo. Procuradas, a Bienal e a editora não quiseram se pronunciar para esta reportagem.
No site oficial, a Bienal se define como um evento que reúne "fãs de literatura de todas as idades". Em nota enviada na quarta-feira, afirmou não compactuar "com condutas ou ações inadequadas dirigidas ao público" e que "reafirma seu compromisso com a manutenção de um ambiente seguro, respeitoso e acolhedor para todos os visitantes, expositores, autores, profissionais e demais participantes do evento".
Em uma nota publicada no Instagram, a editora Fruto Proibido afirmou que "não contratou, convidou ou solicitou a presença" dos homens mascarados e que não endossa nenhuma de suas atitudes. As cenas, porém, foram registradas dentro do estande da editora, que também compartilhou em suas redes oficiais imagens dos dois homens.
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Pelo palco principal da Bienal, passaram duas mesas voltadas ao "dark romance", literatura erótica que flerta com episódios de violência.
Na segunda-feira (7), autoras do gênero participaram de uma conversa sobre suas obras que se seguiram a duas mesas voltadas ao público infantil. Enquanto Zoe X, Lola Belluci e Nàna Páuvoli discutiam seus livros, crianças ainda aguardavam em uma fila ao lado do palco para conseguir autógrafos dos autores presentes nas atrações anteriores.
Zoe X, publicada pela Faro Editorial, é uma das autoras de maior destaque do gênero e ela também usa uma máscara escondendo a própria identidade, de forma parecida com os Ghostfaces que dominam essa edição.
A circulação de cosplays e pessoas fantasiadas não é uma novidade, mas vem chamando cada vez mais atenção pela forma como os limites entre o real e a ficção tem se confundido.
Em 2024, o "face claim" –prática popular nas redes que consiste em usar uma pessoa real para representar a aparência visual de um personagem– ganhou proporções inéditas com a autora de obras eróticas Kelly M.
A autora da Fruto Proibido foi à Bienal acompanhada do modelo austríaco Erand Arifi, que representava um personagem de seu "Desenfreados" como um avatar. O mesmo personagem aparece em uma ilustração dentro do livro usando uma máscara de Ghostface.
Neste ano, além do retorno de Kelly e Arifi –dessa vez na programação principal–, a autora Claudia Pereira foi ao estande da editora Cabana Vermelha acompanhada do tiktoker alemão Kenan Duman, que posa para a capa de seu livro "Até que Seja Minha", e a autora Bruna Pallazzo foi ao estande da Fruto Proibido com o ator espanhol Marià Casals, avatar de seu novo livro, "Envenenados".
Tanto Duman quanto Casals usavam crachás oficiais do evento com seus nomes e a editora que os convidou indicados. Para Maria Alexandra Gonzaga, autora da Cabana Vermelha que assina como Mary Ally G., é preciso diferenciar os avatares dos homens mascarados. Ela considera o episódio na Fruto Proibido desrespeitoso.
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