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Sunday, November 8, 2026

Indústria de motos no Brasil ganha impulso com delivery e deve registrar melhor ano da história

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São Paulo O mercado de motocicletas traciona rápido. Em 2026, a previsão é que 2,35 milhões de motos sejam comercializadas no país, renovando o recorde obtido no ano anterior, quando 2,19 milhões de unidades foram emplacadas.

Antes disso, o maior volume anual de vendas havia sido em 2011, com 1,9 milhão de veículos produzidos. Já a produção esperada para o ano é de 2,1 milhões de motocicletas, igualando números de 2008 e 2011, segundo dados da Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), entidade que representa essa indústria.

O setor evoluiu, sobretudo, na esteira da ascensão dos aplicativos de entrega e de mobilidade, que trouxeram novas formas de trabalho para quem encontrava barreiras no mercado formal na última década.

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A baixa burocracia para o financiamento das motos, com consórcios representando um terço das vendas desse mercado, e a extinção dos chamados carros populares, com modelos de entrada hoje a um custo acima de R$ 70 mil, também são fatores que levaram à proliferação das motos nas ruas do país nos últimos anos.

Vários trabalhadores uniformizados operam em linha de montagem de motocicletas em fábrica. Eles ajustam peças e componentes enquanto as motos avançam pela linha de produção, com caixas amarelas organizando materiais ao redor.
Funcionários na linha de montagem de motocicletas modelo Hunter 350cc da marca Royal Enfield na fábrica Watts, em Manaus. - Michael Dantas - 6.nov.26/Folhapress

Enquanto setores da indústria ligam alerta para a perda da competitividade, o mercado de motos reforça a aposta no país. Um exemplo disso veio na quinta-feira (5), quando a Honda anunciou um investimento de R$ 3,3 bilhões para a produção de motocicletas no país até 2030.

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O aporte será usado para a ampliação da capacidade de produção anual da fábrica da empresa em Manaus de 1,6 milhão para 2,3 milhões de unidades em 2029. Também serão criados 2.000 postos de trabalho.

A Honda lidera esse mercado, segundo a Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), com uma fatia de 65,6% do volume de vendas de motocicletas de janeiro a outubro deste ano. A segunda colocada nesse quesito é a Yamaha, com 13,8% do mercado.

Instaladas há décadas no Brasil, as duas espalharam concessionárias e investiram em crédito próprio. Hoje, mal conseguem enxergar a concorrência pelo retrovisor: são seguidas de longe por empresas como a chinesa Shineray, com 6% do mercado, e a brasileira Mottu, com 4,8% e tem parceria com a fabricante indiana TVS.

"A motocicleta é um veículo acessível e que proporciona economia de combustível, além de ter um custo de manutenção baixo", diz Sergio Oliveira, diretor-executivo da Abraciclo. "Alguns modelos na faixa de 110 cc (cilindradas) e 125 cc são vendidos a partir de R$ 11 mil. E as motos na faixa de 150 cc e 160 cc, que são as mais adquiridas pelo consumidor, estão na faixa de R$ 20 mil."

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O executivo reconhece que parte da retomada do mercado se deve ao avanço dos aplicativos de entrega de comida, como iFood e Rappi, em meio à pandemia de Covid-19. "Hoje, cerca de 22% das vendas do setor são destinadas ao segmento de delivery", diz Oliveira.

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O segmento de delivery, inclusive, passa por uma nova onda de investimentos no país, com a chegada do capital chinês de 99 e Keeta, que ainda patinam ao tentar acompanhar a passada do iFood, que anunciou investimento de R$ 24 bilhões até março de 2027.

O setor também se beneficia dos incentivos fiscais do Polo Industrial de Manaus. Hoje, mais de 90% da produção do setor encontra-se ali. O mercado de duas rodas, que inclui a produção de bicicletas, alcançou um faturamento de R$ 44,8 bilhões em 2025, tornando-se o segundo maior na Zona Franca, atrás apenas do mercado de bens de informática (R$ 48,1 bilhões).

Sergio Oliveira, da Abraciclo, diz que o setor já criou uma cadeia de infraestrutura e uma centena de fornecedores naquela região, dificultando a migração da linha de montagem para outros locais do país.

"A gente sabe que a Zona Franca de Manaus tem muitos desafios, entre eles a logística. Nós temos a questão dos incentivos fiscais, sim, mas o principal deles, que é o IPI, é revertido para o consumidor", afirma.

Fundada em 2018, a Watts nasceu como uma opção ligada à sustentabilidade nesse setor. Adquirida em 2022 pelo grupo Multi (ex-Multilaser), a empresa corrigiu a rota e diversificou a frota. Hoje, a produção das motos elétricas do modelo W125 é voltada, principalmente, para empresas com compromisso de eletrificação da frota.

