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Friday, October 30, 2026

O dia em que a descampada recuou para tomar balanço

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Contra a “bófia” e a própria Assembleia Popular, “fruta para caraças” e a “gula continua”

Houve propostas mais radicais, como as que foram lidas por um coletivo de camaradas contra a autoridade. Esse grupo acusou a própria organização da Acampada de ser “vertical” e criticou existirem “discursos oportunistas e com motivações partidárias”. O grupo diz que não é apenas contra “a autoridade do Estado, do capital e da bófia”, mas também “contra modelos autoritários, protoparlamentares”. E despediram-se a dizer que não querem “líderes, organização ou o comité central”, mas apenas “prazer, satisfazer o prazer aqui e agora, junto das nossas companheiras”. E remataram: “Saúde e anarquia“.

Um outro manifestante, apresentado como Cancelinha, saiu em defesa da Assembleia Popular, que considera um “espaço de partilha e diálogo”, que destaca ser muito mais horizontal e democrático e que “nada tem a ver com o Parlamento burguês da Assembleia da República”. Propõe, por isso mesmo, manter as atuais três estruturas de decisão: Assembleia Popular, Plenário de delegados e Grupos de afinidade. António Tonga, outro dos porta-vozes, também corroboraria a defesa da Assembleia Popular: “Podemos melhorá-la, mas acabar com ela era mandar o bebé fora com a água suja”.

Foi ainda proposta a mudança das Assembleias Populares das 19h00 para as 21h00 para que a equipa da cantina e da logística possa participar (sexta-feira ainda será às 19h00). Essa equipa acabaria por intervir e pedir mais donativos, incluindo comida, que já começa a faltar. Fruta é que não. “Graças à Fruta Feia [associada da Plataforma Casa para Viver] há fruta para caraças.” O grupo despediu-se com um slogan personalizado: “A gula continua“.

Ao longo da Assembleia Popular foram feitos ainda vários apelos para que os manifestantes nunca saíssem do espaço sozinhos, sugerindo que pode haver ataques de extrema-direita nas ruas de Lisboa. Foi ainda solicitado que as propostas apresentadas fossem exequíveis e que se evitassem propostas utópicas e irrealizáveis como “abolir o Estado”. Até porque já existem “várias páginas de propostas por cumprir”.

Antes da Assembleia Popular acabar, ainda subiram três mulheres transgénero ao palco a acusar a própria Acampada de ser heteronormativa, de ter uma visão cis do mundo e de as excluir. Apesar das fortes críticas, e da pouca clareza do discurso em alguns momentos, puderam falar mais tempo que os três minutos de limite que tiveram os demais intervenientes. A Assembleia Popular chegou ao fim com música de intervenção a sair das colunas (que como é habitual) fica até às 00h30 a tocar. Por essa hora, a organização arruma tudo.

Acampada está para ficar (sem pausa natalícia)

Os manifestantes estão empenhados em que haja continuidade na Assembleia Popular, que seja diária, mesmo que isso não exista no caso das pernoitas e dos acampamentos que dão nome ao movimento. A Câmara de Lisboa, sabe o Observador, já informou a organização que, na próxima segunda-feira, dia 3 de novembro, vão começar a ser montadas as estruturas do habitual Mercado de Natal do Rossio. Apesar de o mercado só começar no dia 13, há entre os manifestantes quem desconfie que a autarquia utilizará a montagem para tentar acabar com as concentrações no Rossio.

Teresa Mamede, uma das porta-vozes do movimento, disse à Agência Lusa que pretendiam manter-se no local apesar do Mercado de Natal organizado pela Associação de Dinamização da Baixa Pombalina entre 13 de novembro e 21 de dezembro. “O mercado de Natal do Rossio parece-me um problema irrisório perante aquilo que são as mobilizações justas que estão a acontecer nesta praça pelo direito à habitação, pelo fim da precariedade nas nossas vidas, e, portanto, estas mobilizações vão continuar enquanto o movimento popular assim quiser e assim se mobilizar para o fazer”, disse Teresa Mamede. O também porta-voz João Veloso reiterou ao Observador essa intenção de permanecer no Rossio, embora a organização nunca exclua prosseguir a luta noutro local.

As propostas desta quinta-feira vão ser todas votadas esta sexta-feira, mas não impactam no protesto que vai começar no sábado às 16h00 no Largo Camões e que descerá até ao Rossio. Nessa noite serão também montadas várias tendas, embora, até ao momento de uma eventual intervenção policial, esteja sempre em aberto — como já fizeram em algumas circunstâncias — os manifestantes retirarem as tendas. Tudo é estratégia. E os manifestantes tentam prever a melhor jogada. Talvez por isso vários ativistas tenham começado jogos de xadrez pouco depois do fim da Assembleia Popular. No tabuleiro, é claramente mais fácil saltarem de casa em casa.

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