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Sunday, October 25, 2026

O despejo no Largo do Rato nº 2 o sacrifício da realidade

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A acção de despejo no Largo do Rato nº 2.  Com o anúncio por parte do actual lider do PS de que não chumbaria o Orçamento para 2027, abriu-se o campo à esquerda radical para fazer o que sabe e quer: impor o poder da rua face ao das instituições. De cada vez que os directos televisivos dão o microfone ao activista de serviço, há uma conclusão óbvia: o Governo vai ter de ceder. Ao certo não se percebe bem em que teria de ceder o Governo, talvez na Lei das Rendas que nem sequer foi aprovada mas que manifestantes e boa parte dos jornalistas e comentadores apresentam como responsável pela crise da habitação. Por mais absurda que esta associação seja, a verdade é que ela não importa muito porque o grande impacto desta radicalização da esquerda não se fará sentir no Governo (a não ser, claro, que o Governo seja ainda mais alapardado do que às vezes parece, mas esse é outro assunto) mas sim no PS.

As viúvas da geringonça e os ressentidos doutras lutas internas socialistas olham agora com condescendência, simpatia e uma compreensão infinita para os protagonistas das ditas acampadas, não tanto porque lhes apreciem o registo mas sim e muito particularmente porque sabem (e sabem que José Luís Carneiro também sabe) que ao primeiro cartaz a dizer que Carneiro e Montenegro são “farinha do mesmo saco”, o céu adensar-se-á em cima do homem que por agora manda nº 2 do Largo do Rato. Aliás a reacção defensiva de Carneiro já começou:  “José Luís Carneiro desafia primeiro-ministro a deixar cair a nova lei das rendas e a negociar com o PS” lê-se no site do PS. Mas o que na verdade se quer dizer é: José Luís Carneiro vai radicalizar face ao Governo porque não tem margem para negociar.

A visibilidade ampliada das performances da extrema-esquerda acantona Carneiro dentro das linhas traçadas por aquela parte do PS que olha para o actual líder socialista como um inquilino com contrato de prazo. Assim que as sondagens lho permitirem desalojarão Carneiro (ou acreditam que o conseguirão).

José Luís Carneiro pode vir a repetir o caminho de António Jośé Seguro em 2013: cede à pressão interna dos socialistas e ao ruído que vem da rua e dos estúdios de televisão e recua nas negociações com o Governo. O resto é facilmente antecipável: no momento certo surgirá um Costa que será levado em ombros pelos socialistas. jornalistas e demais “istas”. Como prémio consolação talvez José Luís Carneiro se venha a tornar PR.

Quanto a António José Seguro está para breve o momento em que também  ele sofrerá os efeitos colaterais desta radicalização da esquerda. Ou melhor dizendo, o presidente da República vai sofrer o embate resultante de uma parte do PS estar a cavalgar esta vaga de radicalização da esquerda. A possibilidade de alguns voltarem a considerar que Seguro “não cumpre os requisitos mínimos” para ser presidente da República é elevada.

O sacrifício da realidade. A caravana da indignação descobriu mais um caso. É ele o uso do termo sacrifício pelo presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), Benjamin Pereira: “Já fomos todos jovens, não é? (…) E percebemos essa dificuldade. Eu não sei se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício que os nossos pais e os nossos avós fizeram para ter uma casa. (…) os meus avós emigraram para o Brasil e para a Argentina para poderem ter uma casa. O meu pai emigrou durante 20 anos, sacrificou a vida“.

De imediato estas declarações foram passadas a títulos como “Não sei se os jovens se sacrificam para ter uma casa, como os nossos pais e avós se sacrificaram” . Ou seja, onde Benjamim Pereira falou de “sociedade actual” (e uma sociedade é constituída por várias gerações) passou a falar-se de jovens, o que tornava automaticamente as palavras de Benjamim Pereira numa ofensa aos jovens. Quase de imediato o presidente do IHRU tornou-se no saco de pancada da indignação do dia. O Bloco pediu a demissão de Benjamim Pereira e Miguel Pinto Luz, ministro da Habitação de quem depende o IHRU, “Reagiu no Jornal Nacional da TVI a 23 de outubro de 2026, considerando as declarações “absolutamente infelizes” e afirmando que não se revê em tal perspetiva, embora tenha optado por não retirar a confiança política “em direto”, mas sim pedir explicações formais ao presidente do IHRU.”  (Realmente esta possibilidade de os governantes passarem a retirar  a confiança política em directo é uma via político-jornalística a explorar!) E por fim, mas não sei se por último, Benjamim Pereira fez um comunicado a pedir desculpa pelas declarações infelizees. 

Enfim, tudo isto é efectivamente muito infeliz. Mas o que realmente choca e preocupa nesta polémica é a revolta gerada pelo uso do termo sacrifício. Moralismo e saudosismo foram algumas das palavras usadas para classificar o uso da palavra sacrifício, como se o sacrifício estivesse excluído dos dias de hoje. Ora não só isso não é verdade como a questão do sacrifício se vai colocar de uma forma particularmente cruel aos jovens de hoje. Porque se lhes vai colocar não quando são jovens mas sim quando forem menos jovens. Ou velhos.

Durante décadas as gerações cresciam e sucediam-se com a convicção de que os filhos iriam viver melhor que os pais. Ora isso está a deixar de ser verdade. As gerações que nasceram em meados do século passado tiveram vidas inicialmente dificílimas mas, e aqui reside a diferença substancial com os jovens de hoje, conseguiram ao longo da vida mudar para melhor.

Ora com os jovens de hoje a cronologia arrisca-se a ser precisamente inversa: tendo, por comparação com aqueles que os antecederam, vidas muito confortáveis e tendo sido educados na ilusão de um mundo “chave na mão”, os jovens de hoje arriscam-se a ver chegar o sacrifício, no sentido literal do termo,  já em adultos e sobretudo em velhos. Os jovens de hoje caíram na armadilha perfeita: doutrinados pela esquerda, acabam, da segurança social ao arrendamento  sem esquecer a legislação do trabalho ou a dívida pública, a defender no presente tudo o que lhes vai canibalizar o futuro.

Qual o nível de sacrifício que os jovens de hoje terão de suportar quando deixarem de ser jovens? -— é a pergunta que os jovens e não jovens de hoje deveriam fazer.

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