O demônio do meio-dia e meia
Todos estavam me mandando o vídeo do Porchat sobre Lagoinha e Master, mas eu clicava no link e não abria. Entendi que o episódio havia sido momentaneamente censurado.
Tenho um Instagram reservado para amigos e jornalistas que me interessam. O perfil aberto uso para divulgar trabalhos e quem cuida das postagens é uma empresa de mídia social. Estou há meses longe dessa desgraça, assim como estou há anos longe do antigo Twitter.
Contudo, eu queria muito ver o tal vídeo do Porchat, e a internet, naquele momento funesto, só me oferecia cortes advindos do Instagram. Era tarde demais.
Fiquei fascinada pelo que aconteceu a seguir. Existe um ser humano cujo nome não tolero ouvir. Muito menos ver a sua cara presunçosa e estatelada. O fulano está devidamente bloqueado, o que não impede (muito pelo contrário: estimula!) o algoritmo do Instagram de celebrá-lo compulsivamente para mim. Vai lá! Sente raiva, sente! Vai! Arruma briga! Se fortaleça desse líquido azedo e macabro produzido dentro do seu fígado. Arrume confusão! Vai deixar quieto? Vai deixar barato?
Sou descendente de mulheres que promoviam a La Tomatina quando se sentiam roubadas na feira ou no supermercado. Sou descendente de uma bisavó que ao se ver abandonada e grávida em uma cidade rural portuguesa quadruplicou as horas de trabalho no parreiral para se meter no porão de um navio e vir ao Brasil tomar satisfações. Vai agora fazer a fina? Brigue! Brigue!
Eu já fiz minha lição de casa, conheço os livros "A Geração Ansiosa" e "A Máquina do Caos", e sei bem o que o Instagram estava fazendo comigo. A gente entra lá, achando que vai encontrar fotos das amigas com seus bebês ou qualquer vídeo do Xamã (como é gostoso), mas encontra a dica "quer ser novamente amiga dessa pessoa falsa e detestável?". Me sinto convidada a ter o comportamento de um cachorro cujo cérebro foi infectado por Lyssavirus.
Na sequência, o Instagram me entrega mais pérolas de fomento ao desgosto. Meu último livro "A Boba da Corte" nasceu do anseio peculiar em acabar com a minha vida social e me expor ao máximo do ridículo. Vejam como fui escrota aqui com meus pais! Vejam como fui dinheirista e péssima! Esta é a ideia do livro. O que fazem alguns geniais jovens resenhistas em seus vídeos? Eles leem o livro e, em tom de descoberta excepcional, me acusam (ou acusam a personagem) do que eu mesma, antecipada, desbragada e livremente, já explanei ao longo do texto. Não percebem que ao me xingar estão me plagiando. E seus 12 seguidores aplaudem: "Vamos acabar com ela! Vamos dizer verdades!".
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Na sequência vejo uma feminista criticando um texto recente, dizendo que a maneira como eu falo de sexo não pega bem para uma mulher. Quando isolados, vídeos desse tipo me causam curiosidade e compaixão (quase sempre são pessoas que estudaram mais do que eu para acabarem resenhando as minhas besteiras), porém, a soma infinita deles pode azedar minha tarde.
Eu só queria ver o vídeo do Porchat, os bebês das amigas e o Xamã (como é gostoso). Mas caí na ratoeira e em sua expectativa singela de que eu me torne uma assassina.
Terminei o dia sendo benzida pela minha mãe de santo. Oxalá quem guia. Oxalá quem te mandou. Paz e proteção. Desejo tudo de melhor pra vocês, seus imbecis. É uma luta diária, mas essa é a revolução: a fé e a paz de espírito precisam ser maiores que o Mark Zuckerberg. Nem sempre dá certo: daí escrevo uma coluna.
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