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Grandes grupos cervejeiros e de segurança são alguns dos parceiros comerciais. Mas a principal forma de a marca ganhar escala é com os chamados autopropelidos, scooters elétricas que dispensam o uso de CNH (Carteira Nacional de Habilitação) pelo condutor e tem velocidade máxima de 32 km/h.

"A gente foi migrando o nosso portfólio de produtos para esses veículos mais leves, com um custo mais acessível, sem todas as regulamentações, como necessidade de habilitação e de emplacamento. Como o consumidor não paga IPVA, o produto sai mais barato. Hoje, muitos fazem entregas com autopropelidos, até para não tomarem multas", diz Rodrigo Gomes, CEO da Watts.

O executivo diz que a ideia é elevar a produção dos atuais cinco modelos para ao menos oito em 2027. Espaço para crescer existe: o complexo fabril da Watts tem capacidade para produzir cerca de 100 mil unidades por ano, mas menos da metade do potencial de produção é usado atualmente.

Para diminuir a ociosidade da fábrica, a empresa firmou uma parceria para usar o espaço para montar modelos da indiana Royal Enfield.

MOVE BRASIL

O crescimento desse mercado nos últimos anos também é, em parte, fruto de um desejo aspiracional de trabalhadores, sobretudo a população mais jovem, que encontra dificuldade para se encaixar em um padrão de horas trabalhadas exigido pelo mercado formal.

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"A moto, muitas vezes, é uma porta de entrada do jovem para uma atividade remunerada", diz Sergio Oliveira.

O economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social, aponta a necessidade de o país criar melhores condições de trabalho para essa classe. Nos últimos anos, motoristas de aplicativos convocaram diversas manifestações reivindicando mais clareza sobre taxas cobradas pelas plataformas e apoio em casos de acidentes.

"O trabalhador de moto por aplicativos não tem seguro-desemprego e, principalmente, não tem proteção de saúde. Essas pessoas estão optando pela flexibilidade, até para ter mais renda, mas, de certa forma, também estão preferindo correr riscos, porque a precarização desse segmento em relação a acidentes é muito premente", diz ele.

"Esse não é mais aquele mundo sindical onde o Lula cresceu e prosperou. Há um segmento que atua por conta própria hoje, como MEI [Microempreendedor Individual]. Mas acho que o governo está tateando uma forma de atender a esse segmento."

Um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados propõe uma taxa mínima de R$ 8,50 por entrega. As empresas do setor são contrárias à medida, alegando um possível encarecimento do serviço a ser arcado pelo consumidor. Os motociclistas pedem apoio do governo para fazer o texto andar.

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O aceno do governo Lula (PT) ao setor veio com a criação do programa Move Brasil este ano, com melhores condições de juros e financiamento para motoristas de aplicativos, entregadores (motoboys e ciclistas) e taxistas.

Em outubro de 2026, o programa Move Brasil Entregadores e Motoapps alcançou a marca de 21 mil motocicletas financiadas, segundo a Abraciclo. O programa financia até 100% do veículo em 48 meses, sem necessidade de entrada por parte do cliente.

Além das montadoras, plataformas como 99 e iFood fazem parte da iniciativa.

A 99 iniciou uma parceria com a Riba para facilitar a aquisição de 500 scooters elétricas por motoristas elegíveis ao Move Brasil. A empresa também tem acordos com Galgo e Vammo para financiamento e aluguel em condições especiais de motos elétricas.

Ainda, a 99 investiu mais de R$ 45 milhões para fazer parte do Fundo de Eletromobilidade de Duas Rodas da YvY Capital, fundo que busca viabilizar a comercialização de 600 mil motos elétricas até 2035.

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Com 600 mil entregadores ativos, o iFood fez uma parceria com a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil para facilitar o acesso dos bancos aos dados dos entregadores. A empresa também tem uma parceria exclusiva com a Mottu, montadora que também atua como locadora em 200 cidades do país.

Nesse modelo, há desconto e melhores condições de financiamento para aquisição de motos novas ou usadas da Mottu. Além disso, lançou o programa Minha CNH iFood, em que a plataforma arca com cerca de 90% do custo com a CNH categoria A para entregadores que usam bicicletas atualmente. A empresa quer ter pelo menos 2 mil formadas pelo programa em 2027, com a meta de que 40% sejam mulheres.

Centenas de motociclistas com capacetes ocupam várias faixas de uma avenida urbana. Um motociclista no centro usa capacete com estampa de palhaço e jaqueta vermelha. Luzes de veículos e árvores aparecem ao fundo em dia nublado.
Entregadores por aplicativo fazem protesto contra taxas cobradas pelas plataformas - Danilo Verpa - 1º set.26/Folhapress
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