Caio Mutai celebra representatividade: 'A luta continua por todos nós'

Caio Mutai chega a setembro vivendo um daqueles momentos em que projetos realizados ao longo de anos finalmente começam a encontrar o público. Enquanto Furnas Fundas estreia nos cinemas, AYÔ inicia sua trajetória internacional com passagens por Berlim e Nova York, numa sequência que, para o ator, materializa um período de trabalho intenso nos bastidores e abre espaço para uma nova etapa profissional.
“Representa um momento de consolidação, colheita e celebração. Esses trabalhos foram gravados em 2023 e 2024 e estavam no forno, ficando prontos. Audiovisual é assim, você planta e vai colher algum tempo depois. O que me deixa mais feliz é que estou numa fase de colher sempre, pois venho gravando e plantando coisas todos esses últimos anos. Agora tá vindo tudo de uma vez”, conta ele, em entrevista exclusiva à Quem.
A celebração, no entanto, aparece acompanhada de uma percepção muito clara sobre o espaço que ocupa e sobre as dificuldades ainda enfrentadas por artistas descendentes de asiáticos no mercado audiovisual brasileiro. Mutai, que passou a abordar publicamente o tema com cada vez mais frequência, diz enxergar as próprias conquistas também a partir de uma dimensão coletiva.
“Graças a Deus, junto da colheita, sigo plantando para o futuro próximo. Vejo-me entre os poucos amarelos que têm conseguido trabalhar sempre, então fico extremamente feliz, é claro, mas sei muito bem os desafios que enfrento e também sei das condições escassas que nós enfrentamos. A luta continua por todos nós, independentemente das conquistas individuais. Tento ajudar quem eu posso, assim como fui e sou muito ajudado”, afirma.
O ator reconhece que a possibilidade de sua trajetória servir de referência para outras pessoas ganhou uma dimensão que ele próprio passou a compreender à medida que conquistou espaço na profissão. Segundo ele, mensagens recebidas de outros artistas e do público tornaram mais concreta a importância de se reconhecer na tela.
“Eu tenho alguns amigos artistas amarelos em quem me inspiro hoje. Sempre pensei, então, que, quando começasse a trabalhar como eles, eu poderia inspirar outras pessoas também. E assim foi feito! A cada trabalho, a cada conquista, eu recebo tantas mensagens de outros artistas amarelos ou até mesmo não artistas contando suas histórias, é de emocionar. O que normalmente vem em comum entre todas as mensagens é: ‘obrigado por me fazer sentir que eu existo’.”
Para Mutai, essa percepção ganhou outro peso quando ele deixou de apenas assistir a outros atores de descendentes de asiáticos ocupando esses espaços e passou a experimentá-los pessoalmente. “Eu entendi a importância da representatividade quando vi colegas amarelos nas telas, mas eu entendi o real poder que isso tem quando eu estive nas telas. É lindo.”
Transformação para viver Yukun
Em Furnas Fundas, essa presença nas telas veio acompanhada de uma transformação física radical. Para interpretar Yukun, Mutai raspou a cabeça, teve o corpo pintado e passou pelo uso de próteses e por um processo intenso de caracterização até chegar à aparência definitiva do vampiro.
“Mudamos esse visagismo desde a primeira prova até o primeiro dia de set. O cabelo raspado veio por último, por sugestão minha. Foi um choque. Mas foi legal ter decidido por conta própria raspar; senti-me poderoso. Senti-me doando parte de mim ao personagem. Tirando a vaidade mesmo, deixando-a de lado. Foi incrível ver o Yukun pronto”, relembra.
A experiência também permitiu ao ator entrar em um território que desejava explorar profissionalmente. “Aqui no Brasil não tem muitas obras fantásticas que apostem em tanta caracterização, normalmente é mais realista. Então poder me ver sendo transformado num vampiro, esse ser icônico da cultura pop, foi definitivamente um sonho sendo realizado.”
“Existe uma ferida gigante”
A maior visibilidade profissional também coincidiu com um processo pessoal de revisão de experiências que, durante anos, Mutai havia encarado como parte natural de sua vida. Ao aprofundar a discussão sobre representatividade, conta que começou a reinterpretar situações e sentimentos que o acompanharam desde mais jovem.
“Mudou em quase 180 graus. Nos primeiros momentos cheguei a me perguntar ‘o que diabos eu sou?’. Tantas coisas que eu pensava, achava, aceitava como ‘normais’, mas que sempre me fizeram mal, me diminuíram perante meus colegas. Sempre me senti menos, m enos legal, menos agradável, menos bonito, menos talentoso, insuficiente.”
Essa mudança de perspectiva, segundo ele, trouxe liberdade, mas também um processo doloroso de desconstrução. “Descobrir que, na verdade, isso sempre foi a visão dos outros e que é proveniente de uma consciência estrutural racista, foi ao mesmo tempo libertador, mas também saiu de mim arrancando o couro. Eu também pensava dessa forma. Eu também me fazia mal.”
Mutai reconhece que levantar publicamente essa discussão não significa que todos esses impactos estejam resolvidos individualmente. “Posso ser sincero? Acho que nós, amarelos, vamos lutar por muito tempo contra isso, dentro de nós mesmos. Não é fácil mudar o pensamento. Embora eu levante a bandeira, existe uma ferida gigante que nasceu aberta e certamente ainda está em processo de ser fechada.”
Dois projetos no Globoplay, cinema e retorno aos musicais
Se setembro concentra algumas das realizações de projetos gravados nos últimos anos, a agenda futura indica que essa sequência continuará entre o fim de 2026 e 2027. Mutai revela já ter novos trabalhos confirmados para streaming, cinema e teatro, embora parte deles ainda seja mantida em segredo.
“É o momento em que todas as coisas estão realmente florescendo. Passei todos esses últimos anos gravando um monte de coisa legal e agora vamos poder ver tudo pronto”, afirma.
Entre os projetos já encaminhados estão duas produções destinadas ao Globoplay. “Finalizei uma série recentemente que estreará na Globoplay ano que vem e tem mais um projeto também para entrar lá. Dois segredos ainda! Então serão duas novas estreias na Globoplay, além de As Five que já está lá.”
O cinema também continuará ocupando espaço importante em sua agenda. Mutai adianta que deve iniciar ainda em 2026 as filmagens de um novo longa, no qual será protagonista, e confirma a chegada de outra produção realizada anteriormente. “Ainda esse ano devo iniciar as gravações de um longa que está em pré há alguns meses, no qual serei protagonista.”
Para 2027, o ator também prepara uma volta aos palcos em um território conhecido de sua trajetória. “Já no início do ano que vem começo a ensaiar um musical que será meu retorno aos licenciados da Broadway com um personagem bem legal e recentemente foi confirmado o lançamento para 2027 de mais um longa que gravei também em 2024, ‘Dorian Gray’.”
Entre a chegada dos trabalhos já realizados e os novos projetos que começam a ganhar forma, Mutai define o presente como parte de um ciclo contínuo, no qual cada conquista convive com a consciência do caminho ainda a ser ampliado. “Eu definitivamente não estaria aqui sem certas pessoas que cruzaram o meu caminho e espero que cada vez mais meus colegas amarelos entendam que juntos conseguiremos conquistar mais e, sim, olhar para o caminho construído com muito orgulho.”
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