Política e ativista italiana Emma Bonino morre aos 78 anos

Emma Bonino morreu em Roma esta sexta-feira, confirmou o partido que fundou, Più Europa, nas redes sociais. A primeira candidata à presidência da República Italiana, ex-comissária europeia da Política do Consumidor e Pescas e ministra de dois Governos destacou-se pelas lutas que protagonizou no âmbito dos direitos civis e que defendeu independentemente de ter apoio à esquerda ou à direita. Bonino foi hospitalizada em Roma no passado mês de dezembro com uma insuficiência respiratória, da qual nunca recuperou.
Emma ci ha lasciati ma non ci lascerà mai.
Oggi non ci lascia soltanto la nostra leader, ci lascia una delle protagoniste più lucide, coraggiose e libere della storia politica del nostro Paese e del mondo libero.
Emma fu “scelta dalla politica radicale” quando un divieto… pic.twitter.com/hynLgDWzNo
— Più Europa (@Piu_Europa) September 11, 2026
“A sua vida foi uma longa luta contra tudo o que nega a liberdade: contra o aborto clandestino, a fome mundial, o domínio da política partidária, a mutilação genital feminina, a justiça punitiva, o genocídio e todas as formas de autoritarismo”, recordou o partido europeísta de centro-esquerda que fundou em 2017.
O envolvimento público de Bonino na política começou quando fundou o CISA (Centro Informação, Esterilização e Aborto), em 1975, após realizar um aborto clandestino. Acreditando ser estéril, engravidou aos 27 anos, o que deu início à luta de uma vida a favor da legalização da interrupção voluntária da gravidez — que acabou por ser permitida no país em 1978. Numa altura em que o procedimento era ilegal, Bonino anunciou publicamente tê-lo feito, num ato de desobediência civil, que visava chamar a atenção para o tema e que conduziu à sua detenção.
Durante esse período, Emma Bonino conheceu Adele Faccio, ativista dos direitos das mulheres e figura proeminente do Partido Radical, e juntou-se à campanha pela legalização do aborto. Em 1976, foi eleita deputada pelo partido de esquerda, numa altura em que as mulheres jovens no Parlamento italiano eram uma raridade.
“Durante décadas, Emma Bonino foi uma voz importante e reconhecida na política italiana, defendendo as suas ideias com determinação. Os nossos percursos e sensibilidades eram muito diferentes, mas isso nunca me impediu de reconhecer a sua influência e papel na vida pública da nossa nação”, afirmou a primeira-ministra, Giorgia Meloni, numa mensagem publicada nas redes sociais.
Emma Bonino ha rappresentato per decenni una voce forte e riconoscibile della politica italiana, portando avanti le sue idee con determinazione.
Le nostre storie e le nostre sensibilità sono state lontane, ma questo non mi ha mai impedito di riconoscerne il peso e il ruolo nella…
— Giorgia Meloni (@GiorgiaMeloni) September 11, 2026
Mesmo depois de o Partido Radical ter perdido força, Bonino manteve-se uma figura política importante e defensora dos direitos humanos, ativa em Itália durante mais de cinco décadas. Em 1993, fundou a organização Nessuno Tocchi Caino (Hands Off Cain), contra a pena de morte, com Marco Pannella — parceiro político de Bonino desde os anos do Partido Radical. A parceria que mantiveram durante décadas chegou ao fim nos últimos anos da vida de Pannella, que morreu em 2016. A razão para a rutura, que o jornalista e político anunciou publicamente, resultou de um alegado afastamento de Bonino em relação às ideias que defendeu durante a maior parte da vida.
Em 1999, a ativista e política candidatou-se à presidência de Itália, mas não conseguiu tornar-se na primeira mulher a ocupar o Palácio do Quirinal. Depois disso, teve a seu cargo a pasta do Comércio Internacional e das Políticas Europeias, no Governo de Romano Prodi (2006-2008), e dos Negócios Estrangeiros, sob a liderança de Enrico Letta (2013-2014) — ambos políticos do Partido Democrático Italiano, de centro-esquerda. Bonino já havia desempenhado a função de comissária europeia da Política do Consumidor e Pescas, sob o executivo de Silvio Berlusconi, entre 1995 e 1999. Pelas parcerias com políticos de esquerda e de direita, foi acusada de ser “vira-casacas”, recorda o Corrière della Sera.
“A Europa pela qual ela lutou sentirá a sua falta”, reagiu a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, destacando como Bonino “nunca esperou que o mundo estivesse preparado” para defender o que achava correto. “Ela escolheu sempre seguir em frente, mostrando o caminho aos outros”, disse, garantindo que “é assim que será recordada em Itália e em Bruxelas”.
Emma Bonino é conhecida ainda hoje pelas gerações mais jovens de italianos, que recordam as participações frequentes na televisão do país e a sagacidade e perceções incisivas do seu comentário político. Após um diagnóstico de cancro do pulmão, em 2015, passou a aparecer sempre em público com lenços coloridos na cabeça. A doença foi superada em 2023, mas o seu estado de saúde continuou frágil.
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